Égua, pra mim o Augusto é o menino de 2014 sim. O vídeo com o nome dele no arquivo e a Marina dizendo que ele já esteve na sala 17 antes não deixam muita dúvida
O ALUNO QUE ENTROU NA ESCOLA… MAS NUNCA MAIS SAIU | Terror Psicológico Escolar
Pensamento
Égua, pra mim o Augusto é o menino de 2014 sim. O vídeo com o nome dele no arquivo e a Marina dizendo que ele já esteve na sala 17 antes não deixam muita dúvida
Conteúdo da publicação
O ÚLTIMO ALUNO DO CORREDOR
Prólogo — A escola que não fechava as portas
Na cidade de Jardim Ingá, em Goiás, existia uma escola pública que parecia igual a todas as outras durante o dia.
O portão azul descascado. As paredes manchadas pela chuva. O pátio onde os alunos se reuniam antes do sinal. As salas com carteiras riscadas, ventiladores barulhentos e quadros que nunca pareciam completamente limpos.
À primeira vista, não havia nada de extraordinário naquele lugar.
Mas os moradores mais antigos conheciam uma história.
Diziam que, muitos anos antes, um aluno costumava permanecer sozinho no último corredor do segundo andar. Ele não participava das brincadeiras, não discutia com os professores e quase nunca levantava a mão para responder às perguntas. Quando alguém falava com ele, respondia baixo, como se tivesse medo de que as paredes escutassem.
Ninguém sabia explicar exatamente o que acontecera com aquele estudante.
Alguns afirmavam que ele havia mudado de escola.
Outros diziam que sua família se mudara de repente.
Havia, porém, uma versão que os funcionários mais velhos evitavam comentar.
Segundo essa versão, o garoto tinha voltado certa tarde para conversar com uma menina. Os dois haviam discutido. Depois disso, ele nunca mais foi visto entrando pelo portão principal.
A direção da escola nunca confirmou a história.
A polícia nunca divulgou qualquer ocorrência que correspondesse à lenda.
E, ainda assim, durante anos, estudantes juraram ter ouvido passos no segundo andar depois do encerramento das aulas.
Três batidas em uma porta.
Uma cadeira arrastando.
E uma voz masculina, tão baixa que parecia vir de dentro das paredes:
— Eu só queria conversar.
O mais assustador não era a voz.
Era o fato de que, quando alguém perguntava quem estava falando, o corredor ficava completamente silencioso.
Até que, em 2026, um novo aluno apareceu naquela escola.
E a velha história começou a se repetir.
Capítulo 1 — O garoto que ninguém conhecia
Augusto tinha dezesseis anos quando começou a estudar naquela escola.
Era magro, reservado e tinha o costume de carregar a mochila sempre no mesmo ombro. Sentava-se perto da janela, copiava o conteúdo do quadro e entregava as atividades sem chamar atenção.
Não era o aluno mais popular.
Também não era aquele que provocava confusão.
Na verdade, a maioria dos colegas mal sabia alguma coisa sobre ele.
Augusto não costumava participar das conversas durante o intervalo. Enquanto os outros riam, gravavam vídeos e comentavam as novidades, ele permanecia sentado em um banco próximo à quadra, observando o movimento.
Quando o sinal tocava, era sempre um dos primeiros a voltar para a sala.
Os professores tinham opiniões diferentes sobre ele.
Alguns consideravam Augusto educado e dedicado. Outros diziam que precisava participar mais das aulas. Havia também quem confundisse seu silêncio com arrogância.
Nenhuma dessas opiniões explicava o que realmente acontecia.
Augusto simplesmente havia aprendido que, em determinados lugares, falar podia ser mais cansativo do que permanecer calado.
Ele já tinha ouvido piadas sobre sua maneira de andar, sobre suas histórias e sobre o hábito de ficar sozinho. Algumas pessoas imitavam sua voz quando ele respondia a uma pergunta. Outras faziam comentários e esperavam que ele reagisse.
Quando Augusto não reagia, diziam que ele se achava superior.
Quando respondia, diziam que era estranho.
Era como se qualquer atitude sua pudesse ser usada contra ele.
Por isso, começou a evitar conversas desnecessárias.
Não queria ser o centro das atenções.
Queria apenas estudar.
Mas havia uma pessoa com quem ele ainda desejava conversar.
Uma menina chamada Marina.
Marina estudava na mesma turma e, durante algumas semanas, os dois haviam trocado mensagens. Não eram grandes conversas. Falavam sobre atividades, professores e algumas coisas que aconteciam na escola.
Para Augusto, porém, aquelas mensagens tinham um significado especial.
Ele acreditava que Marina era uma das poucas pessoas que conseguiam enxergá-lo sem transformar seu silêncio em motivo de piada.
Até que alguma coisa mudou.
As respostas começaram a demorar.
Depois ficaram curtas.
Por último, desapareceram.
Augusto tentou perguntar se havia acontecido alguma coisa.
Não recebeu resposta.
Tentou novamente alguns dias depois.
Nada.
Então percebeu que Marina havia começado a evitá-lo também na escola.
Quando ele passava perto de um grupo, ela interrompia a conversa. Quando ele entrava na sala, ela olhava para as amigas. Quando os dois se encontravam no corredor, Marina desviava o caminho.
Augusto não compreendia o motivo.
Não queria obrigá-la a conversar.
Não queria que ela gostasse dele.
Queria apenas entender o que tinha acontecido.
E essa necessidade de entender seria o que o levaria de volta à escola numa tarde em que todos deveriam estar em casa.
Capítulo 2 — A última mensagem
A mensagem chegou numa quinta-feira, às 23h47.
Augusto estava deitado, com o celular ao lado do travesseiro, quando a tela acendeu.
Era uma notificação de um número desconhecido.
A mensagem continha apenas seis palavras:
“Você ainda quer saber a verdade?”
Augusto sentou-se na cama.
Leu novamente.
O número não tinha foto de perfil, e a conta não exibia nome.
Ele respondeu:
— Quem é?
A mensagem seguinte apareceu quase imediatamente.
— Alguém que sabe o que aconteceu.
Augusto sentiu um desconforto que não conseguiu explicar.
Perguntou se a pessoa estava falando de Marina.
A resposta demorou cerca de um minuto.
— Amanhã. Depois da aula. Portão lateral.
Ele tentou descobrir quem estava escrevendo, mas as mensagens seguintes não chegaram.
Na manhã seguinte, Augusto foi para a escola com a cabeça cheia de perguntas.
Durante a primeira aula, não conseguiu prestar atenção.
Na segunda, olhou várias vezes para o celular.
Na terceira, percebeu que Marina o observava.
Foi um olhar rápido.
Quando Augusto virou o rosto, ela já estava olhando para o caderno.
Na saída, ele ficou alguns minutos perto do portão, esperando.
Marina passou acompanhada de duas colegas.
Augusto chamou seu nome.
Ela continuou andando.
Ele não insistiu.
Mas, antes de entrar no carro que a esperava na esquina, Marina virou a cabeça e olhou para ele.
Seu rosto estava pálido.
Por um instante, pareceu que queria dizer alguma coisa.
Então desapareceu atrás do veículo.
Às 16h12, o número desconhecido enviou outra mensagem.
— Não fale com ela na frente de ninguém.
Augusto perguntou por quê.
A resposta veio acompanhada de uma fotografia.
Era uma imagem antiga do segundo andar da escola. O corredor estava vazio, e todas as portas pareciam fechadas.
No fim dele, perto da escada, havia um estudante de costas.
Usava uma mochila preta.
A mesma mochila que Augusto carregava.
Ele ampliou a fotografia.
O uniforme parecia antigo, diferente do modelo usado pelos alunos em 2026.
No canto inferior da imagem, havia uma data:
17 de agosto de 2014.
Augusto sentiu o coração acelerar.
Ele nunca havia visto aquela fotografia.
Nunca havia estado naquela escola antes de começar a estudar ali.
Mesmo assim, o garoto da imagem tinha a mesma altura, o mesmo formato de cabelo e a mesma postura que ele.
A única diferença era que o rosto do estudante estava voltado para uma porta onde se lia, quase apagado:
SALA 17.
Augusto respondeu imediatamente:
— Quem é esse garoto?
Dessa vez, a resposta demorou.
Quando chegou, continha apenas uma frase:
— Pergunte à menina por que ninguém pode entrar naquela sala.
Capítulo 3 — A menina com a tesoura
Na sexta-feira, Augusto chegou à escola mais cedo.
O céu estava carregado, e uma chuva fina começava a cair sobre o pátio.
Ele procurou a sala 17 no mapa preso perto da secretaria.
Não encontrou.
Havia salas numeradas até a 16 naquele andar. Depois da última porta, existia apenas uma parede e uma janela voltada para o estacionamento.
Augusto perguntou a um funcionário se a escola tinha passado por alguma reforma.
O homem respondeu que sim, muitos anos antes.
— E a sala 17? — perguntou Augusto.
O funcionário parou de organizar os papéis.
Por alguns segundos, não respondeu.
Depois disse:
— Aqui nunca teve sala 17.
A maneira como falou fez Augusto desistir de perguntar.
Durante o intervalo, Marina estava sozinha perto da biblioteca.
Era a primeira vez em semanas que não estava acompanhada das amigas.
Augusto se aproximou devagar.
— Marina, posso conversar com você?
Ela levantou a cabeça.
Seu olhar mudou imediatamente.
— Não.
— Eu só queria entender o que aconteceu.
— Eu disse que não quero conversar.
Augusto parou.
— Eu não fiz nada para você. Se alguém falou alguma coisa, eu queria saber.
Marina fechou o livro que segurava.
— Você não entende?
A voz dela saiu mais alta do que pretendia.
Alguns estudantes olharam na direção dos dois.
Ela percebeu e abaixou o tom.
— Para de me procurar.
Augusto permaneceu em silêncio.
Marina olhou para os lados. Depois se aproximou e falou quase num sussurro:
— Você não devia ter voltado.
— Voltado de onde?
Ela recuou.
— Eu nunca falei com você.
A frase o atingiu de uma maneira inesperada.
Augusto tentou responder, mas Marina já estava andando em direção à sala.
Naquele mesmo dia, depois do encerramento das aulas, ele decidiu ir ao portão lateral.
Não sabia se deveria confiar na mensagem. Mesmo assim, queria descobrir quem estava brincando com ele.
O portão estava entreaberto.
O funcionário responsável pela saída não se encontrava ali.
Augusto entrou no pátio e caminhou até o corredor do segundo andar.
A escola parecia maior sem os estudantes.
O barulho habitual havia desaparecido. Não se ouviam conversas, cadeiras arrastando ou professores chamando atenção das turmas.
Apenas a chuva.
No fim do corredor, uma porta estava aberta.
Augusto tinha certeza de que aquela porta não existia no mapa.
Na placa, estava escrito:
SALA 17.
Ele entrou.
A sala estava quase vazia.
Havia carteiras antigas, um quadro coberto por manchas escuras e cortinas que se moviam apesar de todas as janelas estarem fechadas.
Marina estava de pé perto da mesa do professor.
Segurava uma tesoura em uma das mãos e uma faca na outra.
Augusto parou imediatamente.
— Marina?
Ela ergueu os objetos, mantendo distância.
— Eu falei para você parar de me procurar!
A voz dela ecoou pelas paredes.
— Eu não vim brigar. Recebi mensagens dizendo que você sabia de alguma coisa.
— Não chega perto!
Augusto levantou as mãos e permaneceu onde estava.
Marina tremia. Não parecia apenas irritada. Havia um medo evidente em seu rosto, como se também estivesse tentando fugir de alguma coisa que ele não conseguia ver.
— Eu não quero mais nem olhar para você! — gritou ela. — Não quero ver você nesta escola! Some daqui!
A tesoura caiu sobre uma carteira.
A faca continuou na mão dela.
Augusto não avançou.
— Está bem. Eu vou embora. Só coloca isso na mesa, por favor.
Marina olhou para a faca como se tivesse acabado de perceber o que segurava.
Então começou a chorar.
— Você não devia estar aqui — repetiu.
— Por quê?
Ela levantou os olhos.
— Porque você já esteve aqui antes.
Augusto sentiu o corpo ficar imóvel.
— Eu nunca estive nesta sala.
Marina balançou a cabeça.
— Foi exatamente isso que ele disse.
Naquele instante, a porta se fechou atrás de Augusto.
Não bateu com força.
Fechou-se lentamente, como se alguém do outro lado tivesse segurado a maçaneta.
Marina ficou branca.
Do corredor veio o som de três batidas.
Toc.
Toc.
Toc.
Ela soltou a faca sobre a mesa e levou as mãos aos ouvidos.
— Não responde! — gritou.
Augusto não se moveu.
Uma voz masculina surgiu do outro lado da porta.
— Marina?
Ela começou a recuar.
A voz voltou a chamar.
— Marina, eu só queria conversar.
Augusto reconheceu imediatamente o tom.
Era a mesma voz baixa que ouvira em seus sonhos desde criança, embora nunca tivesse conseguido se lembrar de onde a conhecia.
A maçaneta começou a girar.
Marina sussurrou:
— Ele sabe que você veio.
A luz apagou.
E alguém, dentro da sala escura, respirou perto do ouvido de Augusto.
Capítulo 4 — A cadeira vazia
Quando as luzes voltaram, Marina havia desaparecido.
A faca e a tesoura continuavam sobre a mesa.
A porta estava aberta.
Augusto saiu correndo para o corredor e chamou por ela. Procurou nas salas, na biblioteca e nas escadas.
Não encontrou ninguém.
Ao chegar à secretaria, viu a diretora conversando com um funcionário.
Contou o que havia acontecido.
Falou da sala 17, das mensagens e da ameaça.
A diretora ouviu tudo sem interromper.
Quando Augusto terminou, ela perguntou:
— Você entrou sozinho naquela sala?
— Marina estava lá.
A diretora trocou um olhar com o funcionário.
— Que Marina?
Augusto pensou que ela estivesse brincando.
— Marina. Minha colega. Ela estuda na minha turma.
A diretora pediu o nome completo.
Augusto informou.
Ela abriu o sistema da escola e pesquisou.
Depois virou o monitor para ele.
Não havia nenhuma estudante com aquele nome.
Nem naquela turma, nem em qualquer outra.
Augusto sentiu uma mistura de indignação e medo.
— Isso não faz sentido. Eu vejo essa menina todos os dias.
A diretora pediu que ele se sentasse.
Explicou que a escola não possuía sala 17 e que o segundo andar terminava na sala 16. Afirmou que a área onde Augusto dizia ter encontrado a porta havia sido reformada anos antes.
Ele insistiu.
Descreveu a sala, a mesa, as cortinas e os objetos.
O funcionário ficou cada vez mais inquieto.
Por fim, perguntou:
— Você disse que ouviu uma voz atrás da porta?
Augusto confirmou.
O homem se levantou imediatamente.
— Não vou ficar aqui.
A diretora tentou fazê-lo permanecer, mas ele saiu da secretaria e foi embora sem olhar para trás.
Antes de Augusto deixar a escola, ela chamou sua família e recomendou que o ocorrido fosse esclarecido com cuidado. Também pediu que verificassem as mensagens recebidas, pois alguém poderia estar usando informações pessoais para assustá-lo.
Essa explicação deveria ter tranquilizado Augusto.
Não tranquilizou.
Naquela noite, ele abriu a fotografia do corredor.
A imagem havia mudado.
Agora, o estudante de mochila preta estava mais perto da câmera.
O rosto continuava escondido.
Mas, no fundo da fotografia, a porta da sala 17 estava aberta.
Havia uma menina parada diante dela.
Marina.
Augusto ampliou a imagem até os pixels se desfazerem.
Na mão dela, era possível distinguir dois objetos.
Uma tesoura.
E uma faca.
Capítulo 5 — O arquivo de 2014
Augusto passou o sábado tentando descobrir a origem da fotografia.
Pesquisou o nome da escola, notícias antigas, reformas, documentos públicos e publicações em redes sociais.
Não encontrou nada sobre um estudante desaparecido.
Mas encontrou uma referência a uma ocorrência antiga.
Era uma nota curta, publicada em um jornal local em agosto de 2014. Falava sobre uma confusão envolvendo estudantes de uma escola pública da região. A reportagem não apresentava nomes nem muitos detalhes. Informava apenas que a direção havia solicitado apoio para esclarecer uma situação de intimidação entre adolescentes.
Não havia menção a mortes, desaparecimentos ou acontecimentos sobrenaturais.
Mesmo assim, a data era a mesma da fotografia.
Augusto continuou pesquisando.
Em uma página antiga, arquivada por um ex-aluno, encontrou uma imagem do prédio antes da reforma.
O segundo andar era diferente.
Existia uma porta no fim do corredor.
Abaixo da fotografia, alguém havia escrito:
“Quem estudou aqui sabe que ninguém gostava de ficar nessa sala depois do último sinal.”
Augusto tentou entrar em contato com o autor da publicação.
A conta estava inativa.
Outra postagem, de anos depois, continha apenas uma frase:
“O pior não era o que acontecia lá dentro. Era o que todo mundo fingia não ter visto.”
Ele salvou as imagens.
Às 21h06, o celular recebeu uma chamada de número privado.
Augusto atendeu.
Durante alguns segundos, não ouviu nada.
Então surgiu uma voz feminina.
— Você encontrou a sala?
Ele reconheceu o tom.
— Marina?
— Você não devia ter perguntado.
— Quem é você? Por que está fazendo isso?
Do outro lado, a garota respirou profundamente.
— Eu não estou fazendo nada.
— Você estava lá ontem.
— Eu não estive na escola ontem.
Augusto ficou em silêncio.
A voz continuou:
— Olha a fotografia outra vez.
A chamada caiu.
Ele abriu a imagem salva.
A fotografia mostrava o corredor antigo.
Mas agora havia uma frase escrita no quadro da sala:
“O SILÊNCIO TAMBÉM É UMA TESTEMUNHA.”
Augusto afastou o celular do rosto.
A tela apagou sozinha.
Quando voltou a acender, a câmera frontal estava aberta.
Ele viu o próprio rosto.
Atrás dele, refletida na tela, havia uma porta entreaberta.
Augusto virou-se imediatamente.
Não havia porta alguma no quarto.
Apenas a parede.
E, do outro lado dela, três batidas.
Toc.
Toc.
Toc.
Capítulo 6 — Os relatos dos antigos alunos
Na segunda-feira, Augusto voltou à escola acompanhado de um familiar.
Não queria entrar sozinho.
A diretora havia combinado de conversar com ele e verificar os registros antigos.
Dessa vez, a sala 17 não apareceu.
O corredor terminava na sala 16, exatamente como todos diziam.
Augusto sentiu vergonha por alguns instantes. Talvez estivesse cansado. Talvez alguém tivesse preparado uma brincadeira muito elaborada. Talvez o medo tivesse misturado lembranças, mensagens e uma fotografia antiga.
Mas havia uma coisa que ele não conseguia explicar.
A faca.
A tesoura.
E a lembrança nítida de Marina pedindo que ele não respondesse à voz.
Durante a conversa, a diretora chamou um funcionário aposentado que havia trabalhado na escola em 2014.
O homem chegou no final da manhã.
Era magro, usava óculos de armação escura e parecia desconfortável ao ouvir a história.
Quando Augusto mostrou a fotografia, ele demorou a responder.
— Onde você conseguiu isso?
— Recebi de um número desconhecido.
O homem aproximou a imagem dos olhos.
— Essa fotografia foi tirada antes da reforma.
— Quem é o garoto?
O funcionário não respondeu imediatamente.
Depois contou que, anos antes, havia estudado ali um aluno muito reservado. Era conhecido por escrever histórias e permanecer sozinho nos intervalos.
O garoto não tinha muitos amigos.
Alguns colegas faziam piadas sobre ele. Em determinadas ocasiões, as brincadeiras continuavam mesmo quando ele pedia que parassem.
Havia também conflitos entre grupos de estudantes.
As mensagens circulavam, os comentários eram repetidos e as pessoas frequentemente escolhiam um lado antes de conhecer todos os fatos.
O funcionário não sabia dizer o que havia acontecido entre o garoto e uma determinada aluna.
Lembrava-se apenas de que, numa tarde, houve uma discussão perto da antiga sala 17.
A escola chamou os responsáveis e procurou resolver o problema.
O aluno deixou de frequentar as aulas por um período.
Depois, os registros disponíveis indicavam que ele havia sido transferido.
— Então ele não desapareceu? — perguntou Augusto.
— Não que eu saiba.
— E a menina?
O homem abaixou os olhos.
— Também não sei.
Augusto mostrou a segunda fotografia.
Aquela em que Marina aparecia perto da porta.
O funcionário ficou pálido.
— Essa imagem não estava no arquivo da escola.
— O senhor conhece a menina?
Ele demorou tanto para responder que Augusto pensou que não fosse dizer nada.
Finalmente, o homem falou:
— Não conheço o rosto dela. Mas conheço essa postura.
— Como assim?
— O aluno da fotografia costumava ficar exatamente daquele jeito. De costas, perto da porta, esperando alguém que nunca vinha conversar com ele.
O funcionário devolveu o celular.
— Escuta uma coisa. Não transforme o que você não entende em certeza. A escola tinha problemas, como tantas outras. Existem relatos que se contradizem. E há lembranças que as pessoas mudam com o tempo.
Augusto concordou.
Mas, antes de ir embora, fez uma última pergunta:
— O senhor já ouviu alguém chamar por uma menina depois que a escola fecha?
O funcionário não respondeu.
Apenas olhou para o relógio e pediu que a diretora o acompanhasse até a saída.
Naquela tarde, ele pediu para não voltar mais à escola.
Capítulo 7 — A gravação do corredor
A escola tinha câmeras de segurança nos acessos principais.
A diretora autorizou que a gravação da sexta-feira fosse verificada para esclarecer por onde Augusto havia circulado.
O vídeo mostrava o estudante chegando pelo portão lateral.
Ele atravessava o pátio.
Subia a escada.
Entrava no segundo andar.
Até aquele momento, tudo parecia normal.
Então Augusto aparecia diante da parede que separava o corredor da antiga sala 17.
Ele parava.
Olhava para a parede.
E começava a conversar com alguém.
A gravação não tinha áudio.
Por quase dois minutos, Augusto permanecia imóvel, como se escutasse outra pessoa.
Depois levantava as mãos.
Dava alguns passos para trás.
Abaixava a cabeça.
E corria em direção à escada.
Nenhuma outra pessoa aparecia no corredor.
A diretora mostrou o vídeo a Augusto.
Ele assistiu uma vez.
Depois outra.
Na terceira, pediu que voltassem alguns segundos.
Na imagem, havia um detalhe que não percebera.
Pouco antes de correr, Augusto olhava para a câmera de segurança.
Não parecia olhar diretamente para a lente.
Parecia olhar para alguém atrás dela.
A diretora pausou a gravação.
— O que você viu?
Augusto não conseguiu responder.
A imagem foi ampliada.
Na tela granulada, havia uma sombra comprida junto à parede.
Não era possível determinar se era uma pessoa, um defeito de iluminação ou uma distorção da câmera.
Mas a sombra parecia ter a forma de uma estudante com o cabelo preso.
Na mesma noite, Augusto recebeu um arquivo de vídeo de um remetente desconhecido.
Era uma gravação do corredor, feita aparentemente em 2014.
A imagem estava escura e o relógio digital marcava 17h42.
A câmera mostrava a antiga sala 17.
Uma menina entrava.
Alguns segundos depois, a porta se fechava.
Então um garoto aparecia no corredor.
Ele permanecia diante da porta por quase um minuto.
Batia três vezes.
Esperava.
E batia novamente.
Nenhuma pessoa abria.
No final do vídeo, o garoto virava lentamente o rosto na direção da câmera.
A gravação terminava antes que fosse possível ver suas feições.
O arquivo tinha apenas um nome:
AUGUSTO_ULTIMO_DIA.mp4
Augusto sentiu um frio percorrer o corpo.
Ele nunca havia enviado seu nome à pessoa que lhe mandava aquelas mensagens.
Pelo menos, era o que acreditava.
Capítulo 8 — A voz que sabia seu nome
Na terça-feira, Augusto decidiu não ir à escola.
Precisava de um dia longe daquele lugar.
Durante a manhã, tentou conversar com alguém sobre as mensagens. Recebeu orientações para não abrir novos arquivos, guardar as evidências e procurar ajuda para verificar a origem das ameaças.
Pela primeira vez, sentiu que talvez existisse uma explicação concreta.
Alguém poderia estar usando uma conta falsa.
A fotografia poderia ter sido manipulada.
O vídeo poderia ter sido editado.
A sala poderia ser uma construção criada por sua própria memória durante um momento de pânico.
Ele precisava se agarrar a essas possibilidades.
Naquela noite, porém, aconteceu algo que não dependia do celular.
Às 22h31, a luz da casa piscou.
O ventilador parou.
O corredor ficou escuro.
Augusto ouviu passos do lado de fora do quarto.
Pensou que fosse alguém da família.
Abriu a porta.
O corredor estava vazio.
Quando voltou a fechar a porta, ouviu três batidas na madeira.
Toc.
Toc.
Toc.
Augusto permaneceu imóvel.
Do outro lado, uma voz masculina sussurrou:
— Augusto?
Ele não respondeu.
A voz tornou a chamar.
— Augusto, você está aí?
O som parecia vir de muito perto.
Augusto se afastou da porta.
— Eu sei que você está ouvindo.
Ele tentou acender a luz.
Nada aconteceu.
A voz mudou.
Agora parecia a de Marina.
— Você prometeu que ia conversar comigo.
Augusto sentiu os olhos se encherem de lágrimas, não por acreditar necessariamente que havia um fantasma, mas porque já não sabia em que parte daquilo podia confiar.
A voz continuou:
— Abre a porta.
Ele não se aproximou.
— Eu não quero mais ver você.
A frase soou igual à que Marina havia gritado na sala 17.
Então veio um ruído baixo, semelhante a alguém arrastando uma cadeira no piso.
Depois, silêncio.
A energia voltou.
Augusto abriu a porta de uma vez.
Não havia ninguém.
No chão, perto do rodapé, estava uma folha dobrada.
Ele a recolheu.
Era uma página de caderno, amarelada e marcada pelo tempo.
No alto, alguém havia escrito uma data:
17 de agosto de 2014.
Abaixo, havia uma frase:
“Se alguém perguntar por mim, diga que eu tentei conversar.”
Augusto levou a folha para um familiar e contou tudo o que tinha ouvido.
Não ficou sozinho naquela noite.
E, pela primeira vez desde que a história começara, deixou o celular desligado até a manhã seguinte.
Capítulo 9 — A menina que nunca esteve na turma
Na quarta-feira, Augusto voltou à escola.
Queria encerrar aquela história.
Não pretendia procurar Marina novamente. Se ela existisse e não quisesse conversar, ele respeitaria isso. Se alguém estivesse usando seu nome para assustá-lo, queria que a direção tomasse providências.
A diretora, por sua vez, havia solicitado uma verificação dos arquivos escolares antigos.
No final da tarde, chamou Augusto para uma conversa.
Havia encontrado registros incompletos de 2014.
Um estudante havia sido transferido naquele semestre. Seu nome aparecia parcialmente apagado em uma cópia digitalizada, e a escola não possuía informações suficientes para confirmar todos os detalhes da história contada pelo antigo funcionário.
Também havia um registro de conflito entre estudantes.
Mas nenhum documento mencionava a sala 17 como local de uma ocorrência.
Quanto a Marina, não existia prova de que ela tivesse estudado naquela turma.
Augusto escutou tudo em silêncio.
— Então ela nunca existiu? — perguntou.
A diretora respondeu com cuidado:
— Não posso afirmar isso. Posso dizer que não encontramos registros que confirmem o que você contou.
Ele olhou para a mesa.
Havia passado dias tentando descobrir se aquela menina era real, se a fotografia era antiga ou se alguém estava brincando com ele.
A falta de respostas era quase pior do que encontrar uma explicação.
Na saída, Augusto atravessou o pátio.
Uma aluna que ele nunca tinha visto antes aproximou-se.
— Você é o Augusto?
Ele confirmou.
A garota olhou para a escada do segundo andar.
— Tem alguém procurando você.
Augusto sentiu o coração acelerar.
— Quem?
Ela apontou para o corredor.
— Uma menina. Está esperando na última sala.
— Qual é o nome dela?
A estudante franziu a testa.
— Ela não falou.
Augusto ficou parado.
O portão estava aberto. Havia funcionários no pátio e vários estudantes ainda conversavam perto da quadra.
Ele poderia simplesmente ir embora.
E foi o que decidiu fazer.
A garota, porém, chamou novamente:
— Ela disse que você esqueceu uma coisa.
Augusto virou-se.
— O quê?
A estudante respondeu:
— A conversa que vocês nunca terminaram.
Ele saiu sem olhar para trás.
Naquela noite, não recebeu nenhuma mensagem.
Não ouviu nenhuma batida.
Pela primeira vez em dias, dormiu sem acordar assustado.
E quase conseguiu acreditar que tudo havia terminado.
Quase.
Capítulo 10 — A última chamada
Na sexta-feira, uma semana depois do primeiro encontro na sala 17, Augusto recebeu uma ligação de um número identificado como desconhecido.
Dessa vez, não atendeu.
O telefone parou de tocar.
Alguns segundos depois, chegou uma mensagem.
“Você foi embora sem ouvir o final.”
Augusto bloqueou o número.
Logo depois, recebeu outra mensagem, de uma conta diferente.
“Não era você que ela queria ver.”
Ele não respondeu.
Bloqueou a segunda conta também.
Passou o resto da noite com a família, tentando manter a rotina. Não queria que aquela história controlasse seus dias.
Mas, perto da meia-noite, o celular acendeu sozinho.
Havia uma fotografia nova.
A imagem mostrava a sala de aula de Augusto, durante o período da manhã.
Todas as carteiras estavam ocupadas.
Os estudantes apareciam de costas, voltados para o quadro.
Augusto reconheceu sua própria mochila perto da janela.
Reconheceu também a professora, parada diante da turma.
No último lugar da fileira do meio, havia uma menina de cabelos presos.
Marina.
Ela estava sentada em uma carteira que não aparecia no inventário da sala.
Sobre a mesa, havia uma tesoura.
Ao lado, um pequeno objeto escuro que poderia ser uma faca fechada ou apenas uma caneta vista de um ângulo estranho.
Augusto ampliou a imagem.
Na parte de baixo da fotografia, alguém havia escrito:
“Desta vez, você precisa ouvir.”
Ele não conseguiu determinar quem tirara a fotografia.
Naquele horário, a turma deveria estar em aula, mas ninguém havia mencionado uma câmera ou qualquer visita.
Na manhã seguinte, Augusto mostrou a imagem à direção.
A professora confirmou que a turma estava reunida naquele período, mas não reconheceu a menina.
A carteira na qual ela aparecia não existia na sala naquele dia.
A diretora solicitou que o arquivo fosse preservado e verificou os registros disponíveis.
Não encontrou explicação conclusiva.
Também não encontrou evidência de que a fotografia fosse sobrenatural.
Alguém poderia ter manipulado a imagem.
Alguém poderia estar tentando provocar medo.
A investigação precisava continuar.
Augusto compreendeu que não conseguiria resolver tudo sozinho.
E decidiu que não tentaria.
Pediu ajuda para organizar as mensagens, registrou o que havia acontecido e passou a evitar qualquer contato com os números desconhecidos.
A vida começou a recuperar uma aparência normal.
Mas havia uma última coisa que ele não conseguia esquecer.
Na fotografia, todos os estudantes estavam de costas.
Todos, menos Marina.
Ela olhava diretamente para a câmera.
E parecia estar olhando para alguém que estava atrás de quem tirou a foto.
Capítulo 11 — O corredor às 17h42
Duas semanas depois, a escola organizou uma reunião para discutir segurança, conflitos entre estudantes e o uso de redes sociais.
Augusto não participou diretamente da organização. Apenas compareceu à aula e tentou seguir a rotina.
Naquela tarde, porém, uma tempestade atingiu a região.
As aulas terminaram mais cedo, e os estudantes foram orientados a deixar o prédio.
Augusto esperou a chuva diminuir sob a cobertura do pátio.
Quando finalmente atravessou o portão, percebeu que havia esquecido um caderno na sala.
Avisou o funcionário que estava na entrada e voltou acompanhado até o corredor.
O prédio estava quase vazio.
A professora responsável abriu a sala.
O caderno estava sobre a carteira perto da janela.
Augusto o pegou e agradeceu.
Enquanto saía, ouviu uma batida no corredor.
Parou.
O funcionário continuou andando.
— Você ouviu? — perguntou Augusto.
— Ouvi o quê?
Outra batida.
Dessa vez, veio da parede no fim do corredor.
Augusto olhou para lá.
Durante um instante, a parede pareceu diferente.
Não era uma porta claramente visível. Era apenas uma linha vertical na pintura, uma sombra estreita que poderia ter sido causada pela iluminação.
Mas Augusto reconheceu a posição.
Era exatamente onde a sala 17 aparecia em suas lembranças.
Ele deu um passo.
O funcionário segurou seu braço, sem machucá-lo.
— Vamos embora.
Augusto concordou.
Os dois desceram a escada.
Antes de chegar ao pátio, ele ouviu uma voz atrás de si.
— Augusto.
Parou por um segundo.
O funcionário também parou.
— Você chamou? — perguntou Augusto.
— Não.
A voz veio novamente.
— Augusto, espera.
O funcionário ficou pálido.
Não havia mais ninguém no andar.
Os dois continuaram descendo.
Quando alcançaram o portão, a chuva havia diminuído.
O funcionário trancou a entrada e permaneceu olhando para o prédio.
Augusto perguntou se ele havia ouvido a voz.
O homem demorou a responder.
— Ouvi alguma coisa.
— O que era?
— Não sei.
O funcionário entregou o caderno a Augusto, como se precisasse ter certeza de que ele realmente estava ali.
Depois disse:
— Não volte sozinho para buscar nada aqui depois do encerramento das aulas.
Não explicou o motivo.
Augusto foi para casa.
Naquela noite, abriu o caderno para estudar.
Na última página, encontrou uma frase escrita a lápis.
Não se lembrava de tê-la escrito.
A letra era semelhante à sua, mas as palavras pareciam antigas, como se tivessem sido copiadas de outro lugar:
“Às 17h42, alguém sempre fica esperando.”
Capítulo 12 — O que aconteceu com o aluno de 2014?
A investigação de Augusto não encontrou prova de desaparecimento, assassinato ou qualquer acontecimento paranormal na escola.
O que encontrou foi algo mais comum e, ao mesmo tempo, mais difícil de compreender.
Havia pessoas que se lembravam de um estudante quieto.
Havia relatos de brincadeiras que ultrapassavam os limites.
Havia recordações contraditórias sobre uma discussão.
Havia quem acreditasse que tudo fora exagerado.
Havia quem dissesse que ninguém deveria voltar a falar sobre o assunto.
E havia uma fotografia antiga cuja origem permanecia incerta.
O antigo funcionário, depois de algumas semanas, aceitou conversar novamente com Augusto.
Dessa vez, trouxe uma cópia de um documento que havia guardado por muitos anos.
Era uma anotação administrativa sobre uma transferência escolar.
O nome estava parcialmente ilegível.
A data correspondia ao período mencionado na fotografia.
Não havia informação sobre o destino do estudante.
O funcionário explicou que não podia afirmar que aquele era o garoto da imagem.
— A memória da gente não é uma câmera — disse. — Eu me lembro de algumas coisas. Outras, posso ter misturado com histórias que ouvi depois.
Augusto perguntou sobre a sala 17.
O homem contou que, antes da reforma, o número havia sido usado em uma sala de apoio. Mais tarde, o espaço foi incorporado a outra área do prédio.
Não era uma sala secreta.
Não havia nada de sobrenatural em sua existência.
Quanto à menina, o funcionário não conseguiu confirmar sua identidade.
— Às vezes, as pessoas lembram do mesmo acontecimento de maneiras diferentes — disse. — E, quando ninguém esclarece as coisas, as versões começam a crescer.
Augusto guardou essa informação.
Talvez fosse essa a origem de parte do mistério.
Uma história incompleta.
Uma fotografia sem contexto.
Uma discussão que ninguém conseguia reconstituir por inteiro.
Um estudante que deixou de frequentar a escola.
E uma sucessão de relatos que se transformaram em lenda.
Mas ainda havia algo que não se encaixava.
Na cópia do documento, no espaço destinado a observações, alguém havia escrito à mão:
“O estudante solicitou conversar com a colega antes da transferência.”
A frase era simples.
Não mencionava ameaças.
Não mencionava facas.
Não mencionava tesouras.
Não mencionava fantasmas.
Era apenas uma anotação.
Augusto a leu várias vezes.
Então perguntou ao funcionário:
— Ele conseguiu conversar com ela?
O homem fechou a pasta.
— Não sei.
Foi a resposta mais honesta que alguém havia dado desde o início.
E talvez fosse a única resposta que ainda importava.
Capítulo 13 — A carteira que apareceu vazia
O tempo passou.
As mensagens cessaram.
Nenhuma nova fotografia chegou.
Augusto voltou a frequentar as aulas, embora evitasse o segundo andar quando o prédio estava vazio.
Não deixou de escrever histórias, mas passou a registrar melhor as ideias e guardar os arquivos em locais seguros. Quando alguma coisa o assustava, procurava verificar os fatos antes de tirar conclusões.
A escola continuou funcionando.
Outras turmas ocuparam as salas.
Novos estudantes chegaram.
Os antigos foram embora.
E a história da sala 17 começou a desaparecer das conversas.
Até a manhã de uma segunda-feira.
A professora entrou na sala de Augusto, colocou os materiais sobre a mesa e começou a chamada.
Todos estavam presentes.
Pelo menos, era o que parecia.
No meio da explicação, a professora parou de falar.
Olhou para a fileira perto da janela.
Havia uma carteira vazia entre dois estudantes.
Ela franziu a testa.
— Quem colocou essa carteira aqui?
Ninguém respondeu.
Um aluno disse que ela não estava ali na aula anterior.
Outro afirmou que sempre estivera.
A professora pediu que a retirassem da passagem.
Quando um estudante tentou movê-la, encontrou algo preso embaixo do tampo.
Um papel dobrado.
A professora o pegou.
Era uma folha antiga, amarelada nas bordas.
No alto, havia uma data:
17 de agosto de 2014.
Ela começou a ler, mas interrompeu a frase.
Sua expressão mudou.
Augusto, sentado perto da janela, percebeu.
— O que está escrito? — perguntou.
A professora dobrou o papel novamente.
— Nada importante.
Guardou-o na bolsa e continuou a aula.
Mas, durante o restante da manhã, não conseguiu olhar para a carteira vazia.
No final do período, Augusto passou perto da mesa e viu que a professora havia deixado uma pequena parte do papel para fora da bolsa.
Ele não tentou pegá-lo.
Não queria voltar a perseguir um mistério que talvez nunca pudesse resolver.
Apenas conseguiu ler as últimas palavras escritas na folha:
“Se um dia alguém perguntar por mim, não diga que eu nunca estive aqui.”
Naquele instante, o sinal tocou.
Todos se levantaram.
A professora pediu que a turma saísse.
Augusto foi o último a chegar à porta.
Antes de sair, olhou uma última vez para a carteira vazia.
Por um breve instante, teve a impressão de que havia alguém sentado nela.
Um garoto de mochila preta.
De cabeça baixa.
Escrevendo alguma coisa no caderno.
Augusto piscou.
A carteira estava vazia.
Ele saiu da sala e não voltou para conferir.
Epílogo — A gravação que não deveria existir
Em dezembro de 2026, a escola realizou uma revisão dos arquivos digitais antigos.
Durante o processo, um funcionário encontrou uma gravação que não constava na lista de vídeos catalogados.
O arquivo mostrava o corredor do segundo andar, numa tarde chuvosa.
O relógio da câmera marcava 17h42.
A imagem era granulada, e a data parecia corresponder a agosto de 2014.
O corredor estava vazio.
A câmera registrou o movimento de uma porta.
Depois, três batidas.
Toc.
Toc.
Toc.
Um garoto entrou no campo de visão.
Usava uma mochila preta.
Caminhou até o fim do corredor e parou diante da parede.
Por alguns segundos, permaneceu imóvel.
Então virou o rosto para a câmera.
O vídeo não permitia reconhecer suas feições.
Mas havia algo estranho em sua postura.
Ele parecia estar escutando alguém.
Depois levantou a mão e bateu na parede três vezes.
A gravação continuou por mais alguns segundos.
O garoto se aproximou da câmera.
Seus lábios se moveram.
Não havia áudio.
Em seguida, ele se afastou e desapareceu no fim do corredor.
O funcionário salvou o arquivo e encerrou a revisão.
Antes de desligar o computador, porém, percebeu que havia um segundo vídeo dentro da mesma pasta.
A gravação mostrava o mesmo corredor.
A mesma iluminação.
O mesmo horário.
Mas a data era diferente.
25 de outubro de 2026.
O funcionário abriu o arquivo.
A câmera mostrava o corredor atual, com as paredes reformadas e as portas numeradas até a sala 16.
Durante quase um minuto, nada aconteceu.
Então Augusto apareceu no fundo da imagem.
Estava sozinho.
Parou diante da parede.
Olhou para ela.
E disse alguma coisa que a gravação não conseguiu registrar.
Depois, virou-se e saiu.
O funcionário verificou a data novamente.
Era um domingo.
A escola estava fechada.
Ele procurou a gravação da entrada.
Não havia registro de Augusto passando pelo portão.
Procurou a gravação da escada.
Não havia registro de ninguém subindo.
O vídeo do corredor, entretanto, permanecia ali.
O funcionário fechou o arquivo.
Na manhã seguinte, quando chegou à escola, pediu que outro profissional verificasse o sistema.
O segundo vídeo havia desaparecido.
Não estava na pasta.
Não aparecia na lixeira.
Não havia registro de exclusão.
O funcionário nunca mais comentou o assunto.
A direção não confirmou qualquer ocorrência paranormal.
A escola continuou funcionando normalmente.
E, durante algum tempo, ninguém voltou a falar da sala 17.
Até que, meses depois, uma estudante ficou sozinha na biblioteca durante o intervalo.
Ela estava pesquisando fotografias antigas da escola quando ouviu três batidas vindas do corredor.
Toc.
Toc.
Toc.
Levantou a cabeça.
Não havia ninguém.
Então escutou a voz de um garoto.
Era baixa.
Cansada.
Quase educada.
— Desculpa incomodar. Eu queria conversar.
A estudante saiu da biblioteca e chamou um funcionário.
Quando os dois voltaram, o corredor estava vazio.
Não encontraram ninguém.
Não havia porta aberta.
Não havia carteira fora do lugar.
Apenas uma folha de papel sobre o chão.
A estudante se abaixou para pegá-la.
No papel, havia uma frase escrita com letra de estudante:
“Nem todo silêncio esconde um monstro. Às vezes, esconde uma história que ninguém quis escutar.”
Ela entregou a folha ao funcionário.
Ele leu.
Empalideceu.
E, sem explicar o motivo, pediu que ela fosse para o pátio.
Naquela tarde, antes de fechar a escola, o funcionário percorreu todos os corredores.
Conferiu as portas.
Apagou as luzes.
Verificou as salas.
Quando chegou ao segundo andar, ouviu uma última batida.
Dessa vez, não veio da parede.
Veio de dentro de uma sala vazia.
Ele ficou parado.
Não abriu a porta.
Não perguntou quem estava lá.
Apenas recuou, desceu as escadas e trancou o portão.
Do lado de fora, a chuva começou a cair.
E, quando o relógio marcou 17h42, uma voz atravessou o prédio vazio:
— Eu só queria conversar.
Fim.
Thoughts
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PermalinkÉgua, pra mim o Augusto é o menino de 2014 sim. O vídeo com o nome dele no arquivo e a Marina dizendo que ele já esteve na sala 17 antes não deixam muita dúvida
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PermalinkA diretora, o funcionário aposentado e os arquivos vão dando explicação comum pra quase tudo, transferência, briga de adolescente, reforma do prédio. Pelo que li, o fantasma fica em segundo plano, quem assusta mesmo é o menino de 2014 que ninguém quis escutar.
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