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Eu dividiria uma tarde em um café superfaturado. Spoiler

Tatianeturcatti
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Não pelo café.

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Não pelo café.

Nem pelo preço.

Nem pelo nome complicado da bebida escrito em uma placa que parece precisar de tradução.

Eu dividiria pela pausa.

Porque existem lugares onde a gente não vai apenas para consumir alguma coisa.

Vai para lembrar que ainda existe tempo.

Sentar em um café assim é quase um pequeno ato de resistência em um mundo que nos ensinou a correr até quando não existe para onde chegar.

É escolher uma mesa.

Escolher uma cadeira.

Escolher ficar.

Sem a urgência de terminar logo.

Sem olhar o relógio a cada cinco minutos.

Sem transformar aquele momento em mais uma tarefa cumprida no meio do dia.

Eu dividiria uma tarde dessas porque existem conversas que não nasceriam em outro lugar.

Conversas que precisam de uma mesa demorada.

De uma xícara esfriando enquanto a história continua.

De risadas baixas para não incomodar as pessoas ao redor.

De silêncios que não precisam ser preenchidos porque a presença já está dizendo alguma coisa.

Talvez seja isso que os cafés têm de especial.

Eles são lugares onde estranhos se encontram com suas próprias histórias.

Onde uma pessoa escreve em um canto.

Outra lê em silêncio.

Outra apenas observa a rua como se estivesse tentando lembrar de alguma coisa.

E, por alguns minutos, todos parecem personagens de um livro que nunca será escrito.

Eu dividiria esse olhar.

Aquela brincadeira de imaginar vidas desconhecidas.

Quem são aquelas pessoas?

Para onde elas vão depois?

Que histórias carregam escondidas atrás de um simples pedido no balcão?

Porque talvez uma das formas mais bonitas de estar no mundo seja essa:

continuar curioso.

Continuar encontrando poesia onde todo mundo vê apenas rotina.

Eu não reclamaria do preço.

Não porque ele faz sentido.

Mas porque existem experiências que não são compradas pelo que entregam na mesa.

São pagas pelo tempo que permitem.

Pelo descanso.

Pela conversa.

Pela sensação rara de que, por algumas horas, a vida não está pedindo nada.

Ela está apenas acontecendo.

E talvez esse seja um luxo que quase ninguém percebe:

ter alguém com quem dividir uma tarde sem propósito.

Sem grandes planos.

Sem uma conquista no final.

Apenas duas pessoas sentadas, observando o mundo passar enquanto escolhem não passar tão rápido por ele.

Porque o café acaba.

A xícara fica vazia.

A conta chega.

A tarde termina.

Mas alguma coisa permanece.

A lembrança de que houve um momento em que ninguém estava tentando chegar a lugar nenhum.

Um momento em que existir foi suficiente.

E talvez amar também seja isso:

encontrar alguém com quem até uma pausa parece um destino.

Alguém que entende que algumas coisas não precisam ser úteis para terem valor.

Às vezes, basta serem bonitas.

Basta serem vividas.

Basta serem nossas.

Thoughts

  • Clara_V

    Kkk meu problema é que não tenho pausa no trabalho. Mas entendi - é tipo aquele momento que a gente faz de propósito pra lembrar que está viva. Legal isso.

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  • tresCafes

    Tem pacientes que chegam cedo só pra bater papo. É isso mesmo - pausa sem propósito, sem venda. Aquele tempo que ninguém quer transformar em tarefa, só existir.

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  • rotaAntiga

    Isso me faz lembrar das rotas antigas onde o negócio era a conversa, não só a venda. Os cafés ainda guardam aquele tempo que não é medido em transações.

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  • perguntaAberta

    Mas essas pessoas que se encontram e se imaginam vidas - o que elas fazem depois que saem do café? Aquela poesia que existe ali dentro, ela sobrevive fora?

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  • oquefaltadizer

    Tem uns assim pra cá também. Quando fico quieta vejo muita coisa - mãe e filha discordando, casal sem fala. Essas histórias você inventa ou já existem?

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