Ri muito com a parte onde Ron tá tentando fazer funcionar o aparelho.
Jun e Ron — a breve aventura dois maltrapilhas
A breve aventura de dois mendigos que encontram algo inusitado
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Pensamento
Ri muito com a parte onde Ron tá tentando fazer funcionar o aparelho.
Conteúdo da publicação
Era uma madrugada fria. As nuvens se dispersavam, e o céu se acalmava após uma pancada de chuva. O grande calçadão, que, de dia, era utilizado pelas mais diferentes espécies de pessoas, que zanzavam de um lado para o outro, seja entrando e saindo de butiques de araque e outros estabelecimentos da mesma procedência, seja simplesmente seguindo rumo ao infinito, encontrava-se, naquele momento, em um silêncio fúnebre, com todos os comércios fechados e nenhuma alma sensata vagueando por ali. Jun não era uma delas.
O homem —relativamente jovem — andava desajeitadamente, sem rumo. Possivelmente devido a uma embriaguez tardia, ele não sabia por quanto tempo vagueava, mas tinha certeza de que não iria parar tão cedo. Afinal, o que ele poderia fazer? Tudo o que conseguia visualizar à sua frente era um profundo breu sem fim, tão penetrante que extirpava qualquer chance de ver algo além do seu absoluto nada. Nada poderia ser feito além de seguir em frente. Contudo, algo concreto o impedia de continuar: suas pernas, que mais se assemelhavam às de um frango do que às de um homem, já mostravam grandes sinais de fadiga.
Não tendo muita escolha a não ser ouvir o recado do seu pobre corpo, Jun parou por um instante e, pela primeira vez depois de sabe-se lá quanto tempo, deixou de contemplar a escuridão à sua frente e voltou o olhar para a vidraça de uma lojeca ao seu lado. Além de um manequim todo estropiado, Jun conseguia ver um mendigo através da vidraça. Ele usava uma toca que escondia um cabelo todo bagunçado, que só não ficava atrás de sua tenebrosa barba malfeita, cujas falhas se assemelhavam a um queijo suíço. Quanto aos olhos, embora fossem verdes como esmeraldas, as profundas olheiras acabavam extinguindo seu destaque. Já o resto do seu corpo não ficava muito atrás em desprimorosidade do rosto: um corpo magricela vestindo uma camiseta e um casaco rasgados; luvas em um estado tão profundo de misericórdia que já estavam sem os dedos; uma calça jeans azul tão encardida que já flertava com o preto; botinas tão velhas que pareciam ter sido produzidas no século passado; e uma garrafa meio vazia de whisky vencido, que servia como um complemento deprimente ao seu execrável visual.
Merda! Como as coisas chegaram a esse estado? Pensou o mendigo. Eu tinha tudo para ser a merda de um bilionário famoso hoje, tudo! Mas, por causa da porra de um errinho... um errinho pequenininho... agora... agora... agora... Graaagh!
O pobre homem, irado, direcionou seu punho à execrável figura, mas nem sequer para isso tinha coragem ou disposição. Então, antes de desferir um soco na vidraça, recuou e proferiu um longo suspiro.
Então, após seu breve minuto de autodepreciação, Jun percebeu que a vidraça mostrava algo além do velho manequim e da figura que ele tanto desprezava. Um pouco atrás dele, ficava em evidência um homem, provavelmente mais velho que ele, de bruços no chão. Ele era parecido com Jun. Tal como ele, o homem usava trapos; seu rosto, porém, destoava do dele, apresentando uma longa barba sarnenta e um comprido cabelo de espantalho. Apesar de tudo, o que desconcertava Jun não era nada disso, mas o fato de o homem estar balançando os braços e as pernas energicamente, como se estivesse fazendo o nado crawl. Os movimentos realizados pelo estranho, apesar de rápidos, eram extremamente precisos e sincronizados, demonstrando até certa elegância. É claro, se não fossem feitos por um sujeito sebento, sozinho na extremidade de uma calçada.
Essa visão surreal fez com que a mente de Jun deixasse a frustração de lado por um instante e começasse a tentar encontrar alguma explicação razoável para o que estava vendo. A princípio, ele pensou ser uma brincadeira de mau gosto de sua cabeça, então esfregou os olhos com força na tentativa de fazer o encardido nadador desaparecer. Contudo, ao menos a tentativa de colocar sua mente nos trilhos não se mostrou eficaz, e o homem continuava a nadar entusiasmadamente, como se estivesse em uma piscina.
Após a tentativa frustrada, Jun se virou e, pela primeira vez, viu o entusiasta da natação fora do mundo dos espelhos, o qual não esboçou reação alguma ao ser fitado pelo nosso mendigo. Tal resposta, ou a falta dela, fez com que a primeira e única teoria de Jun ganhasse mais força, levando-o a colocá-la à prova. Ele pegou uma pedrinha que estava ao lado de sua botina e a arremessou contra o homem sem poupar força. Seguindo sua trajetória, a pedra atingiu as costas do sujismundo, fazendo-o dar um curto gemido de dor e interromper seus graciosos movimentos.
Após isso, a princípio, ele ficou de bruços, sem esboçar outra reação, como se uma falha em sua apresentação artística tivesse resultado com ele boiando pateticamente em seu palco aquático. Entretanto, após alguns segundos, o homem, ainda de bruços, lançou um olhar de desgosto ao seu agressor e, logo em seguida, pôs-se de pé em posição de combate.
Com o cenho franzido e a boca semiaberta, antes que Jun pudesse pensar em qualquer coisa para dizer, o nadador, que agora estava mais para um lutador de kung fu, disse:
— Quem é você, que deselegantemente atrapalha meu treinamento? Seria um... aliado do próprio demo?
Sem conseguir encontrar lógica em nenhuma palavra proclamada pelo sujeito e ainda não tendo total certeza de que ele não existia apenas em sua cabeça, Jun perguntou:
— Você... você é real?
Abaixando um pouco a guarda, o excêntrico maltrapilho prontamente respondeu:
— Ora, é claro que eu sou real. Afinal, tenho todos os atributos que constituem um ser vivo... Se bem que, pensando por esse ângulo, os seres vivos são bem diferentes, não é? Um cacto é bem diferente de uma formiga, que é bem diferente de um cão, que, por sua vez, é bem diferente de um ser humano. De qualquer forma, mesmo que sejam absolutamente diferentes, eles compartilham semelhanças primordiais que os definem como vida, como, por exemplo, respirar... Mas espera... esponjas-do-mar não respiram... ou respiram? Então será que não existem critérios análogos? Então qualquer coisa pode ser um ser vivo... Deus do céu... será que eu sou um ser vivo?!
Após a resposta, que mais se assemelhava a um monólogo, ele começou a olhar para as próprias mãos com uma expressão de choque. Definitivamente, isso não ajudava Jun de maneira alguma, que ficou mais confuso do que esclarecido com o que fora dito e permanecia com a mesma cara de tacho de antes.
Sem saber lidar com tudo aquilo, enquanto a idiossincrasia ambulante à sua frente aparentemente travava de conflitos internos, o mendigo são não ousava dizer mais nenhuma palavra, receoso de perder ainda mais sua conexão com a realidade.
Alguns segundos se passaram sem que nada fosse dito. Todavia, o estranho indigente se recompôs, pôs-se novamente em posição de combate e indagou:
— Você ainda não sanou minha dúvida! Quem é você? Por que me agrediu tão de repente?
Ainda receoso, Jun enfim respondeu:
— Eeeeeh... me chamam de Jun... mas, afinal, quem é você?
— Eu? — respondeu ele. — Tenho muitas alcunhas, mas geralmente me chamam de Grande Ron, o mais audaz dos andarilhos! Mas isso não vem ao caso. Jin... não é? Por que você me desferiu aquele golpe?
— Jin...? — indagou Jun. — É Jun. E, sobre aquilo, foi mal! Eu pensei que estava alucinando. Aliás, que caralhos você estava fazendo?
Ron, mais uma vez, ficou com uma expressão desgostosa e rapidamente desferiu um tapa no rosto do novo conhecido, que ficou em choque após o ato.
— Olha a boca, rapaz! — exclamou ele.
O silêncio novamente se instaurou. Jun não conseguia formular nenhuma palavra. Aquilo foi tão repentino que ele não sabia nem exatamente o que sentir.
Jun olhava para Ron, Ron olhava para Jun, e não diziam uma única palavra um para o outro. Apenas se encaravam em meio ao silêncio avassalador. Até que, tão repentinamente quanto o primeiro, Ron desferiu mais um tapa em Jun, que, enfim, se deixou levar pela raiva:
— Mas que po... — refletindo sobre os acontecimentos anteriores, ele se conteve. — Que porcaria! Eu nem falei nada na segunda vez! Qual é a sua?
Seu agressor olhou para o céu, com a mão no queixo em uma posição reflexiva, e então disse:
— Noite bonita hoje, não?
Insatisfeito com a resposta, Jun retrucou:
— Não desconversa, não! Me responde!
— Responder o quê? — perguntou o exótico.
— Deus! Eu só quero saber por que você... por que você tá fazendo isso. Isso é uma brincadeira? — contestou o mendigo, já furioso.
Com uma expressão de confusão, Ron falou:
— Não sei por que acha que estou brincando. Isso não é do meu feitio. Muito pelo contrário, me considero um homem muito sério e tenho desprezo por aqueles que, mesmo maduros, vivem com pivetes, agindo com leviedade e gozação. Contrariamente a esses pivetes barbados, tudo o que eu faço tem um motivo e um significado. Talvez você simplesmente não os tenha compreendido ainda. E isso não é motivo para vergonha! É algo perfeitamente comum à natureza humana não se empenhar para entender a alma do indivíduo. As pessoas se apegam à conjuntura atual, também conhecida como senso comum, e tratam isso como se fosse uma verdade universal...
Ele fez uma pequena pausa em seu discurso e voltou os olhos para a garrafa que estava na mão de Jun. Então prosseguiu:
— Isso aí que você está segurando... é álcool?
— Sim... E daí...? — respondeu ele, temendo uma reação negativa por parte de Ron, tal qual a que tivera anteriormente.
Porém, tal resposta afirmativa fez com que o filósofo encardido abruptamente pegasse a garrafa da mão de Jun e virasse todo o líquido que ainda restava nela garganta abaixo. Em seguida, soltou um som de alívio.
Isso foi a gota d'água para Jun. Poderiam humilhá-lo e esbofeteá-lo, mas mexer com sua bebida era um limite que não deveria ser cruzado. Então, furioso, ele pegou a garrafa vazia da mão do homem e berrou:
— Ei, o que você pensa que tá fazendo? Tá querendo confusão, seu merda?!
Ron suspirou e então respondeu:
— Peço perdão pela minha indelicadeza. Eu realmente precisava disso. Como pedido de desculpas, vou ignorar seu palavreado rude por agora.
Reflexivo, ele voltou seu olhar para o chão e, logo depois, continuou:
— Esse ambiente está com uma aura de muito estresse, sabia? Desde que você chegou aqui, você tem sido muito ríspido e rígido. Isso contaminou tudo à sua volta, inclusive a mim. Mas não tema! Eu tenho a solução perfeita para isso! A poderosa erva cultivada pelos mais sábios agricultores, que, quase como mágica, é capaz de dissipar essa aura em um piscar de olhos.
O coração de Jun deu uma leve palpitada ao ouvir a última explanação de Ron, que transformou parte da raiva em uma fagulha de esperança.
— Você... você tem? — perguntou ele, com uma expressão semelhante à de um cachorro pidão.
— É claro que sim! — respondeu Ron. — Venha! Vou te levar até onde ela está. Isso também servirá como pedido de desculpas por tomar sua bebida. Avante, Jão!
O peculiar maltrapilho, então, começou a andar sem nem ao menos esperar alguma resposta de Jun, que, por sua vez, ignorou o fato de Ron ter errado seu nome novamente e, sem pensar muito, seguiu o homem. Obviamente, ele já estava ciente da insanidade de quem seguia, mas não se importava muito. Ainda que aquilo fosse uma armadilha que o levasse ao fim de sua miserável vida, ele não ligava. Talvez fosse até melhor assim, pensou. Se existisse uma possibilidade, mesmo que ínfima, de o louco estar falando a verdade, era um risco que ele estava disposto a correr para conseguir uma microdose de escapismo.
....
O recém-formado grupo de mendigos já caminhava havia um tempo, tanto que já havia saído da região central. Infelizmente, para Jun, a viagem até aquele momento não havia sido sossegada devido ao seu companheiro de viagem, que não calava a boca por um segundo sequer. As groselhas que Ron falava eram tantas, tanto em quantidade quanto em conteúdo, que seu interlocutor nada entendia e simplesmente concordava com tudo o que ele dizia.
Até que, em meio à transição entre vários tópicos, Ron fez uma pergunta concreta:
— E quanto a você? Creio que, ao contrário de mim, que sigo o caminho de andarilho por livre e espontânea vontade, você deva ter outros motivos para estar trilhando esse caminho. Estou certo?
Depois de ouvir tamanha tagarelice a viagem inteira, tal pergunta fez com que Jun despertasse, quase como se acordasse abruptamente de um transe. Então, respondeu:
— Ah... sim, sim. Eu não tô aqui porque quero... Pera aí, você é um fudi... digo, você tá na rua por vontade própria? Por quê?
— Bem — falou Ron —, eu acredito na ideia de que todos têm um papel neste mundo. E, quando as pessoas cumprem o seu papel com excelência, além de ser algo muito belo, elas também tornam a si mesmas e o mundo melhores. Portanto, acho que grande parte do sentido da grande incógnita que chamamos de vida é simplesmente fazer o que você nasceu para fazer. Contudo, isso está muito longe de ser uma tarefa simples. O longo percurso que trilhamos durante a vida, o famigerado destino, tem infinitas rotas diferentes que podem ser ser seguidas, das quais apenas uma é o caminho certo. Assim como muitos outros, eu ainda estou encontrando meu caminho correto. Por isso sou um andarilho. E você, meu amigo? Já encontrou seu caminho?
Pela primeira vez, algo que Ron falou realmente atingiu Jun. Ele não só entendia o que havia sido dito, como aquilo também o fez refletir sobre todas as escolhas que havia feito até aquele momento. Então, quase como um desabafo, começou a falar:
— Olha, há um tempo eu era um físico. Um baita físico, com doutorado e tudo. Eu era um dos criadores de um grande projeto, no qual uma máquina conseguiria transformar energia biológica em energia elétrica. Mano do céu, essa coisa iria revolucionar a produção de energia como a conhecemos! E quer saber de uma coisa? Tava tudo indo muito bem, e estávamos tendo avanços significativos. Mas... mas... aquela vida não era muito emocionante, saca? Era uma rotina repetitiva e meio chata. E isso me deixava com um certo vazio de vez em quando. Aí veio a cagada. Eu comecei a procurar... subterfúgios para aliviar esse vazio ocasional. Primeiro foi só para me distrair um pouco, algo leve. Mas aí a quantidade foi aumentando. Comecei a usar coisas mais fortes e em doses maiores. Quando vi, eu não tava fazendo mais nada, só usando essas... essas drogas. Depois disso, não demorou muito para meus colegas me chutarem do projeto... do meu projeto. E agora eu estou aqui.
Ron ouviu atentamente o relato de Jun, pensou um pouco e então disse:
— Nossa, você não é muito inteligente, hein?
Antes que Jun pudesse articular qualquer xingamento, Ron deu uma gargalhada e prosseguiu:
— Creio que isso seja natural. Ninguém disse que todos esses caminhos não têm obstáculos. No seu caso, você tropeçou na rua e rolou diretamente para uma vala. Porém, o importante é continuar em frente. Essa última declaração aliviou um pouco a raiva que Jun sentira anteriormente, e ele simplesmente ficou quieto, ainda pensativo sobre sua vida. Tais pensamentos, porém, não duraram muito, pois, logo em seguida, Ron exclamou:
— É ali! Chegamos ao nosso destino!
Jun olhou para onde Ron apontava e viu a entrada de um parque, na qual prontamente entrou juntamente com seu estranho guia.
Não era um parque muito grande, porém, ainda assim, apresentava bastante conteúdo. Havia diversas áreas verdes, especialmente em regiões específicas, onde elas se destacavam em maior quantidade. Havia também um parquinho infantil acabado, postes de iluminação, cuja maioria se apresentava quebrada ou falhando, e, no centro, um rio que rodeava todo o resto do parque.
Quando a dupla adentrou o local, seguiu para uma das regiões onde havia uma grande quantidade de arbustos e mato alto. Ron observou aquela área por um momento, para se certificar de que estava no lugar correto. Então, como um nadador olímpico, mergulhou nos arbustos e começou a procurar. Enquanto isso, Jun observava a busca logo atrás, a princípio sem a intenção de se jogar no mato úmido e cheio de barro para auxiliá-lo. Tal fato incomodou profundamente Ron, que tirou a cabeça do meio da vegetação, olhou para Jun com um olhar de insatisfação e falou:
— Você acha de bom tom deixar alguém mais velho nessa busca sozinho? Não se acanhe, venha me ajudar!
Mesmo desgostoso, ele não viu muita escolha além de se juntar à busca. Afinal, iria partilhar da milagrosa substância de Ron sem pagar nada. Então, os dois mendigos reviraram o mato em busca do alívio para seus pesares.
Já haviam se passado alguns minutos, e nenhum dos dois havia tido progresso na busca. Enfadado, Jun indagou:
— Ei, tem certeza de que tá aqui?
— Sim — respondeu Ron. — Eu sei que está por aqui. Eu não cometeria um erro desses! Continue procurando!
Ainda que duvidasse da certeza do amigo, ele prosseguiu com a busca.
A princípio, a persistência não foi frutífera, o que gerou uma enorme frustração em Jun. Porém, quando estava prestes a desistir, ele de fato acabou encontrando algo. No entanto, definitivamente não se tratava do que buscava. Longe disso. Era algo tão fora da realidade que nenhum homem vivo esperaria ver durante sua vida.
Tratava-se, inicialmente, de uma pequena luz emanando debaixo da terra que, devido à grama alta, estava um pouco oculta. Não obstante, o que verdadeiramente se destacava era sua cor, que, embora flertasse com uma espécie de púrpura, não se assemelhava a nenhuma outra conhecida pela humanidade.
Absorto naquela estranha luz, embora o medo do desconhecido ainda existisse, em dado momento a faceta científica do mal-acabado tomou conta e, então, movido pela curiosidade, ele começou a se aproximar dela.
Quando estava próximo o suficiente para que o brilho refletisse em seu rosto, tudo o que conseguiu fazer foi observá-la fixamente, parecendo até estar hipnotizado. Em certo momento, enquanto fitava a luz, aproximou as mãos em sua direção, o que aumentou a intensidade da luminosidade, fazendo com que suas mãos recuassem instintivamente.
— Que porra é essa?! — exclamou ele, rompendo o estado de hipnose.
Ron, com uma audição tão aguçada quanto a de um cão, rapidamente levantou-se do monte de mato que estava fuçando e disse:
— Eu já não deixei claro o quanto acho deselegante esse tipo de linguajar, esse tipo de coisa...
Antes que pudesse finalizar a frase, viu a bizarra luz refletida no rosto do amigo e, assim como ele, ficou em choque. Tal como Jun, logo passou a se aproximar dela.
Lado a lado, os maltrapilhos encaravam o brilho alienígena com um misto de fascínio e horror. Logo, Ron também descobriu que, ao aproximar as mãos do que quer que fosse aquilo, a luz irradiava mais intensamente. Contudo, com muito menos filtros do que o seu amigo, Ron começou a escavar a terra em busca da fonte da iluminação.
Tal cruzada não demorou muito. Logo após retirar alguns punhados de terra, tornou-se visível o objeto que irradiava o estranho brilho. Ele tinha certa grossura, apresentando, à primeira vista, um formato de bastão, mas que, olhando mais atentamente, revelava uma leve envergadura em formato de U. Na extremidade superior do objeto, havia uma linha que a separava do restante, como se aquela parte fosse a cabeça de um homem e as partes inferiores fossem suas vestimentas. Essa parte superior também apresentava um formato mais arredondado que o restante do objeto, assemelhando-se a um cogumelo.
Nesse momento, ambos os mendigos olhavam fixamente para o objeto, porém com expressões bem diferentes. Enquanto Ron o observava com extremo fascínio, Jun, embora surpreso, franzia o cenho e aparentava grande confusão.
— É tão belo! — disse Ron.
Completamente absorto, Ron aproximou as mãos daquela coisa com o intuito de pegá-la. Jun, percebendo isso tarde demais, não conseguiu contê-lo a tempo, e ele encostou no objeto, que, naquele ponto, brilhava tão intensamente que quase cegava a dupla.
Todavia, quando Ron firmou a mão em definitivo naquilo, aquela luz se converteu em uma espécie de explosão que os impulsionou para trás, fazendo-os dar uma cambalhota no ar. Ron, no entanto, não foi de encontro ao chão, mas continuou girando no ar. Toda vez que um giro se completava, mais veloz se tornava o próximo, fazendo com que, em determinado momento, toda a visão de Ron fosse distorcida por um amontoado de cores aleatórias, que piscavam freneticamente e se contorciam em um grande frenesi, simultaneamente às infinitas cambalhotas.
Até que, de repente, ele parou. As cores também pararam e passaram a se apresentar com certa constância. Ron olhou para a mão e viu nela o objeto que há pouco tinha tocado. Ele brilhava como nunca e se destacava das demais cores à sua volta. Contudo, já não o cegava mais.
Após isso, olhou para a frente e viu todas aquelas cores se fundirem em uma forma meio humanoide, a qual não poderia sequer ser categorizada. Entretanto, quanto mais a fusão se sucedia, mais visíveis ficavam as bizarras proporções e formas que compunham aquele ser. Ele tinha uma grande esfera oval no lugar do que aparentava ser a cabeça, onde vários olhos se dispunham de forma aleatória. Esse ser também possuía diversos braços ligados a um torso completamente desproporcional às demais partes do corpo.
A criatura, com toda a sua imponência, apontou para Ron, que caía em lágrimas diante de tal visão.
E então, tudo ficou escuro por um momento. Logo em seguida, Ron se viu jogado no meio dos arbustos ao lado de Jun, que havia começado a se levantar.
— Por que você está chorando? Você tá bem? — perguntou Jun, ao ver Ron caído no chão.
O mesmo, em silêncio e ainda em lágrimas, ergueu-se e, com o objeto misterioso em mãos, colocou-o acima da cabeça e berrou:
— Eu sou o escolhido!
Concomitantemente, a luz oriunda do objeto começou a brilhar novamente, até que uma esfera de energia saiu de sua parte superior e, tal qual um tiro de pistola, foi disparada para o céu. O impulso fez Ron cair novamente no chão, e Jun pular que nem um gato assustado.
Mais uma vez, o silêncio dominou o ambiente.
...
Segurando Ron pelo colarinho e o chacoalhando, Jun gritava:
— Seu desgraçado! O que você me deu quando eu não estava olhando?!
— Pare de falar tolices! — ele retrucou, meio irritado.
— Tolice? Tolice é essa merda na sua mão! Tolice é toda essa bizarrice! Isso não faz sentido! Você não faz sentido! Isso tudo...
Quando estava prestes a finalizar o que iria dizer, a gravidade fez seu trabalho, levando o projétil antes disparado a colidir com um banco a alguns metros de distância dos farrapos, gerando, assim, uma pequena explosão no local. Tal fato fez ambos recuarem instintivamente e, posteriormente, observarem, boquiabertos, as chamas consumirem o que um dia foi um banco.
— Ainda acredita que está alucinando? — falou Ron, com certo sarcasmo.
Por sua vez, cheio de suor, Jun colocou as mãos na cabeça e disse:
— Mas... mas isso não é possível! Isso é loucura! Não tem como um trequinho desse emitir tanta energia assim, ainda mais com esse formato bizarro!
Rindo de forma arrogante, Ron explanou:
— E essa cor inominável? Faz algum sentido para você? Existem coisas nesta vida que não têm explicação, mas isso não significa que elas não existam. Algumas coisas simplesmente são o que são.
— Tá... — Jun disse, após suspirar. — Mas como funciona exatamente?
— É óbvio! — Ron prontamente respondeu. — Ela funciona com minha energia vital! Afinal, eu sou o escolhido! Não sabendo se deveria se estressar mais com a loucura do companheiro ou com o ilógico aparelho, Jun esfregou os olhos com força, ainda esperando acordar de um sonho.
— Ei, seus filhos da puta! — uma misteriosa voz rouca exclamou, fazendo com que Jun redirecionasse os olhos para sua direção.
Seis figuras eram visíveis: cinco eram homens esfarrapados, e uma era um pitmonster, que estava preso por uma coleira, segurada por um deles. O dono da voz vinha do homem que estava no meio deles, que se destacava principalmente por uma grande cicatriz no olho esquerdo e um rabo de cavalo.
— Que algazarra é essa aí? Esse parque é nosso!
Jun gelou. Esses homens claramente não eram amigáveis e não pareciam estar de bom humor. Porém, Ron aparentava maior preocupação do que seu amigo, estando completamente pálido.
— Pera aí... — o mal-encarado falou com uma expressão de confusão quando dirigiu seu olhar para Ron. — Você aqui de novo? Seu cuzão! A gente já não deixou bem claro pra ficar longe daqui? Seu gatuno maldito!
Perplexo, Jun virou-se para Ron, que disfarçava seu nervosismo assobiando e conferindo as horas em um relógio que nem existia.
— Ron! — ele contestou. — A maconha não era sua?
— Veja bem... — Ron retorquiu. — Ela não é tecnicamente minha, de fato. Mas também não é deles! Eles, sim, roubaram! Eu só estava... estava destinando o que foi roubado para um uso mais apropriado...
Jun bateu a mão na testa e disse:
— Puta merda.
— Ei... olha a boca! — Ron retrucou.
— Cala a boca! — Jun berrou, enquanto apontava o dedo para o mal-acabado. — Você não tem direito de exigir nada nessa situação! Entendeu?
Meio envergonhado, Ron se aquietou. O homem à frente deles, contrariamente, pôs-se a gargalhar junto com seus companheiros e logo depois falou:
— Puta merda, vocês são a maior comédia, né não, Popó?
O farrapo que estava segurando o cão respondeu ao da cicatriz:
— Po-po-po-pode crer.
As risadas dos homens se intensificaram.
— Aí, aí... — começou a dizer o homem depois de conter um pouco as risadas. — Sabe, eu até queria aliviar a barra pra vocês. Queria mesmo! Mas sabe como é, né? Se eu deixar barato, minha imagem não vai ficar muito legal com esses ratos aqui.
— Espera... espera aí! — Com o coração a mil, exclamou Jun. — A gente não pode negociar?
Uma gargalhada pôde ser ouvida, só que não provinda do homem da cicatriz, mas de Ron.
— Vocês não deram sorte, vilões! Por um átimo eu havia esquecido, mas os divinos me concederam poder. Tal poder que, sem objeção nenhuma, foi-me presenteado para libertar o mundo de criaturas vis como vocês!
No ínterim em que falava, ele apontou drasticamente o misterioso aparelho para o grupo de homens, que franziram a testa ao olhar o que Ron segurava. Nada impressionado, o da cicatriz gracejou:
— Tá bom, me puna! Grande guerreiro.
Seus colegas se puseram a gargalhar. Ron, por sua vez, bravo com a zombaria, balançou o aparelho em suas mãos e apontou para os inimigos. Nada aconteceu. Ele tentou de novo. Nenhum resultado. Mais uma vez. Infrutífero.
Com o andar da situação, Jun já estava tão apavorado que suas pernas tremiam enlouquecidamente. Ao mesmo tempo, ele gesticulava para Ron balançar mais a geringonça em sua mão, acreditando que talvez seu funcionamento estivesse ligado à energia cinética.
— Olha, isso tá bem divertido — afirmou o homem da cicatriz. — Mas eu não tenho a noite toda. Chouriço, arrebenta eles. Pode começar com o magrelo.
O mendigo com a alcunha de Chouriço, que era marcado por ser grande e gordo, aproximou-se de Jun, que mal teve tempo de reagir, e acertou-lhe um soco no estômago, fazendo-o cair imediatamente.
Antes que o gordo pudesse desferir outro golpe em Jun, Ron, preocupado com o amigo, partiu pra cima dele. Quase tropeçando no chão, conseguiu acertar um golpe desajeitado no rosto do homem com o artefato. Inesperadamente, o ataque foi de uma eficiência esmagadora, fazendo com que o balofo começasse a girar no ar como um pião. Depois de muitas voltas no ar, o infeliz enfim colidiu com o chão, onde rolou até quase chegar ao rio, que estava consideravelmente longe deles.
Todos os sem-teto presentes ficaram abalados, sem conseguir entender de onde o velho Ron tinha tirado força para aquilo. Para o homem da cicatriz, a confusão logo se transformou em ira, e então bradou:
— O que vocês estão esperando? Vão pra cima dele! Agora!
Dois membros do grupo se colocaram à frente: um vesgo magricela e um manco alto, que avançaram pra cima de Ron. O primeiro a ficar cara a cara com ele foi o vesgo, que desferiu um soco em Ron. Com a adrenalina elevada, quase que automaticamente, Ron revidou, acertando o aparelho na costela dele, que, assim como o pançudo, foi arremessado para longe. Na trajetória da queda, para a infelicidade do coitado, ele acabou trombando com uma lata de lixo de metal, o que, além de acentuar a dor, também o fez ficar com a cabeça presa dentro da imundície.
O manco, ao ver seu companheiro incapacitado, convenceu-se totalmente da periculosidade do maltrapilho e, então, freou abruptamente e deu meia-volta com o intuito de, na medida do possível, fugir dele. Ron, agora com mais confiança, ao ver a tentativa de fuga do inimigo, mais uma vez balançou sua nova arma com o intuito de realizar um disparo. Dessa vez, ao contrário das tentativas anteriores, o aparelho começou a brilhar e, enfim, criou sua segunda esfera de energia, a qual levou Ron a cair no chão com o impulso. Para a sorte do infortunado manco, o tiro não foi bem calculado e acabou acertando um pouco atrás dele. No entanto, a explosão gerada pela esfera foi de tal intensidade que o fez voar tão alto, a ponto de atingir parcialmente um poste e, em seguida, atingir em cheio o tronco de uma árvore.
Com o andar da carruagem, Jun já havia se entranhado em um arbusto. Sendo mais intelectual do que guerreiro, ele apenas observava todo o conflito escondido, ficando cada vez mais abismado com o poder que o velho Ron tinha em mãos. Os outros dois mendigos também estavam atônitos, sem entender o que estava acontecendo. Nesse âmbito, o gago, na tentativa de encontrar alguma lógica naquilo tudo, proferiu:
— O fi-fi-filho da mãe tá u-u-usa-sando fo-fo-fogos de a-arti-fi-fí-cio!
Até certo ponto, satisfazendo-se com a resposta do gago, o homem da cicatriz exclamou:
— Filho da puta! Não vai se safar! Popó! Hora do Schweinsteiger!
Não tendo entendido direito a ordem imposta, para se certificar do que se tratava, o gago perguntou:
— É pra so-so-soltar o Sch-Sch-Sch-Schwei...
Antes que ele pudesse articular o resto do nome, impaciente, o homem da cicatriz berrou:
— Só solta a merda do cachorro!
Assustado com a exaltação do seu líder, o gago rapidamente soltou a coleira do cão e deu um tapa na própria coxa, o que fez com que ele avançasse ferozmente para Ron.
O poderoso sem-teto, que ainda estava no chão devido ao disparo anterior, começou a rastejar para trás, temendo que sua arma pudesse falhar em um momento tão crítico. A breve tentativa de recuar, contudo, foi inútil e, quando ele menos percebeu, o pit monster estava em cima dele tentando arrancar seu rosto. Com o intuito de se defender, ele colocou sua excêntrica arma diante do rosto, tentando evitar as mordidas do animal.
Mas, subitamente, enquanto Schweinsteiger tentava morder Ron, o aparelho que protegia seu rosto começou a brilhar novamente, até que, de repente, emanou uma luz mais forte que o normal, fazendo com que os espectadores da briga desviassem o olhar por um momento. Quando voltaram a olhar, todos se surpreenderam ao não ver mais nada. Tanto o mendigo quanto o cachorro haviam desaparecido. Todos olharam de um lado para o outro, procurando onde eles poderiam ter se enfiado. Até que um som, não muito alto, foi notado. Era oriundo do rio e parecia o barulho de alguém se jogando nele. Os olhares se voltaram para o rio e, de longe, era visível a imponente fera de cabeça para baixo na água, remexendo-se desesperadamente para sair daquela perigosa posição. Já Ron, pensando que ainda era perseguido, nadava ferozmente, em uma velocidade acima da média, de volta para a terra firme. Finalmente, quando chegou, Ron estava ofegante e de joelhos no chão, além, é claro, de estar todo ensopado e mais encardido que o normal.
Não demorou muito para ele perceber que seus adversários já estavam diante dele quando saiu do rio.
— Como caralhos você fez isso? — indagou o homem da cicatriz.
Ainda recuperando o fôlego, Ron não conseguiu produzir uma resposta imediata. E nem iria precisar, pois logo em seguida o homem da cicatriz continuou:
— Quer saber? Foda-se! Isso não importa! Seus truques esquisitos não importam! Eu já sobrevivi a uma maldita guerra. Não vai ser um Zé-ninguém que nem você que vai me contrariar. Eu vou te matar!!!
O homem puxou do bolso da calça uma faca e olhou furiosamente para o maltrapilho encharcado. Ron, com parte de sua estamina recuperada, olhou fundo nos olhos do homem da cicatriz, com uma expressão de raiva e determinação. Ambos se encararam por alguns segundos, até que Ron se levantou e começou a correr em direção ao seu inimigo com sua arma empunhada. O homem da cicatriz, assim que percebeu a movimentação dele, também empunhou a faca e pôs-se a correr na direção do maltrapilho.
Jun, que havia saído do seu esconderijo, via tudo de longe. Dois mendigos gritando e correndo ferozmente um na direção do outro com suas armas, iguais a gladiadores romanos. Eles se aproximavam cada vez mais, até que, estando prestes a se chocarem um contra o outro, brandiram suas armas um contra o outro. Um estranho ruído pôde ser escutado e, depois, silêncio.
As respectivas armas dos guerreiros estavam caídas no chão. Eles se fitaram por um momento. Então, o homem da cicatriz virou o olhar para as mãos. Ele não encontrou nada. Não é como se elas tivessem sido arrancadas ou feridas. No espaço onde deveriam existir duas mãos, havia um enorme vazio, parecendo até que elas nunca existiram. O homem, com uma cor cadavérica, deu alguns passos para trás enquanto olhava para o espaço onde costumavam estar suas mãos. Não suportando a situação, foi de encontro ao chão, completamente apagado.
Justo quando iria comemorar a queda do homem da cicatriz, Ron viu a ausência das mãos do infeliz e deu um passo para trás, assustado. Jun, que já havia se aproximado mais, conseguiu visualizar a cena e, horrorizado, exclamou:
— Jesus Cristo! As mãos dele! Cadê elas?
Ron, que ainda estava abalado com toda a sequência de acontecimentos que havia acabado de presenciar, falou:
— Eu não... eu não sei...
— Será... — começou a argumentar Jun, enquanto olhava para os lados. — Será que você teletransportou as mãos dele, como fez com você e com o cachorro aquela hora?
Achando a teoria de Jun coerente, o sem-teto pegou sua arma no chão e também passou a procurar o paradeiro das mãos, até que, de relance, viu o gago. O mesmo também estava apavorado com o que ocorreu e tentava sair de fininho para não ser detectado. Ao visualizá-lo, ainda com as chamas da batalha ardendo em seu peito, Ron chacoalhou o poderoso aparelho, que de novo passou a brilhar. Porém, quebrando as expectativas de Ron, em vez de uma esfera de energia, algo, a princípio, não identificado foi disparado contra o indivíduo, que, logo após o disparo, passou a gritar e a se debater no chão.
Jun, que viu o que aconteceu, lentamente foi em direção ao gago e, quando chegou perto, quase caiu no chão ao ver uma mão humana grudada no rosto do pobre coitado.
— A mão! A mão tá aqui! — berrou Jun, após o choque.
Ouvindo isso, Ron correu na direção da voz do amigo e também quase foi de encontro ao chão com o que viu.
Covardemente, ao invés de ajudar o gago, Jun simplesmente observava, de todos os ângulos possíveis, o seu bizarro infortúnio. Nesse ínterim, Ron, um pouco mais calmo, começou a olhar o caos ao seu redor. O gordo espatifado na lama. O vesgo preso no lixo. O manco, agora provavelmente aleijado, caído ao lado da árvore. O cão nadando no meio do rio. O da cicatriz desmaiado, sem as mãos. O gago agonizando com uma mão em seu rosto. Os pontos atingidos pela esfera de energia em chamas. Ele viu tudo isso, deu uma fungada no nariz e então levantou sua arma para o alto e soltou um grito de guerra:
— Vitória!!!
Prestando atenção em um suposto barulho de sirene que ouvira antes da comemoração de Ron, e sentindo-se mais cúmplice do que vítima, Jun agarrou o braço do amigo e correu o mais longe que podia do local.
...
Seja pelo instinto de Jun ou por uma licença poético-literária do destino, coincidentemente ele e Ron correram tanto que chegaram novamente ao calçadão. Recuperando o fôlego, Jun disse:
— Meu Deus, o que acabou de acontecer?
— O destino! — exclamou Ron. — O destino nos deu as ferramentas para vencer essa épica batalha! A primeira de muitas!
— Nem a pau! — retrucou Jun. — Não vai rolar! Nada disso faz sentido, pra começo de conversa! Que diabos é esse treco? Definitivamente não é nada humano. E por que estava enterrado em um parque aleatório? E, principalmente, por que justamente a gente encontrou essa coisa?
— Ah, meu amigo — começou Ron — eu já não te falei? Certas coisas não têm explicação, e está tudo bem! O que é esse objeto? Não importa! O fato é que ele definitivamente existe. Por que a gente o encontrou? Também não importa! O fato é que o encontramos. Me diga: qual o propósito de ficarmos nos questionando como fomos parar no presente? Nada poderíamos mudar, de qualquer forma. Tudo o que podemos fazer é usar as ferramentas que o destino nos deu e seguir em frente com elas. Assim, talvez até possamos conseguir respostas para esses questionamentos no futuro.
Aquele seria um bom sermão, se não fosse em um contexto tão caótico, pensou Jun. Ainda assim, ele via certo valor no discurso do seu novo e excêntrico amigo.
— De qualquer forma — começou a se questionar Jun — esse... aparelho não deixa de ser incrível, né? Como será que ele funciona exatamente? Essa coisa fez coisas muito distintas umas das outras. Será que existe algum padrão lógico para tudo isso?
— Acho que vamos ter que descobrir, não é? — respondeu Ron. — Vamos! Nós três temos muito o que testar!
— Nós três? — questionou Jun.
Jun quase teve um treco ao ver Ron tirar a mão, que antes estava no rosto do gago.
— Jesus Cristo! Guarda isso logo! Quando foi que você pegou ela?... Não! Por que você pegou ela?!
— Ora — contrapôs Ron — a gente não podia deixá-la lá, não é? De qualquer forma, você vem?
Antes de responder, Jun percebeu que já estava amanhecendo. As lojecas começaram a abrir. Pessoas começavam a zanzar. Aquele breu profundo começava a se dissipar aos poucos devido à luz do sol, fazendo com que se pudesse enxergar o caminho à frente. Ele ficou parado por um instante. Nada passava por sua cabeça. Então, Jun se pôs ao lado de Ron e, enquanto andavam pelo calçadão, dava uma bronca em seu novo amigo.
Thoughts
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PermalinkA linha sobre o breu se dissipar com a luz do sol... você deixou bonito pra encerrar.
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PermalinkA energia que Ron tem pra sair correndo pelado com um aparelho brilhoso é inspiradora 😂
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PermalinkO significado e propósito que Ron fala... vocês tentaram pôr uma mensagem?
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PermalinkJun vai voltar pra rua depois disso ou vai ficar com Ron?
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PermalinkQue criatividade com essa arma alienígena em um cenário tão real. 👌
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PermalinkPensei que ia ser mais dark, mas terminaram com esperança 💙
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PermalinkHistórias sobre street folk encontrando esperança estranha sempre têm um peso especial.
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PermalinkVocês criaram Ron antes ou Jun veio depois pra balancear a história?
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PermalinkRi demais com Ron chacoalhando a arma tentando fazer funcionar enquanto Jun gritava de trás. Dinâmica deles é ótima.
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PermalinkRi muito com a parte onde Ron tá tentando fazer funcionar o aparelho.
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