Segunda-feira, 15 de abril de 2024
Eu estava dormindo profundamente até ser acordada pelo som suave do despertador. Estico o braço até a cabeceira da cama e desligo o aparelho.
— Que soninho bom... — digo, sentando-me na cama enquanto me espreguiço.
Levanto e caminho até a janela. Ao abrir as cortinas, deixo a luz do sol invadir o quarto. Em seguida, abro a janela e me apoio no parapeito, observando o jardim lá fora. Os passarinhos voam de um lado para o outro enquanto cantam alegremente.
— O dia está tão lindo hoje... — comento, encantada.
Vendo assim de longe, até pareço uma adolescente normal. Mas de normal eu não tenho nada. Tenho um dom especial: consigo ver fantasmas.
Olho novamente para o jardim e vejo um homem caminhando entre as flores. É um espírito.
— Bom dia, minha senhora — diz ele, sorrindo.
— Bom dia — respondo, acenando de volta com um pequeno sorriso.
O nome dele é Benedito. Em vida, foi um escravo, e agora seu espírito vaga pela propriedade, cuidando do jardim todos os dias. Alguns fantasmas não conseguem seguir para o além por causa do apego... ou porque ainda têm assuntos inacabados.
Acabei de tomar banho e vestir meu uniforme escolar. Agora estou sentada em frente ao espelho, penteando meus cabelos cacheados e brancos ainda molhados.
— A cada dia que passa, meu cabelo fica mais branco... — murmuro enquanto deslizo a escova pelos fios.
Meu olhar para em uma pequena mecha preta entre os cabelos claros: meus últimos fios negros. A cada dia, essa mecha perde a cor, fio por fio, como um lembrete cruel do destino que me espera.
Desde pequena, vivi assombrada pela ideia de que morreria aos quinze anos. Todos os anos, no dia do meu aniversário, eu tenho o mesmo sonho. Nele, aparece um garoto que aparenta ter cerca de quinze anos. Nunca consigo ver seu rosto com clareza, mas suas roupas chamam atenção: ele sempre veste um uniforme de soldado antigo.
No sonho, ele surge diante de mim e diz apenas uma coisa:
— Em breve, virei buscá-la.
Meus pais passaram anos tentando encontrar uma maneira de quebrar a maldição. Eles me levavam para todos os lugares possíveis em busca de respostas, até que, em uma dessas viagens, sofremos um acidente. Minha mãe morreu naquele dia.
Meu pai ficou devastado.
E, quando pensei que nada poderia piorar, ele também morreu há um ano... me deixando completamente sozinha.
— Já está pronta, filha? — escuto a voz da minha mãe atrás de mim.
— Estou quase, mamãe — respondo enquanto termino de ajeitar a franja.
— É melhor se apressar, senão vai se atrasar para a aula. — Minha mãe tenta tocar meu ombro, mas sua mão atravessa meu corpo.
— Não apressa ela, amor — diz meu pai, surgindo ao lado dela. — Ela ainda tem bastante tempo.
— Dani, sua dorminhoca! — escuto gritos vindos lá de baixo. É ela, minha madrasta. — Anda logo ou vamos tomar café sem você!
— Já estou indo! — grito de volta.
— Vai lá, Dani. A mulher do seu pai está te chamando — comenta minha mãe, virando o rosto e cruzando os braços.
— Até quando você vai ficar com isso? — pergunta meu pai, com a voz cansada. — Ela não é mais minha mulher. Eu estou morto, esqueceu?
— Por favor, não briguem — peço, levantando-me da cadeira. — A senhora precisa perdoar o papai. — Viro-me para minha mãe.
— Sua mãe é muito cabeça-quente — comenta meu pai, olhando para ela. — Ela queria que eu virasse padre depois da morte dela.
— Você sabe que não é essa a razão da minha raiva — rebate minha mãe, encarando nós dois. — Por que tinha que se casar logo com uma bruxa? Aí você morreu, e minha filhinha ficou sofrendo nas mãos dela.
— Como eu ia adivinhar que a Branca era uma pessoa ruim? — retruca meu pai, indignado. — Ela só mostrou as garras depois que eu morri.
— Pois é. Agora ela está aí, desfrutando da herança do falecido e, de bônus, maltratando a enteada — diz minha mãe, revoltada.
— Estou indo, gente. — Pego minha mochila e caminho até a porta. — Me deem a bênção.
— Deus te abençoe, minha filha — diz minha mãe, fazendo o sinal da cruz em mim.
— Tenha um ótimo dia de aula, filha — deseja meu pai, com a voz doce.
Mando vários beijinhos para os dois antes de me virar. Então abro a porta e desço as escadas.
Me aproximo da mesa e logo vejo minha madrasta sentada junto de suas duas filhas gêmeas, Beatriz e Beatrice. Meu pai se casou com a Branca três anos depois da morte da mamãe. No começo, ela e as filhas eram gentis e doces comigo, mas se transformaram em verdadeiros demônios após a morte do papai, no ano passado.
— Bom dia — digo enquanto me sento à mesa.
— Por que demorou tanto? — pergunta minha madrasta, impaciente, enquanto coloca café na xícara.
— É que eu estava arrumando meu cabelo — respondo, pegando uma fatia de bolo.
— Acho que a senhora deveria alisar o cabelo dela, mamãe — comenta Beatrice com um sorriso cruel. — Assim ela não vai mais perder tempo com esses cachos.
— Não! — digo, começando a entrar em desespero.
— Mas que ideia fantástica, filha — responde minha madrasta friamente, apertando a bochecha de Beatrice.
— Por favor, senhora, não faça isso — imploro desesperada. — Eu prometo que vou acordar mais cedo para arrumar meu cabelo.
— O certo seria raspar esse cabelo horroroso — comenta Beatriz, olhando para mim com desprezo. — Você parece uma velha com esse cabelo branco.
— É melhor ficar esperta — diz minha madrasta, lançando-me um olhar intimidador. — Se você se atrasar de novo amanhã, eu juro que raspo esse seu maldito cabelo e faço você usar peruca.
— Sim, senhora... — respondo de cabeça baixa.
— José — chama minha madrasta, olhando para o motorista. — Quero que leve apenas minhas filhas para a escola.
— A Daniella precisa de uma caminhada para organizar os pensamentos — acrescenta Beatrice, com um sorriso debochado.
— Sim, senhora — responde José sem hesitar.
Olho para meus pais, que me observam de longe. Ambos me lançam um olhar triste, principalmente meu pai. Ele ainda se sente muito culpado por tudo o que aconteceu.
Depois do café, as gêmeas se levantam e dão um beijo na mãe.
— Boa aula, meus bebês — diz minha madrasta, enchendo as filhas de beijos.
As duas pegam as mochilas logo em seguida.
— Boa caminhada — debocha Beatriz enquanto passa por mim.
— Te vejo na escola, esquisitona — diz Beatrice, esbarrando em mim de propósito.
Pego minha mochila e começo a caminhar pela rua. Andar pela manhã não é tão ruim assim. Gosto de sentir o ar fresco e ouvir os sons tranquilos da cidade despertando.
Mas preciso tomar cuidado.
Olho ao redor e vejo pessoas passando pela calçada. Algumas estão vivas... outras não.
Não gosto que os mortos descubram que consigo vê-los. Se perceberem isso, começam a me seguir, pedindo favores, implorando para que eu entregue mensagens ou tente falar com seus familiares vivos.
Dobro a esquina e logo avisto o circo abandonado. Um sorriso surge automaticamente em meu rosto, e sigo em direção a ele.
Aquele lugar é isolado; ninguém tem coragem de pôr os pés ali, porque dizem que é assombrado. E, bem... eles estão certos. É um circo antigo, abandonado desde os anos 20.
— Bom dia, minha bela dama — escuto a voz de Luiz ecoar pelo local.
Sinto meu coração se aquecer imediatamente. Viro-me e o vejo caminhando em minha direção.
— Amor, a bruxa velha quer raspar meu cabelo — reclamo, indignada.
— Acho que vou ter que fazer outra visitinha nos sonhos da sua madrasta — diz Luiz, revoltado, aproximando-se de mim.
— Melhor não. Você fica muito fraco depois que faz isso — respondo, preocupada. — Não se esqueça de que em breve vamos embora deste lugar.
— Você tem razão — diz ele docemente, tentando tocar meu rosto, mas seus dedos atravessam minha pele. — Preciso estar cem por cento quando formos.
Luiz é meu namorado fantasma.
Eu o conheci logo após a morte do meu pai. Foi quando encontrei este lugar pela primeira vez: um circo vazio, silencioso e esquecido pelo mundo. Ali conheci Luiz, o espírito de um jovem palhaço.
Os pais dele eram donos do circo. Luiz morreu durante uma apresentação, vítima de um infarto. Ele tinha apenas quinze anos.
Por muito tempo, Luiz não conseguiu aceitar a própria morte... até me conhecer. Ele me ajudou a suportar a perda do meu pai, e eu o ajudei a aceitar o próprio destino.
Foi então que eu também aceitei o meu.
Parei de lutar contra a maldição.
As pessoas que eu mais amava já estavam mortas. Então... qual era o sentido de continuar lutando pela vida?