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Linguagem neutra

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Linguagem neutra: pronomes, flexões não binárias, gramática, inclusão e liberdade de expressão

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Linguagem neutra: pronomes, flexões não binárias, gramática, inclusão e liberdade de expressão

Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal

A discussão sobre linguagem neutra chegou às salas de aula, aos documentos escolares, às universidades e aos debates públicos, provocando uma questão que está longe de ser simples: até que ponto a língua portuguesa pode ser modificada para contemplar novas formas de identificação e, ao mesmo tempo, preservar as regras da gramática normativa? Expressões como todes, amigue, elu e delu passaram a fazer parte de determinados grupos sociais e acadêmicos, especialmente em contextos relacionados às pessoas não binárias. A Academia Brasileira de Letras registra esses exemplos e explica que os pronomes elu e delu são utilizados por alguns grupos em substituição a ele/ela e dele/dela.

O tema, entretanto, não deve ser tratado apenas como uma disputa entre “certo” e “errado”. A escola é também espaço de convivência, diversidade, formação cidadã e desenvolvimento do pensamento crítico. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelece, entre os princípios do ensino, a “liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber”, além do pluralismo de ideias e do respeito à liberdade e à tolerância.

Nesse sentido, discutir a linguagem neutra na escola pode ser pedagogicamente importante, desde que a discussão seja realizada com conhecimento linguístico, respeito às pessoas e ausência de imposições ideológicas de qualquer natureza. O estudante precisa compreender que existe uma diferença entre reconhecer que determinados grupos utilizam uma determinada forma linguística e afirmar que essa forma já integra a norma-padrão oficialmente reconhecida da língua portuguesa.

Pronomes e flexões não binárias

A principal transformação proposta pela linguagem neutra ocorre justamente nos pronomes e nas flexões de gênero. Na língua portuguesa tradicional, os pronomes pessoais ele e ela são formas reconhecidas pela gramática normativa. A linguagem neutra, por sua vez, procura criar alternativas para pessoas que não se identificam exclusivamente com os gêneros masculino ou feminino.

Assim, aparecem construções como:

* ele/ela → elu;

* dele/dela → delu;

* todos/todas → todes;

* alunos/alunas → alunes;

* professor/professora → professore;

* amigo/amiga → amigue.

Essas formas possuem uma finalidade social para seus usuários: tornar linguisticamente visível uma identidade que não se reconhece nas categorias tradicionais de gênero. Isso explica por que o assunto não pode ser reduzido a uma simples “invenção de palavras”. Há, por trás da discussão linguística, uma dimensão social, cultural e identitária.

Todavia, reconhecer essa dimensão não significa afirmar que tais formas tenham sido incorporadas à norma-padrão. O próprio Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), mantido pela Academia Brasileira de Letras, constitui uma referência oficial para o registro vocabular do português brasileiro e passa por atualizações permanentes.

A questão central, portanto, é distinguir uso social da língua de norma linguística institucionalizada.

Gramática normativa: regra ou instrumento de comunicação?

A gramática normativa exerce papel importante no processo educacional porque oferece aos estudantes um conjunto de convenções necessárias para determinadas situações formais de comunicação. Isso não significa, entretanto, que toda manifestação linguística fora da norma-padrão seja desprovida de significado ou de valor social.

O gramático Evanildo Bechara chama atenção justamente para essa dimensão plural da língua ao afirmar que:

“A aula de gramática deve estender-se a uma aula de língua, de seus riquíssimos instrumentos.”

Para Bechara, ensinar língua portuguesa não deveria significar apenas decorar regras, mas compreender os diferentes recursos expressivos existentes no idioma.

Essa perspectiva é extremamente importante para o debate sobre linguagem neutra. A escola pode ensinar a norma-padrão e, simultaneamente, apresentar aos estudantes fenômenos linguísticos contemporâneos, explicando sua origem, seus objetivos e suas controvérsias.

Conhecer todes, elu e outras formas não significa necessariamente adotá-las como norma. Significa compreender que a língua também é objeto de transformação, disputa, identidade e manifestação cultural.

A linguagem neutra deve ser obrigatória?

Aqui surge uma das questões mais delicadas. Uma coisa é permitir que determinado estudante utilize, em seu círculo social ou em determinados contextos, a forma linguística com a qual se identifica. Outra coisa é exigir que professores, colegas ou instituições sejam obrigados a utilizar determinada estrutura linguística.

A própria Academia Brasileira de Letras tem defendido que documentos oficiais devem seguir as normas linguísticas vigentes. Em manifestação relacionada ao tema, a instituição registrou que o Conselho Nacional de Educação considerou a linguagem neutra um fenômeno ainda incipiente e que sua adoção oficial alteraria a estrutura do português utilizado no Brasil.

Isso coloca a escola diante de uma responsabilidade delicada: ensinar a norma culta sem transformar a sala de aula em espaço de humilhação linguística e respeitar a diversidade sem transformar uma variedade de uso em obrigação universal.

O professor não deveria ridicularizar um aluno por utilizar determinada forma de tratamento. Da mesma maneira, o estudante não deveria ser ensinado a acreditar que a norma-padrão deixou de existir ou que todas as suas regras perderam validade.

Inclusão e respeito

A discussão também precisa considerar que inclusão não se resume à escolha de determinadas palavras. Uma escola verdadeiramente inclusiva é aquela que combate o bullying, promove respeito, assegura igualdade de oportunidades e impede que qualquer estudante seja discriminado.

O respeito pode começar por uma atitude simples: ouvir o outro.

Mesmo quando professor e aluno discordam sobre a utilização de determinada forma linguística, a divergência não precisa produzir hostilidade. A educação pressupõe justamente a capacidade de conviver com opiniões diferentes.

Nesse ponto, a legislação educacional brasileira estabelece como princípio o “pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas”, além do “respeito à liberdade e apreço à tolerância”.

Portanto, uma escola democrática deve ser capaz de ensinar: “esta é a norma-padrão”, mas também de explicar: “existem outras formas de uso linguístico e existem pessoas que defendem essas formas por razões sociais e identitárias”.

Liberdade de expressão e liberdade pedagógica

A liberdade de expressão também precisa entrar nesse debate. Defender a utilização da linguagem neutra é uma posição legítima dentro de determinados contextos sociais; questionar sua adoção oficial também é uma posição legítima, desde que apresentada de maneira respeitosa e fundamentada.

O problema começa quando qualquer um dos lados pretende eliminar o direito do outro de argumentar.

A escola não deve ser um campo de batalha linguística. Ela deve ser um laboratório de conhecimento.É justamente ali que o estudante deve aprender a diferenciar opinião de fato, argumento de preconceito, norma linguística de uso social e liberdade de expressão de ofensa.

O professor, por sua vez, precisa ter liberdade pedagógica para explicar a estrutura da língua portuguesa, inclusive seus pronomes, suas flexões e suas regras de concordância. Ao mesmo tempo, precisa desenvolver sensibilidade para compreender que determinadas escolhas linguísticas possuem significado social para aqueles que as utilizam.

Norma-padrão e transformação da língua

É importante lembrar que nenhuma língua é completamente imóvel. Palavras desaparecem, outras surgem, significados mudam e novas expressões são incorporadas ao vocabulário cotidiano. O próprio VOLP é continuamente atualizado, com base no uso extensivo de corpora e na análise especializada.

Isso, entretanto, não significa que toda inovação linguística se transforme automaticamente em norma-padrão. Existe um processo histórico, social e institucional para que determinadas formas sejam amplamente reconhecidas.

A linguagem neutra encontra-se justamente no centro dessa disputa: seus defensores a compreendem como mecanismo de inclusão; seus críticos apontam dificuldades estruturais, pedagógicas e comunicacionais decorrentes da alteração das flexões tradicionais da língua.

A Academia Brasileira de Letras, por exemplo, afirma que não vê razão para a adoção oficial da linguagem neutra neste momento e ressalta a importância de preservar as normas oficiais vigentes nos documentos formais.

A escola precisa ensinar o debate, não apenas tomar partido

Talvez a melhor resposta educacional não esteja na imposição de um “sim” ou de um “não” absoluto. Está na capacidade de ensinar o fenômeno.

O aluno precisa saber o que é linguagem neutra, por que ela surgiu, quem a utiliza, quais são os argumentos de seus defensores, quais são as críticas apresentadas por linguistas e instituições normativas e qual é a situação da norma-padrão.

Ensinar é diferente de impor.

Uma aula de língua portuguesa pode apresentar uma frase tradicional, como:

“Todos os alunos deverão entregar suas atividades.”

E mostrar que determinados grupos preferem:

“Todes estudantes deverão entregar suas atividades.”

O professor pode, então, explicar as diferenças morfológicas, sintáticas e sociais entre as construções, esclarecendo que a segunda forma possui circulação em determinados grupos, mas não corresponde à norma-padrão oficialmente consolidada do português brasileiro.

Essa abordagem permite que o estudante conheça o fenômeno sem que a escola abandone sua responsabilidade de ensinar a língua formal.

Conclusão

A discussão sobre linguagem neutra revela algo maior do que uma simples disputa entre todos e todes, ou entre ele/ela e elu. Ela coloca frente a frente questões fundamentais da sociedade contemporânea: língua, identidade, inclusão, tradição, mudança cultural, liberdade de expressão e papel da escola.

De um lado, é necessário reconhecer que pessoas e grupos sociais podem desenvolver novas formas de expressão para representar suas experiências e identidades. De outro, instituições de ensino precisam ensinar a norma-padrão da língua portuguesa, especialmente porque ela continua sendo fundamental para a comunicação acadêmica, profissional e institucional.

Como observa a Academia Brasileira de Letras, o conhecimento da língua portuguesa é essencial para a comunicação e para a interpretação de textos.

O caminho mais equilibrado parece ser aquele que não transforma a gramática em instrumento de exclusão, mas também não transforma a inclusão em instrumento de imposição linguística.

A escola deve ensinar a norma, explicar as mudanças, apresentar os conflitos e estimular o pensamento crítico. O estudante precisa sair da sala de aula não apenas sabendo conjugar verbos ou identificar pronomes, mas compreendendo que a língua é, simultaneamente, estrutura gramatical, instrumento de comunicação, patrimônio cultural e fenômeno social em permanente transformação.

Em última análise, a pergunta mais importante talvez não seja simplesmente “linguagem neutra: certa ou errada?”, mas:

Como ensinar língua portuguesa com rigor, acolhimento, respeito à diversidade e liberdade para pensar diferente?

É nessa pergunta que a educação encontra seu verdadeiro desafio: formar pessoas capazes de conhecer as regras, compreender as mudanças e respeitar aqueles que pensam e se expressam de maneira diferente.

Referências bibliográficas

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa – VOLP. 6. ed. Rio de Janeiro: ABL, edição digital 2025-2026.

BECHARA, Evanildo. Para além da norma gramatical. Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro: ABL.

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Senado Federal.

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Todos, Todas, Todes. Rio de Janeiro: ABL.

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Os laços da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: ABL.

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Você é a sua língua. Rio de janeiro ABL.