Porque existem formas de amor que não fazem barulho.
Elas apenas caminham.
Não escolheria um lugar famoso.
Nem uma paisagem extraordinária.
Escolheria uma rua qualquer.
Daquelas que quase ninguém lembraria depois.
Porque eu aprendi que a felicidade raramente mora nos grandes acontecimentos.
Ela costuma passar despercebida entre um passo e outro.
Existe alguma coisa profundamente humana em caminhar ao lado de alguém.
Nenhum dos dois está chegando.
Nenhum dos dois está indo embora.
Os dois apenas decidiram permanecer no mesmo caminho.
E isso, para mim, já é uma declaração de amor.
Eu dividiria uma caminhada de mãos dadas porque as mãos carregam uma memória.
Antes de aprender a confiar nas palavras, nós aprendemos a confiar em uma mão.
Foi ela que nos levantou quando caímos.
Que nos conduziu ao atravessar a rua.
Que nos ensinou, ainda crianças, que proteção também podia ser um gesto.
Talvez seja por isso que, quando adultos, entrelaçar os dedos tenha um significado tão profundo.
Não é apenas tocar alguém.
É dizer, sem voz:
"Você pode caminhar no mesmo ritmo que eu."
É curioso como duas pessoas de mãos dadas mudam a forma de andar.
Nenhuma delas continua exatamente igual.
Um diminui o passo.
O outro espera.
Às vezes, um puxa de leve.
Às vezes, é puxado.
Sem perceber, os corpos começam a negociar o tempo um do outro.
E talvez amar seja exatamente isso.
Descobrir um ritmo que já não pertence apenas a um.
Eu dividiria o sorriso que nasce sem motivo.
A conversa interrompida porque alguma coisa bonita passou.
As vitrines que olhamos sem intenção de entrar.
As ruas erradas que decidimos seguir só porque ninguém tinha pressa de voltar.
Porque existem caminhadas em que o destino nunca foi o lugar.
Sempre foi a companhia.
Há uma beleza quase invisível em passar pela cidade de mãos dadas.
O mundo continua acontecendo.
Os carros seguem.
As pessoas passam.
Os semáforos mudam de cor.
Mas, por alguns instantes, parece que existe uma pequena paz caminhando no meio de toda aquela pressa.
Como se duas pessoas lembrassem uma à outra que a vida não precisa ser corrida o tempo inteiro.
Eu dividiria esse gesto porque ele diz coisas que a boca nunca conseguiria explicar.
Diz:
"Estou aqui."
"Pode diminuir o passo."
"Você não precisa atravessar esse caminho sozinho."
E talvez seja por isso que eu goste tanto da ideia de caminhar.
Porque o amor nunca prometeu encurtar a estrada.
Nunca prometeu retirar todas as pedras do caminho.
Nunca prometeu que não haveria cansaço.
O amor apenas estende a mão.
E, de repente, a mesma distância deixa de parecer tão longa.
No fim, acho que ninguém deseja apenas encontrar alguém para amar.
A gente deseja encontrar alguém cujo passo combine com o nosso.
Alguém que compreenda quando precisamos parar.
Que respeite quando quisermos correr.
Que espere quando ficarmos para trás.
E que continue segurando nossa mão mesmo quando a caminhada deixar de ser bonita.
Porque caminhar de mãos dadas nunca foi sobre tocar uma pele.
Foi sobre confiar um pedaço do próprio caminho a outra pessoa.
E talvez essa seja uma das formas de dizer:
"Enquanto houver estrada... eu escolho percorrê-la ao seu lado."