Segunda-feira, 15 de abril de 2024
Fico observando Luiz atentamente. Encaro seu rosto por alguns segundos, percebendo que nunca o vi sem maquiagem. Como morreu extremamente apegado ao personagem que interpretava, talvez ainda leve um tempo até conseguir abandonar aquela aparência.
Sua maquiagem é completamente branca, com detalhes pretos desenhados pelo rosto e batom escuro nos lábios. Ele usa um chapéu elegante, luvas brancas e um paletó antigo com gravata borboleta.
— Eu queria muito ver seu rosto sem maquiagem — digo, curiosa, sem desviar os olhos dele.
— Acho que ainda não consegui me desapegar do Pierrot — responde Luiz, pensativo. — Talvez eu consiga quando formos para uma colônia espiritual.
De repente, escuto buzinas vindas da rua.
— Parece que o José chegou — comento enquanto me levanto.
— Quero que tenha uma ótima aula, amor — diz Luiz com um sorriso gentil.
— Até mais tarde, coisa fofa — respondo, fazendo um coração com as mãos.
Luiz imita o gesto logo em seguida.
Saio do circo e caminho até a rua, onde José já me esperava.
— Vamos, senhorita — diz ele educadamente enquanto abre a porta do carro para mim.
— Obrigada — respondo com um sorriso antes de entrar.
José nunca me deixou realmente ir a pé para a escola. Quando a bruxa o proibia de me levar, ele primeiro deixava as monstrinhas no colégio... e depois vinha me buscar escondido aqui.
Assim que o carro se aproxima da escola, José estaciona na esquina para que eu desça.
— Obrigada — digo enquanto abro a porta.
— Não há de quê, senhorita — responde José com seu jeito calmo de sempre.
— Até mais tarde.
Fecho a porta do carro, e ele logo vai embora.
Caminho até a faixa de pedestres e, quando o sinal fica verde, atravesso a rua. Assim que chego em frente à escola, alguns alunos me encaram com olhares de julgamento por eu ter chegado a pé.
Eu estudo no Colégio Ravenna, uma escola frequentada apenas pela elite. Existem alguns bolsistas, mas eles geralmente tentam se esconder, já que o bullying é pesado quando descobrem que alguém não pertence às famílias ricas.
— Dani! — escuto a voz de Evelyn atrás de mim.
Me viro e a vejo saindo do carro junto com Ariel. Nós três somos melhores amigos inseparáveis desde o ensino fundamental.
— Oi, amor — diz Ariel enquanto me abraça. — Como foi seu fim de semana?
— Uma droga — respondo com a voz cansada.
— Não sei por que você ainda pergunta — comenta Evelyn, passando os braços ao redor do pescoço de Ariel. — Você sabe que a Dani passa o fim de semana inteiro presa com aquelas três cobras.
— Vamos para a aula — digo, olhando a hora no relógio da parede.
— Bora lá — responde Evelyn, colocando um braço sobre meus ombros e o outro nos de Ariel.
Então, ela começa a nos puxar em direção à escola.
Enquanto caminhávamos pelo corredor da escola, era impossível não chamarmos atenção. Todos olhavam para nós. Afinal, éramos bastante populares no colégio.
— Os GLS chegaram — sussurra uma aluna para a outra.
— É isso aí! — responde Evelyn, se gabando da fama. — A realeza está na área.
GLS era como nos chamavam ali dentro. O motivo? Ariel era assumidamente gay, Evelyn era lésbica... e o "S" era eu, de simpatizante — alguém que apoiava a causa.
Estamos na sala de aula, bem no meio da aula de Biologia. O professor explica um novo conteúdo enquanto escreve no quadro.
— Eu amo as aulas de botânica — sussurra Ariel, encantado, sem tirar os olhos do professor.
Dou um leve sorriso. Ariel é completamente apaixonado por plantas.
Quando o sinal do intervalo toca, procuramos um lugar para sentar e conversar.
— Estou louca para começar logo a faculdade de Medicina Veterinária — diz Evelyn, animada, enquanto se senta. — Quero ser uma ótima veterinária, assim como meus pais.
— E você, Ariel? Vai cuidar da floricultura da sua mãe? — pergunto, curiosa.
— Eu quero mais do que isso — responde Ariel, determinado. — Acho que vou entrar para a política. É o único jeito de realmente proteger o meio ambiente.
— Vou criar vários projetos de leis ambientais — acrescenta ele, cheio de convicção.
— E você, Dani? — pergunta Evelyn, olhando para mim. — O que pretende fazer da vida? Para falar a verdade, você nunca disse o que quer fazer depois de se formar.
— Ainda estamos no primeiro ano — respondo, desviando o olhar. — É cedo para pensar nisso.
— Já sei! Você vai virar herdeira — brinca Ariel, me dando uma leve cutucada. — Afinal, quando completar dezoito anos, vai ter direito à herança do seu falecido pai.
— É isso mesmo — digo com um sorriso sem graça. — Vou ser apenas uma herdeira mimada.
Evelyn e Ariel riem junto comigo.
Ah, meus amigos... se vocês soubessem que eu nem vou chegar aos dezoito anos.
Mas, de repente, sinto uma presença familiar.
Peraí... estou sentindo o Luiz.
Não acredito que ele está aqui.
Viro o rosto e olho ao redor, procurando discretamente. Até que o vejo me observando de longe.
— Ah, não... — murmuro, incrédula.
Assim que percebe que eu o vi, Luiz abre um sorriso carinhoso.
— O que foi, Dani? — pergunta Ariel, curioso.
— O Luiz está aqui — respondo, ainda sem acreditar.
— O seu namorado fantasma? — sussurra Evelyn bem baixinho.
— Sim — digo, mantendo os olhos fixos nele.
Luiz começa a caminhar em nossa direção.
— Que pena que a gente não consegue vê-lo — comenta Ariel, frustrado. — Eu queria muito conhecê-lo.
— Oi, amor — diz Luiz ao se aproximar de mim.
— E aí, macho da Dani? — diz Evelyn em tom de deboche.
— Macho? — pergunta Luiz, confuso.
— É uma gíria — explico, olhando para ele. — "Macho" quer dizer que você é meu namorado.
— Ah, entendi... — responde Luiz, sentando-se à minha frente, bem ao lado de Ariel.
— Já te disse para não vir me ver aqui na escola — falo firmemente. — Se os fantasmas daqui descobrirem que eu consigo falar com espíritos, vão começar a me perseguir.
— Desculpa... — murmura Luiz, abaixando a cabeça. — Eu só queria te ver.
— Não seja tão dura com seu namorado — reclama Ariel, impaciente. — Ele só veio te visitar.
— Não se preocupe, amor. Não vou conversar muito com você — diz Luiz, me olhando discretamente. — Só quero ficar ao seu lado.
— Então vamos ser discretos, porque há muitos fantasmas neste refeitório — respondo, olhando ao redor.
— Olha quem está vindo... É a irmã do Sebastião — comenta Ariel, observando alguém ao longe.
— Nossa, ela parece tão tristinha — diz Evelyn, também olhando na direção da garota.
— E não é para menos. Depois daquele acidente, o Sebastião entrou em coma — fala Ariel, com tristeza na voz. — O meu amorzinho está há três meses em coma.
— Nossa... Que tragédia — comenta Luiz, chocado.
Olho para Ariel e percebo o quanto ele ficou abalado ao ver a irmã de Sebastião.
Ariel é apaixonado por ele desde o oitavo ano.
Mas esse nunca foi um amor correspondido.
— Cecília, aqui! — chama Ariel, acenando para ela.
— Oi, gente — diz Cecília ao se aproximar da nossa mesa.
— Como está o Sebastião? — pergunta Ariel, apreensivo.
— Do mesmo jeito... — responde Cecília, segurando o choro. — Ele não reage.
— Dani, você está com suas cartas de tarô na mochila? — pergunta Evelyn, olhando para mim.
— Sim — respondo sem hesitar.
— Boa ideia! — diz Ariel, esperançoso. — Você pode ver quando o Sebastião vai despertar.
— Sim! — concorda Cecília, com os olhos brilhando de esperança, enquanto se senta bem em cima da cadeira onde Luiz estava.
— Ei! — reclama Luiz, afastando-se rapidamente.
— Então, vamos lá — digo, tirando o baralho de tarô da bolsa. — Tarô, me fale sobre a saúde de Sebastião.
Embaralho as cartas lentamente.
— Tomara que sejam notícias boas... — murmura Cecília, receosa.
— Vai dar certo — diz Ariel, apertando a mão dela com esperança.
Coloco as cartas sobre a mesa.
— Tire sete cartas — peço, olhando para Cecília.
Ela estende o braço com as mãos trêmulas.
Ela escolhe as cartas lentamente. Guardo o restante do baralho e respiro fundo antes de virar as sete cartas sobre a mesa.
Meu coração aperta no mesmo instante.
Não são boas notícias.
A primeira carta é A Morte.
Sinto um arrepio percorrer meu corpo. Aquela carta não costumava significar morte literal... mas, naquela leitura, a energia era diferente. Pesada, fria e definitiva.
Ao lado dela estava o Dez de Espadas. Uma carta de fim, sofrimento e encerramento absoluto.
Engulo em seco.
A terceira carta era O Eremita invertido. Isolamento espiritual. Uma alma perdida, distante do próprio corpo.
Meu olhar desce para a próxima carta.
Quatro de Espadas.
Repouso. Silêncio. Um corpo imóvel.
Então vi A Lua invertida, revelando ilusões e verdades escondidas. Como se algo estivesse sendo negado por todos ao redor.
As últimas cartas quase fizeram meu estômago embrulhar.
Cinco de Copas... luto.
E O Julgamento invertido.
Aquilo parecia um grito silencioso dizendo que Sebastião já havia partido... mas ninguém conseguia aceitar.
Levanto os olhos lentamente para Cecília e Ariel. Os dois me observam cheios de esperança.
E, pela primeira vez desde que comecei a ler tarô... eu não sabia como dizer a verdade.
— Então, Dani... o que as cartas estão dizendo? — perguntam Cecília e Ariel quase ao mesmo tempo.
Começo a suar frio.
Todos estão me olhando, esperando uma resposta.
Não... Eu não posso dizer a verdade.
Não vou conseguir falar que Sebastião não está mais entre nós.
— Então... — começo, respirando fundo. — As cartas dizem que ele vai acordar em breve.
As palavras saem da minha boca antes mesmo que eu consiga pensar direito.
— Eu sabia! — exclama Cecília, abrindo um sorriso emocionado. — Ainda bem que nunca perdi as esperanças.
Olho discretamente para Luiz. Seu olhar triste muda imediatamente para decepção.
— Você não devia ter feito isso — diz ele em voz baixa.
Desvio o olhar e fico encarando a mesa, sentindo um peso horrível no peito.
— Não vejo a hora de vê-lo voltar para a escola — comenta Ariel, todo feliz.
— Vocês querem ir lá em casa ver meu irmão depois da aula? — pergunta Cecília enquanto se levanta. — Minha mãe fica tão feliz quando os amigos dele vão visitá-lo.
— Claro — responde Ariel, tocando no ombro dela. — É uma ótima ideia, né, gente? — pergunta, olhando para nós.
— Por mim, tudo bem — diz Evelyn, sem tirar os olhos do celular.
— Por mim também — respondo, sem conseguir encarar Cecília.
Logo o sinal toca, e todos voltamos para a sala.
Agora é aula de Língua Portuguesa, mas não consigo me concentrar em absolutamente nada.
Tudo o que consigo pensar é na mentira que contei.
Eu não devia ter dito aquilo.
Fui cruel ao dar falsas esperanças.
Depois da aula, ficamos esperando em frente à escola até o motorista de Cecília e Evelyn chegar. Entramos no carro, e Luiz acaba entrando junto comigo, sentando-se ao meu lado.
— Fiquei curioso para conhecer o amigo de vocês — comenta ele, olhando pela janela.
Não demora muito para chegarmos à mansão da família de Cecília.
Entramos na casa, e os pais dela nos recebem com sorrisos gentis, embora o cansaço em seus rostos seja evidente. Em seguida, subimos as escadas e seguimos até o quarto de Sebastião.
— Estamos entrando, irmão — avisa Cecília enquanto abre a porta.
Entramos no quarto, e logo vejo Sebastião deitado na cama, ligado a vários aparelhos. O som constante das máquinas deixa o ambiente ainda mais pesado.
— Com licença — diz o enfermeiro antes de sair do quarto.
— Não pode ser... — murmura Luiz, chocado, aproximando-se lentamente da cama. Seus olhos se arregalam ao encarar Sebastião.
— Parte meu coração vê-lo assim — comenta Ariel com tristeza, aproximando-se também.
Dou alguns passos em direção à cama, mas, quando olho de novo, percebo que Luiz desapareceu.
— Cadê ele? — murmuro, olhando ao redor.
— Ai, meu Deus! — grita Ariel, em choque. — O Sebastião mexeu os dedos!
Olho imediatamente para a cama e vejo os dedos de Sebastião se moverem lentamente.
— Ai, meu Deus... — diz Cecília, começando a chorar. — Mãe! Pai! — grita ela enquanto corre para fora do quarto.
Ariel segura a mão de Sebastião, e o corpo dele reage ainda mais. Seus dedos se movem, e logo seus braços começam a se mexer lentamente.
Sinto um arrepio percorrer minha espinha.
Como isso é possível?
O tarô deixou claro que Sebastião não estava mais neste mundo.
Então... como ele pode estar se movendo agora?