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Eu dividiria a garrafinha no treino. Spoiler

Tatianeturcatti
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Não porque faltasse água.

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Não porque faltasse água.

Mas porque existem gestos que dizem muito mais do que parecem.

O treino tem uma honestidade difícil de encontrar em qualquer outro lugar.

Ali, ninguém consegue sustentar personagens por muito tempo.

O corpo sempre acaba contando a verdade.

A respiração acelera.

O suor escorre.

As pernas tremem.

O coração denuncia o esforço que a boca tenta esconder.

É um dos poucos lugares onde a exaustão nos devolve a quem realmente somos.

Eu dividiria a garrafinha porque ela nunca me pareceu apenas um recipiente.

Ela me parece um intervalo.

Um pequeno descanso no meio da batalha.

O instante em que o corpo pede água, mas a alma, às vezes, está pedindo coragem.

Existe uma intimidade curiosa em oferecer um gole daquilo que também nos sustenta.

Não porque a água seja rara.

Mas porque, naquele momento, ela carregou o meu cansaço antes de chegar às suas mãos.

Ela conheceu o ritmo da minha respiração.

O calor da minha pressa.

O esforço do meu corpo.

E, ainda assim, eu a estendo para você.

Como quem diz:

"Nós estamos atravessando o mesmo desafio."

Talvez seja isso que mais me emocione no treino.

Ninguém chega ao fim da série exatamente igual a como começou.

Cada repetição leva embora uma pequena versão de quem éramos.

A pessoa que dizia "não consigo".

A que queria desistir.

A que acreditava que aquele era o próprio limite.

E, sem perceber, o corpo vai convencendo a alma de que ela era mais forte do que imaginava.

Eu dividiria esse gole porque ele acontece justamente quando o fôlego está curto.

Quando as palavras quase não cabem entre uma respiração e outra.

É bonito perceber que existem cuidados que não precisam de discurso.

Basta uma mão estendida.

Uma garrafinha oferecida.

Um olhar que pergunta em silêncio:

"Está tudo bem?"

E outro que responde:

"Agora está."

No treino, ninguém está bonito o tempo inteiro.

O cabelo perde a forma.

O rosto avermelha.

O suor leva embora qualquer tentativa de parecer impecável.

Talvez seja exatamente por isso que exista tanta verdade ali.

Porque o esforço nos despe.

Não das roupas.

Mas da necessidade de parecer invencíveis.

Eu dividiria a garrafinha porque ela me lembra que ninguém vence sozinho.

Até nos esportes individuais existe alguém contando a repetição.

Corrigindo a postura.

Esperando o nosso tempo.

Celebrando quando conseguimos levantar um peso que, ontem, parecia impossível.

A força sempre encontra um jeito de ser compartilhada.

E talvez amar seja exatamente isso.

Não carregar o peso no lugar do outro.

Mas permanecer ao lado dele até que ele descubra que consegue levantá-lo.

É oferecer água sem que ela tenha sido pedida.

É diminuir o ritmo quando o outro fica para trás.

É comemorar a última repetição como se também fosse nossa.

Porque existem pessoas que dividem a água.

E existem aquelas que dividem o fôlego.

No fim, são essas que fazem qualquer caminho parecer menos pesado.

Porque o maior gesto de cuidado nunca foi matar a sede de alguém.

Foi permanecer por perto até que ele recuperasse o ar para continuar.

E talvez seja essa a forma mais silenciosa de amor:

ser o intervalo de descanso na vida de quem está lutando para não desistir.

Thoughts

  • tresCafes

    Oferecer água é simples mas faz toda a diferença. Gosto dessa parte.

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  • rotaAntiga

    Tem gente que treina sozinha a vida toda. Mas quem treina em silêncio sabe que alguém está olhando.

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  • perguntaAberta

    Você ainda tem aquela pessoa que dividia água com você? Ou as amizades do treino acabam quando o treino acaba?

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  • oquefaltadizer

    Mas e quando a pessoa para de ir? A garrafinha fica sozinha esperando pelo treino que não volta?

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  • mesaDeBar

    Treino é de verdade. Não dá pra sustentar personagem quando você tá caindo de cansaço, então oferecer água é diferente mesmo. Muda.

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