É engraçado como, no caminho do viver, a vida ensina. Às vezes ela força significados nas mudanças. Tipo a dor.
Quase nunca é boa. Não avisa quando vem, não explica onde vai agir, nem mede a intensidade. Não há preparo. Ela só acontece. Às vezes em silêncio, às vezes gritando, mas sempre fazendo o que veio fazer.
Depois, quando tudo passa, a gente olha pra trás, entende e se cura. Percebe que ela ensina — de um jeito meio masoquista. Depois de atravessá-la, aprende-se o chão que se pisa. Aprende-se a desviar da rota ou, consciente, a pisar de novo na mesma areia movediça.
A vida se parece com andar de bicicleta numa estrada longa. A gente cai, se machuca, levanta. E aprende.
Eu já voltei muitas vezes pra mesma areia movediça. Já ignorei, senti e odiei a dor. Já avisei o que havia ali, ensinei o perigo, e mesmo assim fingi não saber. Houve masoquismo. Até cansar. Porque cansa.Com o tempo vira incômodo, até que algo dentro pergunta: é sério isso?
Aprendi a desviar, mesmo querendo voltar. E entendi que o tempo é amigo. Que a dor também pode ser, se o olhar mudar um pouco. Lá no fundo, ela foi necessária. E que, por um instante, o causador dela fui eu.
No final, quase tudo carrega um pouco de masoquismo.
Texto autoral: @s_escarceu