Pretendo colocar aqui o retrato, em byte e bit, de uma mulher de carne e osso. Mas enfrento um problema sério: não consigo começar sequer uma história, quem dirá descrever essa moça.
Ela é como um fantasma de moscas pairando no silêncio incômodo da briga, da perda, da vergonha e da culpa. Tem um olhar negro que prende e assusta, como o de alguém que sabe mais do que deveria, mas prefere manter guardado o que pensa.
Joguei cartas com ela anteontem, bebemos no meu bar favorito e transamos ao som da chuva fraca. Depois do jantar, deixei meu olhar se perder nela, dos cabelos ondulados aos dedos magros. Eu queria conversar, mas ela queria outra coisa.
Dava para perceber, mas fingi não notar. Essa noite, não.
Essa noite seríamos nós dois.
Não percebi que ela me olhava de volta. Quis me encobrir na hora, esconder qualquer vestígio que denunciasse a mistura de medo e admiração que eu sentia. Minha companheira não pareceu se incomodar; manteve os olhos fixos em mim.
Uma mosca dançava sob meu dedo. Seu trabalho estava começando, e eu, cedendo.