Sutra moral do céu (3)
Nas extensas estradas vermelhas, cobertas por uma grossa camada de um pó vermelho que se levantava como uma cortina — estimulada pela vibração da moto que cortava a estrada, pintando as flores no entorno de vermelho —, acelerando cada vez mais, o grande urso de topete e jaqueta de couro partia para além do horizonte, ajeitando seus óculos escuros ao lado da jovem garotinha de cabelos cacheados dourados.
Caminhando por esta mesma estrada, o cervo cinza, apoiado em seu bastão de madeira, observava com um olhar sereno a dupla de encrenqueiros partir para o mais profundo além.
Atravessando em prolongada caminhada o desolador corredor vermelho, peregrinando na companhia dos berros do tucano, o caminhante jogou seu bastão ao chão, que rapidamente ganhou vida, tornando-se uma serpente real. Esta abriu abaixo uma fenda, interligando os dois pontos através do próprio abismo, para que passassem ao outro lado.
E, assim como no início dos tempos, a luz do sol toca o chão, erguendo-se desta terra mágica onde o inconsciente e o consciente se encontram em estações passageiras junto com o tempo.
Nessas horas, o tempo flui, atravessando o tecido espacial e o dobrando como papel, maleável e fino; transpassa sob o coração pulsante nas profundezas do palácio daquele que governa em trindade de seus iguais. Aquecem-se, nos cômodos exteriores do palácio, os prazeres da afeição da carne em meio a ricas e vastas fontes termais, com a terra como sua cama e o céu noturno os cobrindo, enquanto as auroras boreais rasgam o céu como estandartes divinos.
Constelações vivas desenham quadros divinos à vontade do imperador; lobos espectrais cruzam as auroras boreais perseguindo o cume do brilho da lua, movendo-se em sincronia e desaparecendo quando o dia nasce.
Prostrando-se diante de vossa majestade, o cervo cinza o saudou com reverência.
"Salar d'Uyuni, seu humilde servo, saúda vossa graça! Trago as novidades do outro lado, majestade! Vossos convidados já estão a caminho de seus domínios."
Um sorriso travesso se formou no rosto do imperador.
"Assim será, majestade, sua vontade é absoluta!"
Para o além do universo, nadando em frente juntos de forma sincronizada, como se fossem um só, vinha um cardume de dragões estelares em volta dele, com sua plumagem exótica. Abrindo as asas, uma coloração predominantemente marrom se revelou, mas com manchas brancas e pretas espalhadas pelo corpo e com um tufo de penas na cabeça, lembrando orelhas.
Parando em atenção viva àquilo que via, o cervo cinza estava com a sobrancelha esquerda levantada em dúvida.
'Curioso, um dos 108 dragões estelares está em falta. Confuso.'
Não dando tempo para se aprofundar no assunto, o cervo cinza voltou ao seu caminho.
Da cor da dobra vinda das ondulações do espaço, um sol branco jorrava ao horizonte. Erupções de plasma traziam, em uma onda de atração gravitacional celeste, prateleiras de centenas de apoios que guardam grandes livros; trilhões destas estantes flutuavam em volta do sol branco.
Como uma tela de vidro fluido que, com sua movimentação, tomava incontáveis formas em um ímpeto voraz, quebrando-se e se reformando em fusões nucleares eternas, uma passagem etérea colocou uma ligação infinita entre mundos.
Caminhando por esta ponte segura de mundos, de túnica vermelha acima de vestes brancas amareladas pelo tempo, com cada um dos sinos presos aos seus chifres tocando, o grande cervo cinza dos olhos castanhos guiava o seu caminho com o auxílio do bastão de madeira.
Abaixo de tudo, sustentando a base da existência, um chão negro ia das entranhas de Yggdrasil às águas primordiais de Nun.
Através de um movimento de contração brusca, uma violenta explosão voou para todos os lados como a fluidez de água quente circulando no horizonte dimensional, atuando em poros de formas sólidas cristalizadas, tocados com o toque gélido do vácuo infinito do espaço.
A meteorização de tal erosão a antimatéria servia de base da criação e do próprio ferro estelar, mas, de sua deslocação, pedaços voaram em direção a planetas, rasgando o céu e caindo sobre eles, causando grandes eventos catastróficos.
Observando tais fenômenos raros, o cervo andarilho parou em contemplação de tão bela arte natural sendo pintada diante dele.
— Um lorde nascerá. Entre os dez mil demônios, um demônio chora; a carne do homem cede e, do fogo sagrado, um deus do sol negro nasce.
Se virando para retornar sua caminhada para a passarela policromática, em direção ao destino de outros planos.
Dia 31 de janeiro:
— Anotações descritas para que o futuro entenda o amanhecer que lhe veio, mas antes deve, por obrigação, saber o passado.
Um vazio escuro onde não se extingue nada: espaço de queda, vertigem e confusão sem fim, sem fundo. Somos apanhados por esse abismo como por uma boca imensa e aberta que tudo traga numa mesma noite indistinta.
Aos poucos o caderno foi fechado e o cervo cinza pisou no fim da passarela, ficando na frente da porta negra. Girando a maçaneta e empurrando a porta para atravessá-la, o tempo ao seu redor passou a fluir e a escuridão se misturou com a luz. Luzes cintilantes e um mundo tingido de cores belas surgiram; uma majestosa e imponente Yggdrasil repousava no ponto nexo da Via Láctea.
— Intocável, a primeira árvore, mais antiga que tudo, branca e pálida. A grande árvore-mãe do mundo agora repousa em últimos suspiros eternos, guardando em suas raízes as ilhas que sustentam a criação.
Cercando-o, pequenos corpos fofos, com muitas penas brancas e parecendo uma bolinha de algodão — assim como o inverno —, guiavam-no até a passagem; as fadas das neves o levaram ao encontro do seu desejo: um local sagrado, o epicentro do conhecimento. Informações importantes são escritas até hoje. A última página do livro está para terminar, determinado em um tempo descrito como insondável; os detalhes são cravados como outrora era tabu, mas a maior parte está sendo transmitida de forma geral nos dias de hoje.
Guiado ao destino, passou acima de um vasto lago cujas águas rasas transbordavam de um vermelho-sangue vivo e um laranja incandescente, exaltando os movimentos das águas como chamas vivas, preservando sobre elas milhares de estátuas de pedra dos seres mortos.
Atravessou-o acima de pranchas de madeira de árvores demoníacas de araucárias, com o auxílio na direção de um ser magro e longo, com membranas nas patas traseiras, dando-lhe uma aparência serpentina — uma serpente real de oito metros, movendo-se pelo ar em direção a uma vastidão branca quase infinita, parecendo um mar sólido feito de cristais, um chão polido de formas hexagonais encaixadas de forma divina.
Apertando o passo, a velocidade aumentou, e logo a serpente real voou de volta para a mão do seu mestre, o cervo cinza, retornando para a sua verdadeira forma.
— Eu venho aqui expressar meus sinceros sentimentos de admiração por chegarem até aqui. A partir deste ponto eu, o mestre Salar d'Uyuni, apontarei o caminho. Sigam-me!