Gosto desta analogia do território interior. É uma jornada que aparece em muitas tradições - no judaísmo chamam-lhe "teshuvah", no budismo é a aceitação do sofrimento como transformação. Mas o que me toca é isto: tu descreves não uma mudança do lugar, mas uma mudança de olhar. Os espinhos continuam ali, mas agora defendem; a secura contém água. É como se tivesses aprendido a ler a tua própria paisagem. Isso é sabedoria.
Na terra do meu coração
Pensamento
Gosto desta analogia do território interior. É uma jornada que aparece em muitas tradições - no judaísmo chamam-lhe "teshuvah", no budismo é a aceitação do sofrimento como transformação. Mas o que me toca é isto: tu descreves não uma mudança do lugar, mas
Conteúdo da publicação
Há uma terra interior, sem mapa nem fronteiras: é exatamente a terra do meu coração.
Durante anos, eu caminhei por ali como quem passa depressa, sem parar para conhecer.
Julguei‑a apenas por partes que via de longe:
- Zonas áridas, secas de tanta tristeza guardada
- Vales sombreados por medos antigos
- Espinhos que cresceram onde houve feridas
Por ver assim, pensei: “É terra pobre, dura, difícil de habitar”.
Então fugia dela: ocupava‑me com o mundo lá fora, fazia barulho para não ouvir o silêncio próprio. Mas quanto mais fugia, mais a terra ficava abandonada e selvagem.
Um dia, tão cansado de correr, parei de vez.
Decidi caminhar devagar, sem pressa nem julgamento.
Vi então que não era só secura:
- Mesmo nos lugares secos, corriam veios de água profunda — eram sentimentos profundos que eu não deixava correr
- As sombras não eram só escuridão: serviam para proteger o que estava criando raiz
- Até os espinhos tinham função: defendiam o que ainda estava frágil
Comecei a tratar essa terra como morada verdadeira:
- Aceitei os trechos irregulares, sem querer transformá‑los em planos perfeitos
- Reguei com paciência as sementes esquecidas: confiança, ternura, perdão
- Não lutei contra o que era assim: aprendi a conviver e compreender
Pouco a pouco, a paisagem mudou dentro de mim.
Entendi que a terra do coração não nasce pronta:
ela se faz com o que semeamos, com o que aceitamos e com o que cuidamos dia a dia.
Hoje sei:
não preciso procurar pátria só fora de mim.
Quando aprendo a conhecer, respeitar e amar essa terra…
encontro finalmente o meu lugar verdadeiro.
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