Pular para o conteúdo
Carregando…

O agora - Capitulo 2 - O medo de estragar tudo

AllyneMaia
Pública 0 conversa 0 pensamento 27 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Eu tinha imaginado muitas vezes como seria reencontrá-la.

In groups

Conteúdo da publicação

O medo de estragar tudo - versão dele

O MEDO DE ESTRAGAR O QUE COMEÇOU

Eu tinha imaginado muitas vezes como seria reencontrá-la.

Mas nenhuma das versões que criei na minha cabeça parecia com a realidade.

Porque, nas minhas lembranças, ela ainda tinha dezessete anos.

A mulher que estava diante de mim não.

Ela carregava o mesmo olhar que eu lembrava, mas havia muito mais por trás dele.

Havia uma vida.

Experiências.

Cicatrizes que eu não conhecia.

Escolhas que aconteceram enquanto eu estava longe.

E, quanto mais eu descobria sobre ela, mais percebia uma coisa que deveria ter entendido muitos anos antes:

eu não podia simplesmente voltar e esperar que ela continuasse no mesmo lugar onde a deixei.

Ela tinha seguido em frente.

Assim como eu.

A diferença era que, agora, nossas vidas tinham se cruzado novamente.

E eu não queria desperdiçar aquela oportunidade.

Naquela primeira semana, eu encontrava desculpas para vê-la.

Às vezes, era realmente apenas alguns minutos.

Outras vezes, uma conversa rápida se transformava em uma hora.

Eu mandava mensagens porque queria saber como tinha sido o dia dela.

Perguntava coisas que pareciam pequenas, mas que, para mim, tinham um significado enorme.

Eu queria saber o que ela gostava agora.

O que a fazia rir.

O que a irritava.

O que ela sonhava.

Quais eram os planos que havia construído sem mim.

Eu queria conhecer aquela mulher sem tentar compará-la com a menina que eu lembrava.

E, talvez pela primeira vez, eu entendia que conhecer alguém não era apenas descobrir suas preferências.

Era aprender seus limites.

Seus medos.

Suas necessidades.

Era entender o que havia mudado.

E respeitar.

Eu também precisava contar a ela quem eu havia me tornado.

Não apenas as coisas boas.

Minha história não era feita somente das partes bonitas.

Eu tinha responsabilidades.

Uma filha.

Uma vida construída antes daquele reencontro.

Decisões das quais eu não poderia simplesmente fugir.

E eu sabia que, se quisesse que ela permanecesse por perto, precisaria ser honesto sobre tudo isso.

Ela não merecia descobrir minha vida aos poucos por meio de surpresas.

Merecia saber onde estava entrando.

Talvez fosse isso que mais me preocupasse.

Não perdê-la novamente por causa de uma distância de quinze anos.

Mas perdê-la agora por não saber fazer diferente.

Porque naquela primeira semana eu percebi que voltar era fácil.

Difícil seria permanecer.

Difícil seria não permitir que a saudade decidisse por mim.

Não confundir nostalgia com amor.

Não transformar o que sentimos naquela época em uma obrigação para o presente.

Eu não queria que ela estivesse comigo porque passou quinze anos imaginando como teria sido.

Queria que ela estivesse comigo porque, conhecendo quem eu era agora, ainda desejasse estar.

E eu precisava fazer o mesmo.

Conhecê-la sem idealizá-la.

Sem procurar a garota que um dia amei em cada gesto da mulher que ela se tornou.

Talvez esse fosse o maior desafio.

Eu ainda reconhecia nela algumas coisas que mexiam comigo.

Um jeito de sorrir.

Uma expressão quando ficava pensativa.

Certas pequenas características que pareciam atravessar o tempo.

Mas agora eu precisava enxergar muito além disso.

Precisava conhecer a mulher inteira.

E isso exigia tempo.

Naquela semana, eu também percebi que tinha medo.

Medo de falar demais.

Medo de falar de menos.

Medo de criar expectativas.

Medo de que ela percebesse que eu ainda não tinha todas as respostas.

Mas, acima de tudo, medo de repetir meus antigos erros.

Aos dezessete anos, eu havia deixado o medo decidir por mim.

Dessa vez, eu não queria.

Por isso, quando tinha vontade de dizer alguma coisa, eu dizia.

Quando queria perguntar, perguntava.

Quando alguma situação parecia delicada, eu tentava não fugir dela.

Talvez fosse isso que significasse amadurecer.

Não deixar de sentir medo.

Mas parar de permitir que ele escolha o caminho.

No fim daquela primeira semana, percebi que estava acontecendo algo que eu não esperava.

Eu não estava mais pensando apenas no reencontro.

Estava pensando no dia seguinte.

No próximo encontro.

Na próxima conversa.

Nas coisas que ainda precisava contar.

Nas coisas que queria descobrir.

E foi aí que entendi que alguma coisa havia mudado dentro de mim.

Eu não queria recuperar o tempo perdido.

Não havia como.

Quinze anos não voltariam.

As escolhas continuariam existindo.

As pessoas que fizeram parte das nossas vidas continuariam fazendo parte da nossa história.

Nada disso poderia ser apagado.

Mas talvez não precisasse.

Talvez amar alguém no presente fosse justamente aceitar que aquela pessoa chegava até você carregando tudo o que viveu antes.

E eu também chegava assim.

Com meus acertos.

Com meus erros.

Com minha filha.

Com minhas responsabilidades.

Com as marcas de uma vida que ela não conheceu.

E, pela primeira vez, eu queria que ela conhecesse tudo isso.

Não para que me aceitasse apesar do meu passado.

Mas para que pudesse decidir, sabendo quem eu realmente era.

Naquela noite, depois de mais uma conversa, fiquei alguns minutos olhando para o celular antes de guardar.

Eu sorri.

Não porque tivesse certeza de onde aquilo iria chegar.

Mas porque, depois de tantos anos, havia finalmente uma coisa que eu sabia:

eu não queria mais fugir dela.

Só que também não queria correr.

Dessa vez, eu queria caminhar.

Um passo de cada vez.

Porque talvez o nosso maior desafio não fosse descobrir se ainda existia amor.

Talvez fosse descobrir se duas pessoas que passaram tanto tempo separadas conseguiriam aprender a ficar.

Related posts