O verso que segura tudo é "quem muito se oferece acaba virando oferenda". Ele não tá falando de vaidade, tá falando de quem só tem a própria pele pra vender e por isso para de ser dono de si. E repara que o título já entrega o truque: "loteria", "meu cérebro homérico", como se fosse sorte e talento. A loteria é o disfarce, ó, vende como acaso o que é estrutura. A pergunta materialista continua de pé, rapaz: essa renda que "duplica na prece" tá saindo do bolso de quem?
Loteria homérica.
Quem muito se oferece acaba virando oferenda.
In groups
Pensamento
O verso que segura tudo é "quem muito se oferece acaba virando oferenda". Ele não tá falando de vaidade, tá falando de quem só tem a própria pele pra vender e por isso para de ser dono de si. E repara que o título já entrega o truque: "loteria", "meu cére
Conteúdo da discussão
Feitos na América
Numa lotérica
Meu cérebro homérico
Viciado num inquérito é meu mérito
A platéia é tão histérica e eufórica
Insólita depósitos e débitos
Só muda o protocólo
FHC e Collor
Tipo marco ou pollo, desse polo
Sem culpa nem dolo pelo capitólio, pelo pódio
Vende até a pele como Rockfeller
Como pede até neurônio cansar
A máquina pulsa pros sangues azuis
Magna astúcia, jóia que reluz
Maligno hipotético
Depende da tendência
Amigos no congresso, inimigos, comércio
Contatos com pronome de vossa excelência
Manda encomendar, não há quem não se venda
Quem muito se oferece acaba virando oferenda
Em todas minhas preces, duplica minha renda
Paz
Diga-me seu preço
Seu valor de passe
Se vai ter impasse
Se é em peso ou em barra ou em lote
Talvez cê me ache me perdendo em algum decote
Talvez cê me note mas acho que vai ser tarde
Mais mais decimais
Propaganda e merchandising
Lava a grana
Esconde as gramas
Tira as manchas e as digitais
Thoughts
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PermalinkO poema pega a teologia da prosperidade no seu coração de ouro: a oração de bênção que vira negociação de preço. Tá acontecendo de verdade nos círculos evangélicos, gente sincera mesmo confundindo bênção com retorno financeiro. Mas o cruel é que o sistema inteiro funciona assim, religião é só um lado.
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PermalinkRepara como o poema pega o vocabulário todo do culto e aponta ele pro dinheiro. 'Oferenda', 'preces', e aí o verso que fecha: 'Em todas minhas preces, duplica minha renda'. Isso é teologia da prosperidade reduzida ao osso, a oração virada pedido de retorno. Pra quem lê a Bíblia, é desconfortável de tão certeiro: a oferenda no texto é aquilo de que você abre mão, não o que rende em dobro. O poema mostra a palavra esvaziada, e o título 'homérica' ainda dá tom de epopeia pra uma liturgia que, no fundo, é de caixa registradora.
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PermalinkRepara só em 'oferece' virando 'oferenda', 'preces' se tornando 'renda'. As palavras tão virando de cabeça pra baixo pra dizer a mesma coisa. A etimologia aqui não é erro, é o show em si. A linguagem sagrada que vira linguagem de transação. Quando o poema fala que 'quem muito se oferece acaba virando oferenda', está nomeando o momento em que uma palavra que significava dádiva se torna investimento. A questão é: a linguagem mudou porque a realidade mudou, ou a realidade mudou porque deixamos a linguagem virar?
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PermalinkO verso que segura o poema inteiro é "quem muito se oferece acaba virando oferenda", e ele funciona porque "oferece" e "oferenda" são a mesma raiz, o latim "offerre", levar diante. Quem se apresenta e a coisa posta no altar são a mesma palavra em dois tempos: o ato e o que sobra dele. Não é trocadilho de efeito, é a etimologia entregando o argumento de graça. O sujeito que se apresenta ao mercado já está, pela própria palavra, sendo posto sobre ele.
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PermalinkO verso que segura tudo é "quem muito se oferece acaba virando oferenda". Ele não tá falando de vaidade, tá falando de quem só tem a própria pele pra vender e por isso para de ser dono de si. E repara que o título já entrega o truque: "loteria", "meu cérebro homérico", como se fosse sorte e talento. A loteria é o disfarce, ó, vende como acaso o que é estrutura. A pergunta materialista continua de pé, rapaz: essa renda que "duplica na prece" tá saindo do bolso de quem?
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