“Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”
- Mãos dadas/ Carlos Drummond de Andrade
Documentos, por favor. Visto negado, saia! Não, por favor, tenho família eu preciso disso. Saia ou eu chamo os guardas e eles te espancaram com porretes e sua matéria será reduzida à uma vala. Em um relapso matinal, abruptamente levanto e bato a testa na cabeceira da cama. Desculpa, amor. Ela vira de costas acostumada com esse ritual do sol nascente. Não me respondeu. Levanto o corpo e a alma fica, assim penso eu quando observo o formato do meu lombo ainda marcado no colchão barato, um vale de medo e delírio que se aproxima e aproxima até ficar plano de novo. Mais um dia para ser porteiro do paraíso. Manhã abençoada.
Um gole de café amargo, tem que ser amargo, doce somente no trabalho. Ajeito a gravata e 30 minutos de rodovia. Com 5 minutos, lembro dos olhares desesperados, do dia anterior e me identifico com aquele sentimento primordial: Medo. Com 15 minutos, já se dá para ver a sombra dos muros baixos gerado pelo Sol ainda tímido nascendo no horizonte cobrindo os passos rasos dos homens para além da fronteira. Pobres coitados, todo esse desespero para fugir do meu encontro. A esperança esvai fugace e esmorece de tal forma que se limitam a reduzir a face, o nome, a existencia em papéis. Sabem da minha reputação, da minha responsabilidade, das suas ínfimas chances. Com 25 minutos, o muro virou uma muralha e a sombra, o abismo. Deixo minha face do lado de dentro e visto o uniforme do Estado. Não sou mais Jano, sou o guarda da fronteira, número de identificação: zero sete dois sete quatro. Documentos, por favor.
Uma velha que tinha idade para ser minha mãe entregava os papeis. Olho de cima a baixo, de canto direito e esquerdo, comparo sistematicamente as rugas do seu rosto flácido como se estivesse em um jogo dos sete erros. Divirto-me nessa inquisição, sinto o gosto do mel em cada gole do líquido preto que atiça as engrenagens do meu sistema nervoso. Nunca se sabe se o que estou deixando entrar é um terrorista, um traficante ou um simples criminoso. Vejo ela ansiosa, respirando rápido demais para um inocente, farejo alguma incoerência. O número de requisição não bate com os documentos que você me trouxe, visto negado! Antes que eu pudesse bater o carimbo, ela bate no vidro da minha cabine, a fronteira fumê que separa o homem do seu dever, o Eu do nós. Ela mostra uma fotografia surrada da sua família. Uma filha que tem idade para ser minha esposa, um neto que tem idade para ser meu filho, um filho que tem a idade para ser eu.
Olho aquilo com um aperto. A máscara do uniforme não me deixa transparecer o espanto, afinal, dentro daquelas paredes de concreto armado, arame farpado e guardas treinados; eu, em essência, não existo, não tenho emoções, não as devo ter. Sou um funcionário do Estado, faço apenas meu trabalho e sigo metodicamente os protocolos, torno-me um com a máquina burocrática. Não me interessa seus motivos, sigo apenas ordens. Não serei eu o elo fraco da eterna corrente da nossa glória. Ela me olha como se olha um filho quando peca contra os pais, um olhar decepcionado daqueles que corta o coração e faz jorrar arrependimento para revelar resquícios de humanidade. Eu novamente finto os documentos, observo o carimbo verde e o carimbo vermelho. Este, da cor do inferno; aquele, do Éden. Subitamente, por meio de um ato instintivo e primitivo pego aquele carimbo e pressiono com remorso. Ela me olha, eu evito, mas de canto de vista a vejo ir, não sei para onde, mas vai. Próximo! Olá, documentos, por favor.
Abrir com Mãos dadas, do Drummond, e logo depois botar um guarda que deixa o rosto do lado de dentro e vira número na cabine. Me fez pensar que o poema fica quase irônico no começo e só volta a fazer sentido no carimbo final, seja qual for a cor, porque ali ele faz alguma coisa com a mão fora do protocolo. Gostei muito de ler, @intraletras!
As emoções são como uma corda bamba, uma ponte suspensa, sem estabilidade. Quando o chão balança, não há como parar; não existe retorno, só resta o amanhã. Caminho por esse fio, passo a passo atrás…
Tu és, para mim, a flor de calêndula - me cura, me protege do estresse que às vezes me tortura. A Mona Lisa não seria a maior musa de Leonardo da Vinci se, naquela época, você já existisse.
Quão distantes nós estamos de um sonho Temos mesmo que esperar por tantas vidas Poderia ter uma canção dessas que componho Alguma verdade em apontar uma simples medida
O frio da noite já se consolida. O sussurro do vento pode ser escutado, o ranger das janelas mal fechadas participa da sinfonia que se apresenta. Nenhuma alma viva na rua para contemplar a orquestra…
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“Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme…