Azrael
Fazia uma semana.
Uma semana desde que Eriel havia chegado.
Eu estava sentado sozinho no escritório, diante de uma janela aberta.
A noite havia caído sobre a propriedade.
O vento entrava suavemente, movimentando as cortinas e espalhando sobre a mesa algumas folhas que eu ainda não havia organizado.
Não me incomodava.
Havia coisas mais importantes para pensar.
Eriel.
Sete dias.
Era pouco tempo.
Ainda assim, sua presença já havia alterado a rotina da casa.
Alice parecia mais interessada do que deveria.
Noir, apesar de não demonstrar, havia claramente se acostumado com ela.
E eu...
Eu precisava admitir que observá-la era interessante.
Mas não era isso que me preocupava.
Era Ethan.
O irmão dela.
Eu ainda me lembrava da conversa que tivemos.
Ele havia confiado Eriel a mim.
Não completamente.
Ethan não era tolo.
Ele sabia que havia coisas que eu não lhe contaria.
Mas havia uma coisa que eu havia prometido.
Eu protegeria Eriel.
De longe.
Sem interferir diretamente no desenvolvimento dela.
Até que suas habilidades despertassem.
O problema era que eu não sabia quando isso aconteceria.
Eriel era humana.
Isso poderia significar que o despertar demoraria.
Muito.
Talvez anos.
Talvez mais.
Encostei-me na cadeira.
— Humanos...
Murmurei.
Não era desprezo.
Era apenas uma constatação.
O corpo humano possuía limites diferentes.
A manifestação de certas habilidades poderia exigir condições que ainda não haviam surgido.
E, no caso dela...
O Tempo não era uma habilidade comum.
Era uma das três forças primordiais.
Eu não poderia simplesmente forçar seu despertar.
Se algo desse errado, as consequências poderiam ser muito maiores do que apenas destruir seu corpo.
Meu olhar se perdeu pela janela.
Então senti uma presença.
Não ouvi passos.
Não houve porta abrindo.
O espaço ao lado da estante simplesmente se deformou.
Como se alguém tivesse cortado a própria realidade.
Uma abertura escura surgiu.
Uma figura atravessou.
Sonne.
Ela surgiu do espaço dimensional como se aquele lugar sempre tivesse sido dela.
Seus olhos imediatamente encontraram os meus.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Depois suspirou.
— Você novamente.
Continuei sentado.
— Eu não sabia que minha presença era tão desagradável.
— Não é sua presença.
Ela fechou o espaço dimensional atrás de si.
— É você.
Olhei para ela.
— Que diferença faz?
— Muita.
Sonne caminhou até a mesa.
Seus movimentos eram tranquilos, mas havia irritação evidente em sua expressão.
— Você sempre faz isso.
— Isso o quê?
— Escolhe o caminho mais complicado.
— Talvez seja o caminho necessário.
— Não.
Ela colocou as mãos sobre a mesa.
— Você só gosta de transformar coisas simples em problemas impossíveis.
Permaneci calado.
Sonne estreitou os olhos.
— Não adianta ficar me olhando desse jeito.
— Que jeito?
— Como se eu fosse uma criança reclamando.
— Eu não disse isso.
— Mas pensou.
Sorri discretamente.
— Talvez.
Ela revirou os olhos.
— Insuportável.
Havia uma coisa curiosa sobre Sonne.
Ela não tinha medo de falar comigo daquela maneira.
Pouquíssimas pessoas fariam isso.
Talvez nenhuma.
Mas Sonne tinha uma razão.
O pacto.
O pacto de sangue ligava nossas existências de uma maneira que eu não poderia simplesmente ignorar.
Ela sentia minhas emoções.
Não apenas as mais fortes.
As mais profundas.
As que eu preferia esconder.
Sonne sabia quando eu estava irritado.
Quando estava preocupado.
Quando estava triste.
Quando alguma lembrança antiga retornava.
E eu sabia que isso a incomodava.
— Você está preocupado.
Não respondi.
— Com Eriel.
Continuei olhando pela janela.
— Ela ainda não despertou.
— E você acha que isso é um problema?
— Talvez.
Sonne ficou em silêncio.
Então se sentou na cadeira à minha frente.
— Você está pensando demais.
— Você acabou de dizer que sinto coisas demais.
— Eu disse que sinto suas emoções.
— Não é a mesma coisa.
— Para você, talvez.
Ela cruzou os braços.
— Às vezes eu me pergunto por que aceitei esse pacto.
Olhei para ela.
— Você sabe por quê.
— Eu sei.
Ela desviou o olhar.
— Ainda assim, não significa que eu goste.
— Nunca pedi que gostasse.
Sonne voltou a me olhar.
— Não.
Seu tom ficou mais sério.
— Você nunca pede nada.
O sorriso desapareceu do meu rosto.
Ela continuou:
— Você simplesmente carrega tudo sozinho.
Silêncio.
— E quando alguma coisa dá errado, você decide que precisa resolver tudo sem contar a ninguém.
— Funciona.
— Até não funcionar.
Não respondi.
Sonne suspirou.
— E antes que diga alguma coisa...
Ela apontou para mim.
— Não estou preocupada com você.
— Claro.
— Estou falando sério.
— Eu acredito.
— Ótimo.
Ela se levantou.
— Porque a única coisa que realmente importa para mim é a Noir.
Meu olhar mudou imediatamente.
— Eu sei.
— Ela está bem?
— Está.
— Tem certeza?
— Sim.
Sonne respirou aliviada.
— Então está tudo bem.
Ela fez uma pequena pausa.
— E ela gosta de você.
— Eu sei.
— Muito.
— Eu sei.
— Ama o mestre dela.
Fiquei em silêncio.
Sonne percebeu.
— Você sabe disso também.
— Sei.
— Então pare de agir como se estivesse sozinho.
Olhei para ela.
— Sonne.
— O quê?
— Você está tentando me dar um conselho?
— Não.
Ela respondeu imediatamente.
— Estou tentando evitar que você faça alguma estupidez.
— É praticamente a mesma coisa.
— Não é.
Ela se virou.
— Eu só respeito você porque é meu mestre.
Parei.
Ela olhou por cima do ombro.
— Não confunda isso com gostar de você.
Um pequeno sorriso surgiu em meu rosto.
— Nunca confundiria.
— Ótimo.
Ela caminhou alguns passos.
Então parou.
— Embora...
— Embora?
— Eu reconheça que você salvou minha vida.
Fiquei em silêncio.
Sonne baixou os olhos.
— E por isso o pacto existe.
Ela apertou levemente os dedos.
— Então, enquanto ele existir...
Seus olhos encontraram os meus novamente.
— Eu estarei ao seu lado.
Não havia carinho em sua voz.
Mas havia algo mais importante.
Convicção.
Ela não gostava de mim.
Talvez nunca gostasse.
Mas cumpriria sua palavra.
Porque aquele pacto não era apenas uma corrente.
Era uma escolha que ambos havíamos feito.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Então uma ideia passou pela minha cabeça.
— Talvez devêssemos despertar Aion.
Sonne imediatamente voltou o rosto.
— Aion?
Assenti.
— Ela poderia facilitar as coisas.
Sonne pensou.
— Seria mais fácil.
— Exatamente.
— Muito mais fácil.
Ela se aproximou novamente.
— Mas você não quer.
— Não.
— Por quê?
Olhei para a janela.
— Porque ainda não é necessário.
Sonne soltou uma risada curta.
— E lá está você novamente.
— O quê?
— Escolhendo o caminho difícil.
Não respondi.
Ela balançou a cabeça.
— Você realmente não aprende.
— Talvez eu não queira aprender.
Sonne ficou me encarando.
Então sorriu de canto.
— Idiota.
— Sonne.
— Mestre.
Ela fez uma pequena reverência exagerada.
— Como quiser.
Voltei a olhar para o jardim.
As luzes da casa iluminavam parcialmente os caminhos.
Em algum lugar lá fora, Eriel provavelmente estava com Alice.
Noir deveria estar procurando outro doce.
E eu precisava tomar uma decisão.
Talvez fosse cedo.
Talvez não.
Mas algumas coisas não podiam continuar esperando.
Fechei os olhos.
Respirei profundamente.
Minha mana começou a se mover.
Muito lentamente.
Sonne percebeu imediatamente.
Ela não disse nada.
O ambiente ficou silencioso.
Então comecei a entoar as palavras em voz baixa.
Quase como um sussurro.
Uma língua antiga.
Uma que não era pronunciada havia muito tempo.
— Aion...
As sombras ao redor da sala começaram a se mover.
— Desperte.
Sonne permaneceu imóvel.
E, pela primeira vez naquela noite...
até mesmo ela pareceu ficar séria.
Eu continuei o encantamento.
Baixo.
Calmo.
Quase inaudível.
— Abra os olhos diante deste mundo...
A mana se concentrou ao meu redor.
E, em algum lugar além da percepção humana...
alguma coisa começou a responder.