Capítulo 1: A Fuga na Floresta
— Corre, por aqui, Ana! Não olha para trás! — gritei, brigando com o meu próprio fôlego enquanto rasgava as folhas gigantes de taioba e afastava cipós que pareciam chicotes no escuro da mata. Os galhos arranhavam meus braços, e eu nem sentia.
O ar da Amazônia entrava nos meus pulmões como fogo, pesado de umidade e carregado com o cheiro inconfundível de terra molhada e mato pisoteado, com um fundo metálico de medo que eu sentia na língua. Cada passo exigia um cálculo milimétrico: o chão era um tapete traiçoeiro de folhas em decomposição que escondia raízes retorcidas, buracos ocultos e, pior do que isso, a fauna letal da floresta que não se importava minimamente se éramos bruxos ou não-bruxos.
— Estou colada em você, Luca, mas minhas pernas não têm o alcance das suas! — retrucou Ana, a voz falhando pelo esforço.
Ouvi o som abafado de um tropeço seguido pelo farfalhar rápido das folhas. Ela havia caído. Meu coração subiu até a garganta e ficou ali, batendo. Sem parar de correr, estiquei o braço para trás às cegas, tateando o ar até encontrar a palma da mão dela. Com um puxão bruto, ajudei-a a se erguer antes que o pior acontecesse. Ela recuperou o prumo de imediato, respirando aos arrancos, com os olhos arregalados sob a franja colada de suor.
Não podíamos nos dar ao luxo de desacelerar nem por um único segundo. A menos de cem metros atrás, o solo da floresta literalmente gemia. Um tremor rítmico, pesado e aterrorizante fazia as folhas vibrarem nos galhos mais altos. Eram eles. Dava para ouvir a mata sendo esmagada, troncos finos rachando como ossos. Quatro Morguleses gigantes, verdadeiras torres de músculos e crueldade, marchando com a fúria implacável de quem tinha uma missão de extermínio. A serviço da Aliança Revolucionária — a facção infame liderada por Lurdes e seus bruxos renegados —, eles caçavam estudantes do Instituto Xingu havia luas. Para eles, nós não éramos apenas alvos; éramos troféus. E se nos alcançassem, o julgamento seria sumário. Não haveria clemência, apenas cinzas.
O som estrondoso e contínuo da água começou a cortar o silêncio sufocante da selva, abafando o eco dos nossos próprios passos desesperados.
— Estamos quase lá, Ana! Vamos ter que saltar em breve, e você vai precisar confiar em mim com cada célula do seu corpo. Tudo bem? — gritei por cima do barulho da correnteza que se aproximava.
Ela assentiu com o queixo firme, os lábios pálidos, mas os olhos brilhando com aquela coragem teimosa que sempre me impressionava nela.
A selva amazônica não perdoava quem corria sem olhar. Enquanto disparávamos, lembrei-me das aulas de ervas encantadas da professora Stella: um passo em falso na direção errada podia significar pisar em uma touceira de espinhos venenosos de esmeralda, capazes de paralisar a circulação em minutos, ou cruzar o caminho de uma jararaca à espreita. Mas, naquele momento, a única peçonha que nos importava vinha logo atrás de nós, a passos de gigante.
Atrás, cortando a umidade da noite que caía sobre a mata, um grito agudo irrompeu de repente:
— Socorro! Alguma coisa me picou no tornozelo! Não consigo andar!
A voz era rouca de dor, e não tive tempo de descobrir a quem pertencia. Ana estancou por um segundo instintivo, o peso da culpa e o coração mole falando mais alto. Ela diminuiu o passo, virando o rosto na direção do som:
— Luca, vamos parar para ajudar! Ele vai morrer se ficar para trás!
— Nem pensar! — esbravejei, segurando firmemente o pulso dela e forçando-a a continuar correndo. — A gente só para quando saltar! Se pararmos agora, morremos nós dois!
— Saltar?! — ela berrou, a incredulidade rasgando sua voz.
— É, saltar! Como acha que vamos despistar quarenta toneladas de pura raiva mágica?
O rio rugiu diante de nós antes que ela pudesse retrucar. A cachoeira, que vista de longe parecia apenas um fio prateado cortando o verde denso, despencava de uma altura de gelar a barriga, com uma força implacável, direto sobre um lago cristalino cercado de pedras polidas pela erosão de séculos. O impacto da água abria um bolsão d'água espumoso e raso bem na base da queda, antes que o rio seguisse seu curso sinuoso mata adentro. Era o nosso único refúgio... ou o nosso fim.
Parei bruscamente na borda de pedra escorregadia, estendi os dois braços e firmei os dedos nos dela, sentindo sua pele gélida e trêmula.
— No três! Um... dois... três!
E demos o passo no vazio.
O mundo despencou ao nosso redor em uma fração de segundo, e meu estômago ficou lá em cima, na beira da queda. O vento cortava nossos rostos com violência, e o ruge-ruge da água parecia nos engolir. A menos de um palmo das pedras pontiagudas e da superfície revolta do lago, com o coração batendo nos ouvidos como um tambor de guerra, apontei minha varinha para o espaço vazio e rugi com todas as forças:
— Pare o tempo!
O feitiço estalou no ar como um raio invisível. Num piscar de olhos, o universo inteiro congelou em uma imagem perfeita e imóvel. As toneladas de água da cachoeira ficaram suspensas no ar, transformando-se em milhares de estilhaços de diamante cristalino que brilhavam sob a penumbra da mata. O balançar frenético das árvores cessou de uma vez. O único som restante era o zumbido sutil da magia pulsando através da minha varinha, exigindo um esforço mental titânico para manter o feitiço estável. Minha cabeça latejava, como se alguém a apertasse com as duas mãos.
Com um puxão rápido e desesperado, arrastei Ana pelo ar, desviando-a das pedras. Gotas imóveis roçavam nossos rostos como vidro frio enquanto cruzávamos a cortina de água congelada até alcançarmos a fenda escura incrustada na rocha da montanha.
— Camufle na terra — sussurrei com a voz trêmula, apontando para a parede de pedra nua e musgosa logo atrás de nós.
No instante seguinte, as nossas silhuetas se fundiram perfeitamente com a rocha. O feitiço de camuflagem nos tornou invisíveis, mas nos permitia enxergar tudo o que acontecia lá fora através de uma membrana translúcida. A magia nos escondia dos olhos e do calor, mas não abafava o som. E foi aí que o perigo real se aproximou.
Segundos depois de desfazermos o congelamento temporal — deixando a cachoeira despencar de volta com um estrondo ensurdecedor —, os dois primeiros Morguleses romperam a vegetação na borda da queda d’água. O impacto das botas pesadas fez o chão da nossa caverna vibrar.
Um deles, com cabelos ruivos cacheados, calças jeans escuras e uma jaqueta militar gasta, fungou o ar pesadamente, parando a menos de dois metros de onde estávamos escondidos. O olhar dele passeou pela rocha, parou em mim por um segundo interminável e seguiu adiante.
Ana apertou a minha mão com tanta força que senti os ossos estalarem. Eu não podia dizer uma única palavra; qualquer vibração na voz quebraria o feitiço de ocultação. Desviei o olhar para baixo e arregalei os olhos, apontando discretamente com o queixo para os pés dela.
Ali, brotando milagrosamente entre as rochas úmidas da fenda, estendia-se uma touceira de rosas silvestres roxas. Flores raras, de um perfume denso, adocicado e terroso, cuja fragrância tinha a propriedade mágica de mascarar qualquer vestígio de suor, calor ou energia humana.
O Morgulês ruivo inspirou fundo mais uma vez, hipnotizado pelo cheiro floral, enquanto seu parceiro — um brutamontes loiro de feições idênticas — cruzava os braços com impaciência.
— Devem ter descido pelo curso do rio, indo em direção ao pântano — rosnou o loiro, a voz grossa ecoando na rocha. — Vamos cobrir a margem leste. Os chefes querem aquilo a qualquer custo.
Eles não sabiam o tamanho do que estavam caçando. Não era apenas a nossa captura que importava para a Aliança Revolucionária; era o tesouro que carregávamos na mochila. O Bastão Dourado era o lendário artefato ancestral guardado a sete chaves pelo Instituto Xingu, capaz de canalizar a magia pura das raízes da terra e desferir o golpe definitivo que viraria o jogo contra Lurdes e seus aliados. Se o Bastão caísse nas mãos erradas, a resistência brasileira desmoronaria em dias, e a escuridão engoliria tudo o que amávamos.
Quando os passos pesados dos Morguleses finalmente se perderam na distância, desabamos contra a parede fria da caverna, respirando fundo, tentando apagar o peito em brasa.
Esperamos mais uma hora dentro da montanha, em silêncio, contando cada respiração, e só então saímos. Conduzi Ana pela lateral, por baixo da queda d'água, até uma clareira que ficava a uns vinte metros do rio, onde ainda se podia ouvir o eco abafado da água caindo.
— Melhor passarmos a noite e talvez alguns dias por aqui. Eles não vão nos procurar neste lugar de novo — falei.
— Tem razão, Luca. Eles vão passar dias vasculhando a margem do rio, mas não vão voltar aqui tão cedo — concordou ela.
— Você faz os feitiços de proteção e eu monto a tenda, tudo bem?
Ela assentiu com a cabeça, sacou a varinha e começou a traçar as barreiras. Tirei a mochila, peguei a tenda, ergui a varinha e conjurei: "Prepare a barraca". Em minutos, ela estava armada. Entramos, e aproveitei um banho rápido para tirar da pele a lama, o suor e o medo.
Ana acendeu o fogão portátil e preparou uma sopa reconfortante, cujo vapor encheu a tenda com cheiro de cebola e de casa. A noite na mata pode ficar mais fria do que muita gente imagina e, naquela noite, a chuva começou a cair lá fora em uma sinfonia constante.
— Luca, você acha que vamos sobreviver a tudo isso? — Ana me perguntou baixinho depois do jantar.
— Tenho absoluta certeza, Ana. Acredite, somos fortes juntos. Mesmo quando você duvidar, eu acredito por nós dois — respondi, firme.
Ela abriu um sorriso discreto com o canto da boca.
— Não é que eu não acredite... só tenho minhas preocupações por sermos apenas alunos. Ainda temos tanto para aprender...
— Concordo com você, mas jamais vou deixar de te lembrar de tudo o que já passamos juntos, de todas as provações que enfrentamos nesses últimos seis anos no Xingu.
— Você tem razão. É melhor irmos descansar — disse ela, dando-me uma olhada terna.
Concordei com a cabeça e saí para tomar um pouco de ar fresco. A chuva ainda caía suavemente sobre a copa das árvores, e o barulho distante da cachoeira trazia uma trégua temporária ao caos.
Ana e eu éramos alunos do Instituto Xingu, uma escola de magia cravada no coração da Floresta Amazônica. Para os não-bruxos, o local não passava de uma reserva de proteção ambiental inacessível; para nós, era o verdadeiro lar, o santuário onde passávamos sete anos preciosos de nossas vidas até nos formarmos e seguirmos carreira no mundo mágico.
Mas, desde que a guerra deflagrada além-mar estendeu suas garras pelo mundo, todo o nosso universo desmoronou. Vilas, bairros e cidades bruxas precisaram erguer barreiras intransponíveis. Os poucos não-bruxos que conviviam conosco tiveram que se esconder, e as escolas tradicionais que aceitavam não-bruxos fecharam as portas. Tudo mudara de forma drástica, e agora cada sombra exigia atenção redobrada de todos nós.
Entrei de volta na tenda, deitei no colchão estreito e fiquei remoendo a nossa vida, nossos colegas, familiares e tudo o que tivemos de deixar para trás para proteger o Bastão Dourado. Segundo a professora Stella, o artefato mudaria o rumo da guerra e precisava ser entregue diretamente à presidente do Conselho da Magia do Brasil — a minha mãe, Susana. Claro que não seria uma tarefa para nós dois, mas meus pais com certeza conseguiriam fazer isso sem falhas. Ela comandava o país mágico, e meu pai a servia de perto, como secretário presidencial. O verdadeiro desafio era chegar até eles com o Bastão em mãos, atravessando um país inteiro sob vigilância.
— Ana, que cheiro de fumaça é esse? Você deixou o fogão aceso? — perguntei de repente, levantando-me em um salto, calçando os sapatos e correndo para a pequena cozinha.
Mas não era o fogão. Do lado de fora, um clarão alaranjado atravessava o tecido da tenda, como um show de pirotecnia infernal em que nós éramos o alvo principal.
— Ana, acorde! — chamei, sacudindo-a com força.
— O que foi, Luca? O que está acontecendo? — ela balbuciou, assustada.
— Estamos cercados por um clarão, Ana! Dá uma olhada lá fora!
Ela abriu os olhos, deu um pulo da cama, calçou os sapatos às pressas e olhou para cima. Saímos da tenda. Graças a Tupã, Ana era brilhante em feitiços de proteção: a floresta ao nosso redor estava inteiramente em chamas, um oceano de fogo rugindo por todos os lados, e a única ilha intocada era a nossa clareira, com a faixa de terra junto ao rio. O calor fazia o ar tremer, e as faíscas subiam em espirais, como vaga-lumes furiosos.
Era impossível enxergar além da cortina de fogo que consumia tudo com voracidade. Aquilo jamais seria um incêndio acidental, sobretudo com a chuva torrencial que caíra horas antes.
— Foram eles, Ana — disse, virando-me para encará-la com o desespero batendo no peito. — Eles sabem que estamos com o Bastão Dourado e o querem a qualquer custo.
— Você tem razão, Luca. Precisamos sair daqui agora e entregá-lo aos seus pais. Não podemos deixar que caia nas mãos erradas, de jeito nenhum! — exclamou ela.
Empunhei a varinha e ordenei: "Desfaça a barraca". Em segundos, ela murchou, transformando-se em um pequeno pacote que guardei na mochila.
— Vamos ter que ser extremamente rápidos. Vou baixar os escudos de proteção e você nos transporta daqui para longe — instruí.
— Para onde nós vamos? — perguntou ela, tensa.
— Para qualquer lugar que você considere seguro; depois damos um jeito de alcançar os meus pais.
Ana concordou com um aceno firme. Segurei sua mão esquerda, ergui a varinha junto com a dela e, seguindo o ritual de emergência, viramo-nos de costas um para o outro para estabilizar o eixo do feitiço antes do salto espacial, com o calor lambendo as minhas costas.
— Desfaça a proteção por completo! — gritei.
Desaparecemos no mesmo instante em um turbilhão de luzes e cinzas. Quando abri os olhos, o teto familiar da casa de verão da família de Ana me recebeu em silêncio... e a mão que segurava a minha já não estava lá. Eu estava completamente sozinho.
Cápitulo 2, disponível amanhã!
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