E isso talvez diga mais sobre mim do que qualquer declaração de amor.
Porque, se existe uma parte um pouco egoísta em mim, ela aparece quando a comida chega.
É engraçado.
Passei quase uma hora escolhendo o restaurante.
Li avaliações.
Comparei pratos.
Troquei de ideia três vezes.
Imaginei o sabor antes mesmo de fazer o pedido.
Quando a campainha toca, já existe uma pequena expectativa sentada à mesa.
E, sinceramente...
eu queria aquele prato inteiro.
Talvez porque a comida nunca seja só comida.
Ela também é recompensa.
Consolo.
Refúgio.
Depois de um dia difícil, às vezes tudo o que a gente deseja é abrir a embalagem ainda quente e encontrar um pequeno pedaço de felicidade servido em uma bandeja de papel.
Por isso dividir nunca parece tão simples.
Não é sobre batatas.
Nem sobre um pedaço do hambúrguer.
É sobre abrir espaço justamente onde o nosso instinto diz para guardar.
Existe uma frase que quase todo mundo diz brincando:
"Não mexe no meu prato."
Mas talvez ela esconda uma verdade.
Todos nós temos pequenas fronteiras.
Lugares onde ainda dizemos "isso é meu".
E o amor tem um jeito curioso de atravessar essas fronteiras sem pedir licença.
Um dia você percebe que estendeu o prato espontaneamente.
Que ofereceu o primeiro pedaço.
Que perguntou:
"Quer experimentar?"
Sem calcular o prejuízo.
Sem negociar a quantidade.
Porque, misteriosamente, a alegria deixou de morar apenas no sabor.
Passou a morar também no sorriso de quem provou.
Eu dividiria meu pedido porque existem intimidades que não começam nas grandes promessas.
Começam em gestos ridiculamente pequenos.
Na última batata.
No último pedaço de pizza.
Na colher que atravessa o prato sem cerimônia.
Na sobremesa que, de repente, deixa de ser "minha" para virar "nossa".
É curioso como o amor muda até o vocabulário.
Aquilo que antes era território...
vira mesa.
Aquilo que antes era posse...
vira partilha.
E, sem perceber, a gente descobre que algumas coisas têm um gosto diferente quando deixam de ser exclusivamente nossas.
No fim, talvez eu não estivesse dividindo apenas um pedido.
Estaria dividindo uma parte da pessoa que eu fui durante muito tempo.
Aquela que acreditava que felicidade era guardar o melhor para si.
Até encontrar alguém que me ensinou, sem dizer uma palavra, que algumas alegrias ficam maiores justamente quando diminuem um pouco no nosso prato.
Porque talvez amar seja isso.
Olhar para a última batata, hesitar por um segundo...
e, mesmo sabendo que você também queria muito aquele último pedaço, empurrar o prato para o outro lado da mesa.
Não porque sobrou.
Mas porque, de alguma forma estranha e bonita, a presença de quem está diante de você passou a alimentar mais do que a comida.
E então você entende que o amor não começa quando dividimos aquilo de que podemos abrir mão.
Ele começa quando repartimos justamente aquilo que mais queríamos guardar para nós.