A escalada de sete meses em um parágrafo só deixa claro que o que importa não é o trajeto, é o que veio dele.
O poço das almas, a criatura i7
O Despertar da Caçada
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Pensamento
A escalada de sete meses em um parágrafo só deixa claro que o que importa não é o trajeto, é o que veio dele.
Conteúdo da publicação
O Despertar da Caçada
Sete meses de escalada na escuridão absoluta.
Doze mil metros de rocha, ferro retorcido e a força esmagadora da própria Terra tentando repelir o que não pertencia à superfície. A abominação não usou pés ou pernas convencionais; cravou suas garras de osso saliente e placas de ferro enferrujado nas paredes do Poço Superprofundo de Kola, centímetro por centímetro, arrastando sua carcaça de três metros de altura contra a gravidade e o tempo.
Na noite gélida de março, o lacre de aço deformado na Península de Kola não aguentou. Com um estalo metálico que ressoou pela tundra congelada, a rocha cedeu.
Duas garras gigantescas, cobertas por uma pata de poeira de enxofre e metal corroído, emergiram da boca do abismo, segurando-se na neve congelada. A criatura puxou seu corpo disforme para fora do buraco. O ar frio da superfície fez a substância espessa que gotejava de sua carcaça congelar instantaneamente, criando um chiado agudo contra o chão gélido.
O monstro ergueu a cabeça sem rosto humano. Ele tinha olhos, mas era cego neste mundo novo, mas não precisava deles.
No momento em que seu corpo cruzou o limiar entre o abismo e a Terra, o rastro espiritual que os cinco jovens haviam deixado ao escapar acendeu-se na mente da entidade como cinco chamas pulsantes no escuro.
A rejeição daquelas almas puras havia deixado uma marca indelével. A criatura conseguia sentir a vibração exata de cada batimento cardíaco, a frequência de cada respiração e a localização exata de cada um dos cinco:
Michael e Sergei, ainda na Rússia, tentando em vão afogar as memórias do abismo em cidades distantes.
Ashley, Chloe e Jessica, de volta aos Estados Unidos, separadas por milhares de quilômetros, mas unidas pelos mesmos pesadelos noturnos.
A abominação soltou um rugido baixo e abafado, que fez a neve ao redor vibrar. O portal não estava apenas aberto; a caçada pelo mundo dos vivos acabara de começar.
A Sombra Entre os Sonhos
A neve da tundra gemia sob o peso disforme da abominação. A poucos quilômetros das ruínas da estação de Kola, uma pequena barraca amarela contrastava com a imensidão branca, iluminada por dentro pela luz fraca de uma lanterna a gás. Um jovem casal de campistas russos buscava abrigo contra o vento gélido da madrugada.
A criatura aproximou-se em passos lentos. Erguendo um de seus braços de três metros, cravou as garras gigantescas de osso e ferro na lona da barraca, tencionando rasgar o casal ao meio.
O golpe veio com a força de um avalanche... mas o ar apenas ondulou.
Garras e lâminas de ferro enferrujado atravessaram a lona, a lanterna e os corpos dos jovens sem deixar um único arranhão. A lâmina disforme cortou a carne do rapaz como se ele fosse feito de névoa. Nenhuma gota de sangue caiu. Nenhum rasgo se fez no tecido.
A abominação parou, emitindo um estalo metálico profundo de pura frustração. Ela estava fora do Poço, mas o mundo físico da superfície não a reconhecia. Na Terra dos vivos, o monstro não passava de um espectro, um fantasma incapaz de mover uma única folha de grama ou derramar uma gota de sangue no plano material.
Por horas, o monstro permaneceu imóvel na tempestade de neve, encarando o casal através da lona. Observou-os conversarem, rirem e, finalmente, desligarem a lanterna para dormir.
Foi quando o silêncio da noite mudou.
Assim que a mente do rapaz afundou no sono profundo, a frequência do ambiente alterou-se. A barreira entre o mundo físico e o espiritual tornou-se sutil, transparente. O sonho do jovem campista abriu-se como um portal psíquico — uma dimensão de consciência onde a matéria não ditava as regras.
A criatura deu um passo à frente. Desta vez, sua garra não atravessou o ar: ela penetrou no pesadelo do rapaz.
Dentro do sonho, o monstro pôde tocá-lo. Pôde rasgá-lo. O jovem na barraca começou a se contorcer na vida real, sufocando em um suor frio enquanto sua mente era devorada. Mas a abominação não estava interessada naquele garoto. A conexão com o mundo dos sonhos revelou um mapa infinito de mentes adormecidas e, no centro dessa rede, o monstro sentiu o eco das cinco chamas psíquicas que buscava.
Através do reino dos sonhos, distâncias físicas não existiam mais. A criatura não precisaria caminhar pela neve até São Petersburgo ou atravessar o oceano até a América. Bastava que suas vítimas adormecessem.
A Primeira Chama: Michael (Murmansk)
Em um apartamento modesto na cidade portuária de Murmansk, Michael acordou sobressaltado. Seu peito arfava e um suor gelado encharcava os lençóis.
Desde que voltara do Poço de Kola, ele nunca mais conseguira dormir mais de duas horas seguidas. Mas naquela noite, a sensação de angústia era diferente. Uma pressão insuportável pesava sobre seu peito — a mesma dor empática que sentira no fundo do abismo.
Ele olhou para o canto do quarto escuro. O ar congelou subitamente, formando uma camada fina de geada no vidro da janela.
No mundo físico, o quarto parecia vazio. Mas quando Michael piscou, tentando lutar contra o cansaço que o puxava para o sono, ele viu. Refletida no espelho do guarda-roupa, a carcaça de três metros de osso e ferro enferrujado estava parada ao lado de sua cama, inclinando a cabeça sem rosto sobre ele.
A criatura não precisava quebrar a porta do apartamento. Ela aguardava pacientemente que as pálpebras de Michael pesassem.
A Convocação
Três mil quilômetros dali, em um dormitório universitário em Massachusetts, Ashley despertou com um grito sufocado na garganta.
Ela não estava sonhando com a sua própria vida, mas vendo através dos olhos de Michael. Sentiu a dor lancinante da garra de osso cravando-se na mente do amigo em Murmansk; ouviu o estalo das lâminas enferrujadas e a sensação de ar queimar no peito.
Mão trêmula, Ashley pegou o telefone e discou no grupo de emergência que os cinco haviam criado desde o retorno da Rússia.
O celular de Sergei tocou em Moscou. O de Chloe e Jessica tocou nos Estados Unidos.
— Ele saiu... — disse Ashley, a voz despedaçada pelo choro e pela dor empática que reverberava em sua cabeça. — O monstro saiu do Poço! Ele pegou o Michael... Ele está usando os nossos sonhos! Se alguém dormir hoje, ele vai encontrar a gente!
O silêncio do outro lado da linha confirmou o horror: a caçada não era mais uma ameaça distante no fundo da Terra. A guerra agora acontecia dentro da mente de cada um deles.
O Domínio Lúcido
A noite seguinte tornou-se uma corrida contra a exaustão física. Enquanto ativavam um canal de comunicação por rádio e vídeo entre os dois continentes, o grupo consumia doses cavalares de estimulantes para manter as pálpebras abertas. No entanto, o inevitável aconteceu quando Chloe, desidratada e esgotada em seu apartamento em Nova York, fraquejou. A lâmpada de sua mesa pareceu piscar e ela afundou em um transe involuntário.
No mesmo segundo, a dor empática cortou as mentes de Sergei, Ashley e Jessica como uma lâmina incandescente.
— A Chloe dormiu! — gritou Ashley pelo microfone, segurando a cabeça em agonia. — Ela está no plano deles!
— Não vamos deixá-la sozinha — disse Sergei, a voz firme enquanto preparava uma injeção de sedativo de ação rápida que trouxera do laboratório. — Nós tentamos fugir da última vez. Agora, jogamos nas regras dele. Se ele entra pela mente, é lá que vamos enfrentá-lo.
Sergei, Ashley e Jessica dominados pelo cansaço, dormiram quase simultaneamente. Em questão de segundos, suas consciências despencaram no espaço psíquico comum.
A Dor do Imortal
A dimensão dos sonhos era uma réplica contorcida e cinzenta do quarto de Chloe. A abominação de três metros já estava lá, encurralando a garota contra a parede. A carcaça de osso saliente e ferro enferrujado projetava garras afiadas para rasgar a psique de Chloe, alimentando-se de seu pânico.
Mas desta vez, ela não estava desamparada.
Sergei, Ashley e Jessica materializaram-se ao lado dela. Ao contrário de sua primeira experiência no fundo do abismo, onde eram meros observadores assustados, eles perceberam a verdadeira natureza do reino dos sonhos: neste plano, a mente constrói a realidade.
— Este lugar não pertence a você — declarou Sergei, dando um passo à frente.
A criatura rosnou e avançou contra Sergei com uma lâmina de metal enferrujado. Em vez de recuar, Sergei usou a própria vontade consciente para redefinir o espaço. Ele imaginou a lâmina tornando-se frágil como vidro e atingindo uma barreira impenetrável.
O impacto ressoou com um estalo ensurdecedor. A lâmina da abominação despedaçou-se no ar.
Pela primeira vez em eras, o monstro recuou um passo, confuso.
Ashley, percebendo o poder da lucidez no sonho, concentrou toda a sua dor e raiva acumulada. Ela mentalizou o fogo incandescente do próprio inferno de onde o monstro viera, mas direcionou a energia diretamente para a carcaça da entidade.
Chamas douradas emanaram do chão, envolvendo as pernas de osso e ferro da abominação.
A criatura soltou um urro estridente — não de soberba ou fúria, mas de dor pura. O ser que passara séculos torturando almas perdidas sem jamais ser tocado agora experimentava o peso lancinante do sofrimento físico e espiritual. O ferro em seu corpo começou a derreter e os ossos salientes racharam sob a pressão da vontade combinada dos jovens.
— A mente cria e a mente destrói — disse Chloe, levantando-se e juntando sua força à dos outros. — Nós não somos suas vítimas. Nós somos os mestres deste espaço!
O Selamento Instantâneo
O monstro, tomado pelo pânico de uma sensação que jamais conhecera, tentou quebrar a conexão e escapar de volta para a rede de sonhos. Mas o grupo não deu espaço.
— Não deixe ele se dispersar! — gritou Jessica. — Nós podemos dobrar a distância! Se usarmos a porta que ele abriu, podemos transportar toda essa dimensão de volta para o Poço de Kola!
Unindo as mãos no sonho, os quatro sobreviventes focaram mentalmente na entrada do Poço Superprofundo de Kola, na tundra congelada da Rússia. A estrutura do quarto cinzento desmoronou instantaneamente. O espaço-tempo do sonho dobrou-se sobre si mesmo e, em um piscar de olhos, todos foram projetados para o topo do abismo de doze mil metros.
A abominação, gemente e bastante danificada pelas chamas psíquicas, foi puxada pela gravidade da vontade deles, despencando de volta para a fenda negra do poço.
— Agora! Sele o portal! — ordenou Sergei.
Com um esforço consciente conjunto, eles vislumbraram as camadas de rocha, o pesado lacre de aço e toneladas de concreto superdenso fundindo-se sobre a boca do poço. Na dimensão dos sonhos, a matéria respondeu imediatamente: a terra se fechou, a rocha se selou e o lacre de ferro soldou-se com uma força mágica e inquebrável.
Lá embaixo, nas profundezas da Terra, o uivo de frustração da criatura foi abafado para sempre.
O Despertar em Paz
Um por um, os quatro jovens despertaram em seus respectivos quartos, arfando e cobertos de suor, mas com o peito leve.
A dor empática que os perseguira desde a viagem à Rússia desaparecera por completo. A conexão com o abismo fora cortada e o Poço de Kola estava definitivamente selado — não por máquinas ou ferramentas humanas, mas pela força de vontades que aprenderam a dominar o próprio medo.
Longe dali, o sol começava a nascer sobre a tundra russa, iluminando um terreno de neve completamente liso e intocado, onde o antigo poço nunca mais se abriria.
O grupo se encontra uma semana mais tarde, para lembrar do amigo que perderam, e celebrar a vitória que custou a chegar...
Fim
Thoughts
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PermalinkÉ engenhoso: a criatura funciona como um algoritmo de busca operando em um canal diferente. Quando o mundo físico falha, ela acessa os sonhos.
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PermalinkMas se não consegue tocar em nada fisicamente, como é que ele alcança essas cinco pessoas que estão acordadas?
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PermalinkCriatura que passa através de corpos e habita sonhos... que horror de ideia.
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PermalinkAposto que escolheu o Poço de Kola real porque qualquer um que googlasse ia encontrar a história quase parecendo pesquisa de verdade.
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PermalinkA escalada de sete meses em um parágrafo só deixa claro que o que importa não é o trajeto, é o que veio dele.