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Eu dividiria a bênção dos meus avós. Spoiler

Tatianeturcatti
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Mesmo que eles já não estejam aqui.

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Mesmo que eles já não estejam aqui.

Porque existem pessoas que partem sem levar embora aquilo que deixaram em nós.

Os meus avós se foram.

Mas a bênção deles ficou.

Ela continua me encontrando em dias que eles nunca viveram.

Como se o amor tivesse aprendido um jeito de sobreviver ao tempo.

Quando eu era pequena, achava que uma bênção era apenas um gesto.

Uma mão sobre a cabeça.

Uma oração baixinha.

Um "Deus te acompanhe" dito antes de sair de casa.

Hoje eu sei.

Nunca foi apenas isso.

Era uma forma de alguém colocar o próprio amor diante de Deus e pedir que Ele caminhasse comigo quando os seus próprios passos já não pudessem.

Talvez seja por isso que eu ainda me sinta alcançada por eles.

Porque algumas orações não terminam quando a voz se cala.

Elas continuam fazendo morada na vida de quem foi amado.

Eu dividiria essa bênção.

Porque ela não me pertence.

Ela é herança.

É uma daquelas riquezas que aumentam justamente quando são repartidas.

Gostaria que quem caminhasse ao meu lado também conhecesse esse tipo de cuidado.

Um cuidado que não controla.

Que não prende.

Que apenas pede aos céus:

"Guarda essa pessoa por mim."

Existe uma delicadeza enorme em quem abençoa.

Quem abençoa reconhece que ama tanto alguém que já não confia apenas nas próprias mãos.

Entrega.

Confia.

Coloca aquela vida diante de Deus e aceita que existe um amor maior do que o seu.

Foi isso que os meus avós fizeram comigo.

E talvez eu só tenha entendido muitos anos depois.

Hoje, quando a vida me livra de um caminho que parecia certo.

Quando encontro paz em meio ao caos.

Quando volto para casa depois de uma estrada longa.

Às vezes penso, em silêncio, que talvez ainda exista uma oração antiga caminhando alguns passos à minha frente.

Como se o amor deles continuasse abrindo caminhos que eu nem percebo.

Eu dividiria essa bênção porque ela me ensinou que existem presenças que a morte não consegue apagar.

Os corpos descansam.

As vozes silenciam.

As cadeiras ficam vazias.

Mas o amor...

o amor encontra um jeito de permanecer.

Ele muda de forma.

Vira lembrança.

Vira coragem.

Vira saudade.

Vira oração.

Vira direção.

No fim, acho que a maior herança que os meus avós me deixaram não foi aquilo que podiam segurar nas mãos.

Foi aquilo que colocaram de joelhos diante de Deus.

E isso o tempo não desgasta.

A distância não alcança.

A morte não desfaz.

Por isso eu dividiria a bênção deles.

Porque, se existe algo que ainda carrego todos os dias, é a certeza de que fui profundamente amada antes mesmo de compreender o que era o amor.

E talvez seja esse o verdadeiro significado de uma bênção.

Não impedir que a vida doa.

Mas fazer com que, mesmo nos dias mais difíceis, a gente nunca caminhe completamente sozinho.

Porque há orações que terminam quando dizemos "amém".

E há outras que Deus continua respondendo, mesmo quando quem as fez já descansa na eternidade.