Segunda-feira, 13 de maio de 2024
Ainda não consigo tirar da cabeça o fato de Sebastião ser o meu Pierrot. Ele é o meu Luiz. O meu amor está dentro daquele corpo.
É bem cedo da manhã, e estou indo a pé para a escola. A bruxa decidiu que eu vou ter que ir andando durante toda a semana.
Como sempre, vou esperar José no circo abandonado.
Quando me aproximo, percebo que há um carro estacionado ali.
Chego mais perto.
- Mas esse carro é do Sebastião... - murmuro, chocada ao reconhecê-lo.
O meu Pierrot está lá dentro.
Fico parada por alguns segundos, completamente encantada enquanto observo o circo abandonado.
Respiro fundo e entro.
Assim que passo pela entrada, vejo Sebastião. Ele sorri imediatamente ao me ver.
- Bom dia - digo, sentindo meu coração acelerar enquanto me aproximo.
- Bom dia - responde Sebastião com um sorriso, aproximando-se de mim. - Senti sua falta ontem.
Meu coração acelera ainda mais.
Será que eu conto para ele?
Que eu sou a bela dama?
De repente, escuto o som de buzinas.
- Meu motorista chegou, eu preciso ir! - digo antes de sair correndo.
Corro com o coração disparado.
Assim que chego à escola, percebo que os estudantes só falam sobre a Princesa de Papel. No intervalo é ainda pior.
A Trindade de Ouro está tentando descobrir quem é a Princesa de Papel, ou, como Sebastião a chama, a Bela Dama.
As meninas estão fazendo fila para falar com Sebastião. Quase todas as garotas da escola estão alegando ser a Princesa de Papel.
- Cadê o amor-próprio dessas garotas? - diz Evelyn, incrédula, observando nossas colegas fazerem escândalo.
- Mas por que a Princesa de Papel está se fazendo de difícil? - pergunta Ariel, confuso. - O Sebastião é o melhor partido dessa escola!
Meu coração dispara.
Minha vontade é correr até Sebastião e contar a verdade.
Dizer que sou eu.
Que eu sou o amor dele.
Mas estou tremendo.
Olho para Ariel.
Luiz está no corpo de Sebastião... o crush dele.
Mas o verdadeiro Sebastião desapareceu.
Será que Ariel vai me entender quando eu contar tudo?
- Eu tenho uma coisa para dizer para vocês dois... - digo depois de respirar fundo.
- Qual é o babado? - pergunta Evelyn enquanto me encara. - Por acaso você é a Princesa de Papel? - acrescenta em tom de deboche.
- Hã?! - digo, chocada.
- Não fala uma coisa dessas, machuda! - diz Ariel, dando um leve tapa no ombro de Evelyn. - A Dani nunca faria isso comigo.
- Ela sabe o que eu sinto pelo Sebastião. Nunca furaria o olho do melhor amigo - acrescenta Ariel com convicção.
- É que... - começo a gaguejar.
Tento falar, mas as palavras simplesmente não saem. Preciso contar a verdade: o garoto que está naquele corpo não é o Sebastião.
- Mana, desembucha logo! - diz Evelyn, já impaciente.
- Acho que não vou me sair bem na prova de Matemática... - digo apreensiva.
Que droga.
Não consegui dizer.
- Acho que a sala inteira está assim. O professor de Matemática não explicou direito o assunto - comenta Ariel, aflito. - Tomara que ele pegue leve na prova.
Depois do intervalo, voltamos para a sala, e agora estamos esperando o próximo professor chegar.
- Dani, me empresta seu livro de Matemática - pede Ariel, estendendo a mão. - Esqueci o meu e vou tirar foto do seu.
- Só um segundo - respondo enquanto abro a mochila e procuro o livro. - Aqui, amigo...
Mas, assim que puxo o livro, algo preso entre as páginas vem junto.
Meu coração quase para.
É a minha máscara.
Droga!
Eu tinha esquecido completamente que a tinha guardado ali.
A máscara escapa da mochila e cai no chão.
- Aí não... - murmuro, chocada.
Todos na sala arregalam os olhos.
- Mas essa é a máscara da Princesa de Papel... - começam a cochichar.
- Amiga... o que significa isso? - pergunta Ariel, incrédulo. - Você é a Princesa de Papel?
- Claro que não é ela! - diz Beatrice com firmeza. - A Dani nem foi para a festa.
- A Beatrice tem razão... - digo quase sem voz enquanto pego a máscara rapidamente.
Sebastião se levanta e caminha até mim.
Os olhos dele estão brilhando.
- É você? - pergunta, completamente encantado. - Você é a Bela Dama?
- Não... - respondo, desviando o olhar.
- Dani, então como essa máscara foi parar com você? - pergunta Ariel, desconfiado.
- Na verdade, eu não sei! - finjo estar confusa enquanto olho para a máscara em minhas mãos. - Acho que alguém colocou isso na minha mochila durante o intervalo.
- Acho que a Princesa de Papel não quer ser identificada - diz Evelyn com convicção. - Ela até se desfez da própria máscara.
- Tem certeza de que não é você? - pergunta Sebastião, com esperança nos olhos.
Ficamos nos encarando por alguns segundos, mas não consigo dizer nada.
- Como a Dani seria a Princesa de Papel? - diz Beatrice com desprezo enquanto se aproxima. - Não perca seu tempo com ela, meu querido.
- Por acaso eu te chamei para a nossa conversa? - rebate Sebastião, impaciente.
- Uhuuu! - a sala inteira começa a zoar Beatrice, que volta para sua cadeira completamente sem graça.
- Sinto muito, Sebastião... - digo sem conseguir encará-lo.
- Eu posso ficar com a máscara? - pergunta Sebastião, sem tirar os olhos dela.
- Ah... sim. - Estendo a mão e entrego a máscara para ele.
- Obrigado - diz Sebastião enquanto a pega e volta para sua cadeira.
- Não se preocupe, vamos encontrar sua princesa - diz Nathan, tentando consolar o amigo.
- Mas infelizmente acho que a minha Bela Dama não quer me encontrar... - responde Sebastião com a voz triste.
Ver Sebastião daquele jeito parte meu coração.
Mas eu não posso me revelar na frente do Ariel... e muito menos na frente das cobras da Beatrice e da Beatriz.
Não demora muito, e logo o professor de Matemática entra na sala.
A aula finalmente acabou, e agora estamos todos na frente da escola esperando os motoristas virem nos buscar.
Evelyn e Ariel acabaram de ir embora e, como sempre, aquelas cobras não me deixaram ir com eles. Provavelmente vão me obrigar a voltar a pé.
Só de pensar que preciso voltar para aquela casa, meu coração já aperta.
Estou com dores nas costas, já que agora estou dormindo no porão. Ela me deu um colchão duro e um lençol fino.
Minhas noites estão sendo terríveis.
- Daniella, podemos conversar? - pergunta Sebastião enquanto se aproxima de mim. - Me diz... você tem certeza de que não é a minha Bela Dama?
- Não sou eu - respondo com firmeza.
- Então você sabe quem ela é? - pergunta Sebastião. - Você com certeza sabe, já que estava com a máscara da Bela Dama.
- Se a Bela Dama ainda não apareceu, é porque ela ainda não está pronta para ficar frente a frente com você sem a máscara - digo enquanto olho nos olhos de Sebastião. - Não se preocupe. Quando ela se sentir pronta, vai procurar você.
- Você tem razão... - diz Sebastião, passando a mão pelos cabelos. - Eu estou sendo um idiota por pressionar a Bela Dama.
- Com certeza a sua Bela Dama é tímida - digo com um sorriso bobo. - Você faz parte da Trindade de Ouro, é um dos garotos mais populares da escola.
- Ela deve estar em choque - acrescento.
- Eu não tinha parado para pensar por esse lado - diz Sebastião, sem graça. - Vou parar de pressionar a escola inteira.
- Sebastião, nosso motorista chegou! - chama Cecília, já caminhando em direção ao carro.
- Você quer uma carona? - pergunta Sebastião com um sorriso.
- Eu gostaria, mas não posso - respondo frustrada. - Não tenho permissão para pegar carona.
- Sua madrasta é bem rígida, não é? - pergunta Sebastião, surpreso.
- Você nem imagina... - respondo com a voz cansada.
- Irmão! - grita Cecília de dentro do carro.
- Já estou indo! - grita Sebastião de volta. Em seguida, volta a olhar para mim. - Tchau, até amanhã.
Ele sorri antes de ir até o carro.
- Tchau... - digo toda boba enquanto aceno.
- Fecha a boca, senão você vai babar - diz Beatriz enquanto coloca os braços sobre meus ombros.
- É melhor voltar para a realidade - acrescenta Beatrice em tom de deboche. - O Sebastião é um sonho distante para você.
- Digo o mesmo para você - rebato com firmeza.
- Olha só, nosso motorista chegou, irmã - diz Beatriz, me soltando.
- Você já sabe das regras, não sabe? - diz Beatrice, me encarando friamente. - Você está proibida de pisar naquele carro.
- Que pena que não está chovendo - comenta Beatriz com um sorriso debochado enquanto olha para o céu. - Tomara que caia a maior chuva.
As duas caem na gargalhada enquanto entram no carro.
- Que trágico... - escuto uma voz ecoar pelo ambiente.
Mas aquela sensação...
Não era uma pessoa viva falando.
Olho discretamente e o vejo.
É ele.
O fantasma do Bernardo Ravenwood, o fundador do Colégio Ravenna.
- Eu não fundei esta escola para educar psicopatas - diz ele enquanto cruza os braços, indignado.
- Psicopatas? - murmuro, confusa.
- O que houve, senhor? - pergunta o fantasma de uma antiga servente da escola.
- Tem uma garota morta no banheiro feminino - diz Bernardo, horrorizado.
- Garota morta? - murmuro, chocada.
- E como o senhor sabe disso? - pergunta a mulher, desconfiada.
- Eu não fui lá ver! - responde Bernardo, ofendido. - Só escutei alguns fantasmas cochichando enquanto passava pelo corredor.
- Me explica isso direitinho - diz a mulher, curiosa.
- Parece que uma aluna deu de propósito um alimento ao qual outra era alérgica - explica Bernardo, ainda chocado. - A pobrezinha teve um choque anafilático e morreu no banheiro.
- Que horror! - diz a mulher, horrorizada. - Mas ninguém da escola ainda encontrou a menina no banheiro?
- Isso aconteceu agorinha. Acho que o pessoal da limpeza ainda não a encontrou - responde Bernardo, em pânico.
- Que horror... - digo, horrorizada.
- AAAAAAAAH! - De repente, um grito ecoa vindo do banheiro.
- O que foi isso? - várias pessoas começam a cochichar por todos os lados.
- Olha lá... encontraram ela - diz Bernardo com convicção.
Todos começam a correr em direção ao banheiro feminino, e eu vou junto.
Ao chegar lá, me deparo com uma cena terrível.
É ela.
A Bárbara, do segundo ano.
- Que horror... - várias pessoas começam a murmurar, horrorizadas.
- Olha como ela está... - diz uma aluna, levando a mão à boca.
Bárbara estava caída no chão. Seu rosto estava inchado, principalmente ao redor dos olhos e dos lábios. A pele estava avermelhada e coberta por manchas, enquanto sua respiração parecia ter parado em meio ao desespero.
- Ela era alérgica a amendoim! - diz outra garota, chorando.
Escuto alguém chorando.
Mas a voz não vinha da multidão.
Era a voz dela.
Olho para o lado e vejo Bárbara chorando ao lado do próprio corpo.
- Beatrice! Por que fez isso comigo?! - grita Bárbara, chorando desesperadamente enquanto abraça os joelhos com força.
- Beatrice? - murmuro, chocada.
De repente, Bárbara ergue o olhar na minha direção.
Desvio rapidamente e encaro o chão.
- Daniella... você está me vendo? - pergunta Bárbara, desesperada enquanto se levanta rapidamente.
Fico olhando para o chão, com o coração disparado.
Ela não pode descobrir em hipótese alguma que consigo ver e me comunicar com espíritos.