Carregando…

Eu dividiria o abraço dos meus sobrinhos. Spoiler

Tatianeturcatti
Pública 13 conversas 19 pensamentos 1 voto positivo 0 voto negativo 1 série

Porque existem abraços que não aprenderam a desconfiar.

Em séries

In groups

Conteúdo da publicação

Porque existem abraços que não aprenderam a desconfiar.

Eles não calculam.

Não medem.

Não perguntam se é o momento certo.

Eles simplesmente acontecem.

Chegam correndo.

Com os braços abertos antes mesmo de o corpo alcançar.

Como se o amor ainda não soubesse que o mundo, um dia, inventaria a vergonha.

Talvez seja por isso que o abraço de uma criança tenha um peso tão diferente.

Ele nasce antes das máscaras.

Antes das conveniências.

Antes de aprendermos a esconder o que sentimos para não parecermos exagerados.

Uma criança nunca abraça pela metade.

Ela abraça como quem acredita que o corpo inteiro foi criado para caber dentro de outro corpo por alguns segundos.

Eu dividiria esse abraço porque ele me lembra de uma verdade que a vida tenta apagar.

A de que o amor nunca precisou ser complicado.

Nós é que o complicamos.

Com o tempo aprendemos a controlar o afeto.

A medir demonstrações.

A pensar demais antes de tocar.

A esperar o momento certo.

As crianças não.

Elas ainda não negociam carinho.

Quando sentem saudade, correm.

Quando amam, abraçam.

Quando confiam, se jogam.

E existe uma coragem imensa em se jogar nos braços de alguém sem imaginar que pode não haver quem o segure.

Eu dividiria esse encontro.

O instante em que um abraço pequeno consegue alcançar lugares dentro da gente que nenhuma palavra consegue visitar.

Porque não é só o corpo que eles apertam.

É o adulto cansado.

É a preocupação.

É o peso dos dias.

É a versão endurecida que fomos construindo para conseguir sobreviver.

E, por alguns segundos, tudo isso desaparece.

Sobra apenas a simplicidade de existir.

Existe algo profundamente sagrado em ser amado por uma criança.

Ela ainda não ama o que conquistamos.

Nem o que possuímos.

Nem o que aparentamos.

Ela ama a presença.

Ama quem brinca.

Quem senta no chão.

Quem escuta uma história absurda como se fosse a coisa mais importante do universo.

Ela nos escolhe antes de conhecer o nosso currículo.

Antes de saber das nossas vitórias.

Antes de descobrir os nossos fracassos.

Ela apenas encontra um lugar seguro... e permanece.

Talvez seja por isso que eu dividiria o abraço dos meus sobrinhos.

Porque ele me lembra que ainda existe, em algum lugar do mundo, um amor que não pede desempenho.

Que não exige explicações.

Que não precisa ser merecido.

Um amor que simplesmente corre na nossa direção.

No fim, acho que eles nem imaginam o presente que carregam nos braços.

Porque, enquanto pensam que estão apenas abraçando a tia...

estão devolvendo a ela uma parte da infância que a vida insistiu em esconder.

E talvez seja esse o maior milagre das crianças.

Elas não apenas nos amam.

Elas nos lembram, sem saber, da pessoa que éramos antes de o mundo nos ensinar a ter medo de amar.

É por isso que eu dividiria esse abraço.

Porque algumas formas de amor são tão puras que, por alguns instantes, fazem o coração acreditar que a inocência nunca foi embora.

Ela apenas estava esperando uma criança correr na nossa direção para encontrá-la de novo.

Thoughts

  • duvidaHonesta

    Você acha que a gente consegue recuperar aquela forma de amar sem medo da infância? Ou fica marcado que o mundo é complicado depois?

    Permalink
  • Clara_V

    Que lindo! Meu filho está nessa fase de abraçar sem medir e quero guardar isso pra sempre.

    Permalink
  • tresCafes

    Criança abraça inteiro mesmo. Nenhuma medida, nenhuma conta. Só amor mesmo.

    Permalink
  • rotaAntiga

    Tem abraço que marca a vida inteira. Aquele que você lembra trinta anos depois como se fosse ontem.

    Permalink
  • Tatianeturcatti

    Acho que a gente não perde isso de vez. A gente aprende a ter medo, a se proteger, a pensar demais antes de tocar o outro. Mas aquela criança ainda existe dentro da gente. Talvez crescer seja justamente aprender, de vez em quando, a deixá-la abraçar sem medo outra vez.

    Permalink
  • perguntaAberta

    Mas quando a criança cresce, ela consegue voltar a abraçar assim sem medo? Ou a gente perde isso de vez?

    Permalink