Agora finalmente percebo que..
A vida nunca foi sobre sangue.
Nunca foi sobre castelos.
Nem sobre cidades
A vida jamais coube em palavras
Ela existe no movimento
No olhar
No silêncio
Naquele exato instante em que tudo ao redor desaparece..
E pra alguns segundos, só existe você.
Posso então finalmente fechar meus olhos
E acreditar que, por sua culpa, viver valeu a pena.
Posso partir sem medo
Mesmo desejando que tivesse sido eu a morrer em seus braços.
Que sobre nós cresça o último jardim do mundo.
O mais belo
Que não pertença a reino algum
Que seja livre
Selvagem
Céu ou inferno que me aguardam, pouco importa.
Porque fui amado
E agora amo
Amo com a mesma intensidade com que um condenado ama a vida
E isso já é mais do que qualquer eternidade poderia me oferecer.
Nayeli,
Graças a vocês vivi meus melhores dias
E,
Se por acaso existir outra vida, não peço que se lembre de mim
Apenas espero que você continue sorrindo
Mesmo que isso não faça sentido algum.
Pela última vez minhas mãos seguram seu corpo
Incrivelmente, mesmo em sua morte, você continua linda
Seus olhos ainda refletem o sol
Mesmo opacos
Imóveis
Ainda carregam de alguma forma, o calor do verão
Encosto meu nariz em seu pescoço, respirando seu cheiro pela última vez.
Agora depois de todo esse tempo, você continua cheirando a flores
Jasmins
Margaridas
Rosas.
Com a cabeça encostada em seu peito, escuto uma melodia que ecoa onde seu coração um dia cantou.
Desta vez, ela embalará o seu doce corpo para as garras do abismo.
Mal percebo o momento em que uma lágrima cai sobre sua pele.
Clandestina
Silenciosa
Demoro alguns segundos para entender que ela veio de mim.
Deslizando por sua pele, ela desenha um caminho silencioso até desaparecer nas dobras do seu vestido.
Com os olhos fechados, enterro meu rosto na curva de seu pescoço.
Eu não me importo
Nada importa
Minha mão encontra seu rosto, acariciando sua pele com a devoção de um fiel diante de sua última oração.
Deixo meu corpo aqui para apodrecer ao lado do seu
Que os vermes fiquem com aquilo que restar de nós.
Afinal, nunca precisei de carne para lhe amar.
Não tenho uma promessa
Apenas um pedido
Como quem implora ao universo por um último inverno
Só mais um
Mesmo que seus lábios estejam frios
Mesmo que seu coração não bata mais em compasso com o meu
Mesmo que você não possa mais abrir os olhos.
Eu não me importo.
Nada mais importa.
Em meio as lágrimas um último sorriso nasce
Pequeno
Tímido
Como se pela última vez fosse possível acreditar que a primavera nunca chegou a existir.