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Manuscrito das três faces

miguelv341
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Vagantes condenados: Aka Caeruleum

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Vagantes condenados: Aka Caeruleum

As grandes planícies do Oeste eram conhecidas por abrigar a maior e mais movimentada rota comercial do mundo. Atraíam a atenção de incontáveis viajantes, comerciantes e, infelizmente, de inúmeros bandidos ávidos por saquear as caravanas que por ali passavam. Essa situação perigosa forçou os povos nativos a encontrarem uma forma de tirar proveito do caos, oferecendo serviços de escolta e segurança às comitivas em troca de sustento e trabalho.

Em meio àquela cena de agitação e constante alerta, um curioso espetáculo chamava a atenção de todos. Um homem, vestido com um manto vermelho e vistoso, dançava de maneira animada e enérgica. Ele era acompanhado por dois cavalos que, surpreendentemente, haviam se erguido sobre as patas traseiras, como se estivessem dançando com ele. Movimentando os ombros e balançando o manto, o homem executava passos cada vez mais elaborados, demonstrando um entusiasmo contagiante.

— Canta comigo! Faz Wood! Faz Wood! — ele gritava, enquanto seus dois companheiros equinos acompanhavam seus movimentos, formando uma cena inusitada que quebrava a rotina exaustiva da rota.

— Pai! Tem um maluco dançando com dois cavalos bem ali! — exclamou o filho de um comerciante, perplexo diante daquela imagem incomum.

A apresentação improvisada atraía mais e mais mercadores. Todos interrompiam seus afazeres para apreciar o espetáculo. Seus passos graciosos, em perfeita harmonia com os animais, criavam uma experiência única. O homem se movia com uma fluência impressionante, ora girando sobre si, ora deslizando suavemente pelo solo batido. Seus braços esvoaçavam no ar, dando a impressão de que a música invisível que guiava seus movimentos emanava de seu próprio corpo.

Ao final da apresentação, ele agradeceu ao público com profundas e exaggerated reverências:

— Obrigado! Obrigado a todos por acompanharem minha dança até o fim! — exclamou, sua voz ecoando por entre as carroças.

Então, os dois equinos — um de pelagem vermelho-viva e o outro de um azul-celeste — voltaram a apoiar-se sobre as quatro patas e começaram a circular entre o público, segurando tigelas na boca para recolher donativos. O tintilar das moedas misturava-se aos murmúrios e exclamações encantadas da multidão.

— Pai! Pai! Olha aqueles dois cavalos! Um é vermelho e o outro é azul… Eu os quero, papai! Agora! — gritou uma criança, com os olhos brilhando. O pai sorriu, balançando a cabeça, embora sua própria fascinação diante de tal raridade fosse evidente.

Mesmo com o fim da música, o estranho indivíduo continuava a deslizar graciosamente, como se ainda estivesse sob os refletores de um palco. Ele se afastava seguido por seus fiéis cavalos, até que seu caminho foi obstruído por dois guerreiros vestidos com pesadas armaduras e empunhando machados.

— Em que posso ajudá-los, meus jovens? — ele indagou, inclinando a coluna para trás e apontando o dedo num gesto puramente teatral.

Os dois homens se entreolharam, confusos diante daquela atitude. Por alguns segundos, o silêncio prevaleceu, até que um deles finalmente tomou a palavra:

— Nosso contratante o convida para uma reunião. Venha conosco, por favor.

— Oh, oh, oh, sim, sim! Mostrem-me o caminho! — exclamou o estranho, transbordando entusiasmo.

Seguindo os guerreiros, ele foi conduzido até uma grande e luxuosa tenda que se erguia no meio do acampamento. Ao chegarem, os guardas abriram a cortina de entrada. Sem hesitar, o visitante adentrou a tenda de costas, realizando um impressionante *moonwalk* e finalizando com um salto mortal.

— Hahaha, realmente magnífico! — o mercador exclamou, aplaudindo veementemente a entrada triunfal. Seus olhos brilhavam de excitação. Tratava-se de um homem de meia-idade, porte robusto e rosto afável, fascinado pelo visitante misterioso.

— Obrigado, obrigado! — o estranho respondeu. Ele era um homem alto e esguio, emanando uma aura de elegância e mistério. Seu rosto estava coberto por uma máscara dourada que refletia a luz do ambiente.

— Vamos! Sente-se e beba comigo. Temos muito a celebrar! — convidou o mercador, gesticulando animadamente.

— *Sure baby, sure baby!* — respondeu o mascarado, com uma alegria quase infantil.

Ao se acomodar, ele puxou o capuz para trás, mantendo apenas a reluzente máscara dourada à mostra. O mercador observava cada movimento, com a mente fervilhando de perguntas.

— O senhor tem um belo par de cavalos, senhor… senhor… qual é mesmo o seu nome? — perguntou ele, falhando em esconder a curiosidade.

— Aka Caeruleum, nono filho do grande rei sábio!

— Oh! Então o senhor pertence à realeza?! — o comerciante espantou-se, vislumbrando uma oportunidade ainda mais lucrativa de negócios.

Aka arqueou levemente uma sobrancelha por trás da máscara.

— Algo desse tipo — respondeu em tom enigmático, a voz de repente soando grave e serena.

O comerciante engoliu em seco, momentaneamente **intimidado** pela repentina mudança de ar. Respirou fundo e prosseguiu:

— Entendo… Mas me diga, meu amigo Aka, aqueles dois belos cavalos que o acompanham… Onde os conseguiu? Parecem ser animais de rara linhagem.

Aka fitou os magníficos corcéis do lado de fora por alguns instantes antes de voltar seu olhar penetrante para o homem.

— Seus olhos me dizem o que você realmente quer. Não precisa ser tão educado, podemos ir direto ao ponto.

O comerciante assentiu, aliviado por dispensar as formalidades.

— Pensei em tentar persuadi-lo gradualmente, mas vejo que é um homem direto. Tudo bem! Quanto quer por eles?

Aka permaneceu em silêncio por um momento.

— O preço será aquele que você considera mais valioso em seu coração — respondeu, enfim, com tom sóbrio. — Afinal, negociar é uma arte que exige entendimento mútuo. Quanto você estaria disposto a pagar por estes animais?

— Sou um dos três maiores mercadores do mundo! Dinheiro não é problema para mim. Meu poder e influência se estendem aos quatro cantos do globo; tenho acesso a tesouros que a maioria dos mortais sequer consegue imaginar.

Ele fez uma pausa dramática, os olhos brilhando com vaidade. Aka então falou:

— Meu preço não se encontra em simples pedaços de metal. O que eu tenho a oferecer está muito além do ouro ou da prata. Ainda assim, pergunto: você está disposto a arcar com o que exijo em troca?

Respondendo sem hesitar, o mercador disse:

— Não importa o preço, eu pago! Seja qual for o seu pedido, farei tudo ao meu alcance para satisfazê-lo.

O mercador esboçou um sorriso satisfeito.

— Como queira.

Retirando um baralho de seu manto, Aka dividiu as cartas em três pilhas de cores distintas: uma azul, uma vermelha e, no meio, uma única carta de cor dourada.

— Essas cartas contêm os segredos mais valiosos que possuo. Você terá de escolher uma delas para que eu revele seu conteúdo. Mas lembre-se: o preço a ser pago por qualquer uma dessas informações é alto demais para a maioria dos homens. No momento em que aceitar jogar, não haverá volta.

— Tudo bem — concordou o comerciante.

Iniciando o jogo, Aka juntou e embaralhou as cartas, alinhando cinco delas à frente do homem. Porém, estranhamente, as cinco cartas agora eram totalmente brancas, sem qualquer cor visível.

— As regras são simples — explicou Aka. — Uma das cinco cartas é a dourada, representando a vitória. As outras quatro são divididas em duas azuis e duas vermelhas.

O comerciante analisou a fileira em silêncio, tentando notar qualquer imperfeição que denunciasse a carta dourada. Sabia que o risco era elevado, mas a ambição o guiava. Após alguns instantes, apontou para uma delas.

— Estou pronto.

Aka sorriu por baixo da máscara. Com um gesto lento e deliberado, virou a carta escolhida. O comerciante prendeu a respiração, o suor frio escorrendo pela testa.

— Diga-me… você se considera um homem de sorte? — perguntou Aka, a voz suave.

O comerciante assentiu, tentando manter um sorriso confiante:

— Sim, eu me considero um homem de sorte. Construí minha fortuna com minhas próprias mãos, mas devo muito à sorte que me acompanhou pelo caminho.

Aka acenou com a cabeça lentamente.

— Ótimo, ótimo. Mas, infelizmente, parece que hoje a sua sorte acabou.

Ao ter o conteúdo da carta revelado, o horror tomou conta do rosto do mercador. Sua respiração tornou-se curta e as mãos começaram a tremer incontrolavelmente. Ele reconheceu o significado sombrio do símbolo estampado ali.

— Não… isso não pode ser verdade! — exclamou, com a voz trêmula. — O que isso significa?! O que vai acontecer comigo?!

Aka inclinou a cabeça, impassível.

— Isso, meu amigo, é algo que você terá de descobrir por si mesmo. Sua jornada a partir daqui será cheia de desafios e incertezas… se é que haverá uma jornada.

Levantando-se, o homem caminhou em direção à saída da tenda. Antes de cruzar a cortina, parou e olhou de relance para o comerciante.

— Esqueci de mencionar a penalidade por escolher a carta vermelha… Mas vejo que não faz sentido explicar agora. Você já está prestes a descobrir.

Aka saiu, deixando o silêncio e uma tensão sufocante para trás.

"O que ele quis dizer com isso?", pensou o comerciante, sentindo um arrepio espesso percorrer a espinha.

Apenas alguns segundos depois, o som grotesco de carne se rasgando, jorros de sangue e gritos agônicos ecoaram do lado de fora. O comerciante saltou de susto. Em questão de instantes, os corpos de seus guardas foram arremessados para dentro da tenda, mutilados e sem vida. O sangue lavou o chão ornamentado.

Tomado pelo pânico, ele correu até a saída e colocou a cabeça para fora, apenas para presenciar um cenário de pesadelo: por todo o acampamento, ao longo do horizonte, os corpos de todos os outros mercadores e viajantes jaziam despedaçados. Uma poça de sangue gigantesca cobria a terra batida.

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