Capítulo 1 — O Vizinho
Mateus
O calor estava insuportável naquela tarde. O ar parecia denso, pesado, grudando na pele como uma segunda camada incômoda. Cheguei em casa com a camisa colada nas costas, o corpo suado e a cabeça latejando de cansaço. Bati o portão da garagem com mais força do que o necessário e entrei direto no meu espaço sagrado: a garagem.
Ali estava ele — o Opala 1978 que eu restaurava obsessivamente havia anos. Não era só um carro. Era o único lugar onde eu ainda me sentia no controle. Peguei a chave inglesa, tirei a camisa suada e a joguei sobre o banco de trabalho. O metal estava quente sob minhas mãos. Abri uma cerveja gelada e tomei um longo gole, tentando deixar o dia escorrer junto com o suor.
Apoiei-me no para-lama e mergulhei no motor. Cada parafuso, cada mangueira, cada detalhe me dava uma sensação de ordem. Era isso que eu precisava: ordem. Silêncio. Rotina.
Mas o silêncio durou pouco.
Um som invadiu a calmaria. Música alta, batida alegre, alegre demais para o meu gosto. Portas de carro batendo. Risadas. Alguém cantando junto com a música, sem se importar com o volume ou com quem pudesse ouvir.
Levantei a cabeça, franzindo a testa.
Um SUV preto estava parado na casa ao lado — a que ficara vazia por meses. Um homem descia, carregando caixas. Camiseta branca simples, mas completamente colada ao corpo pelo suor do esforço. Os músculos dos braços se destacavam enquanto ele levantava uma caixa grande sem esforço aparente. Ombros largos, pele bronzeada brilhando sob o sol do fim de tarde, óculos escuros e um sorriso fácil no rosto, como se mudar de casa fosse a coisa mais divertida do mundo.
Fiquei olhando. Mais tempo do que deveria. Meus olhos percorreram os braços, o peito, a forma como a camiseta grudava na barriga definida. Um aperto estranho surgiu no meu estômago. Um calor que não era só do dia. Sacudi a cabeça com força, voltando a atenção para o motor.
Que merda é essa, Mateus? Volta pro que você estava fazendo.
Ele me viu. Tirou os óculos escuros devagar e sorriu ainda mais largo. Olhos castanhos claros, vivos, com um brilho que me incomodou imediatamente.
— Ei, vizinho! — gritou por cima da música. — Espero que você saiba usar todas essas ferramentas aí. Vou precisar de uma mãozinha pra montar umas coisas.
Não respondi logo. Apertei a chave inglesa com mais força, sentindo o metal marcar a palma da mão.
Ele se aproximou da mureta baixa que separava as propriedades, ainda carregando aquela energia irritante de quem está sempre à vontade.
— Júlio Vargas — apresentou-se, estendendo a mão. — Acabei de me mudar. E você?
— Mateus — respondi seco, apertando a mão dele por pura educação. A palma era quente, firme, um pouco calejada. Soltei rápido, como se tivesse tocado algo proibido.
— Prazer, Mateus. Você parece o tipo que conserta tudo por aqui. — O olhar dele desceu por um segundo pelo meu peito nu e suado antes de voltar ao meu rosto. — Menos o humor, pelo visto.
Ele riu da própria piada. Uma risada baixa, natural, que reverberou no ar quente. Eu não ri. Não sorri. Apenas voltei a atenção para o motor, torcendo para ele entender o recado.
— Tenho coisa pra fazer — resmunguei.
— Entendi, entendi. Homem de poucas palavras. Respeito isso. — Ele ficou mais um instante ali, observando. — Se mudar de ideia sobre ajudar o novo vizinho barulhento, é só gritar. Estou na casa do lado.
Ele pegou a caixa novamente e voltou para o carro, assobiando. A camiseta subiu um pouco quando ele se esticou, revelando um pedaço de pele na lombar. Desviei o olhar imediatamente, sentindo o rosto esquentar.
Para com isso. Agora.
Voltei para o motor com raiva desproporcional. As ferramentas batiam com mais força. O suor escorria pelo meu peito. Mas a imagem dele não saía da cabeça. O sorriso. Os braços. A forma como ele ocupava espaço sem esforço.
Quando o sol se pôs, entrei em casa. Tomei um banho frio longo, comi qualquer coisa em pé na cozinha e me joguei na cama, exausto. O silêncio finalmente voltou.
Por pouco tempo.
Pouco depois das dez, a música começou a vazar pelas paredes finas. Não era mais a batida animada da mudança. Era algo lento, sensual. Baixo grave, voz rouca cantando sobre toque, pele, desejo. Ouvi ele cantando no banho — voz grave, despreocupada, rindo sozinho entre um verso e outro.
Virei de um lado para o outro na cama. O corpo quente, inquieto. Uma sensação estranha, incômoda, começou a crescer na minha barriga. Um calor que descia. Apertei os dentes.
Eu não sou assim. Nunca fui. Casei com uma mulher. Amava minha mulher. Enterrei ela. E agora um homem qualquer se muda pro lado e eu fico... isso?
Levantei, bebi água, voltei pra cama. A música continuava. Os sons continuavam. E eu, contra a minha vontade, continuava prestando atenção.
Fechei os olhos com força, punhos cerrados.
Eu odiava aquilo. Odiava ele. E, principalmente, odiava o fato de não conseguir ignorar.