Não é uma questão de ser de esquerda ou de direita, tampouco de capitalismo. É uma questão de caráter humano. Tentamos dar forma a um monstro que não existe, porque somos nós mesmos o monstro. O capitalismo não é selvagem; nós é que somos.
O que acontece é que a miséria, as guerras, as epidemias e a fome sempre existiram. O capitalismo apenas herdou essas condições e começou sua trajetória sem equidade. A maioria das pessoas utiliza o capitalismo e suas brechas para justificar determinadas atitudes com frases como: "O capitalismo é selvagem", "É a lei da oferta e da demanda", "Você não tentou o suficiente" ou "Temos as mesmas 24 horas". São maneiras educadas de pisar no pescoço dos outros.
Todos usam o capitalismo para esconder o próprio caráter, assim como um religioso utiliza sua religião para disfarçar suas opiniões, preconceitos e julgamentos sob a aparência de uma confissão de fé. Quantos de nós nunca pensamos: "Quando ganharmos na loteria, vamos ajudar muita gente"? É uma atitude nobre, mas que começa a falhar quando vemos um jogador de futebol utilizar abatimentos fiscais para financiar sua própria instituição. O capitalismo oferece mecanismos para ganhar dinheiro e, ao mesmo tempo, ajudar pessoas. A Virtude do Egoísmo, de Ayn Rand, nos apresenta justamente uma reflexão sobre essa relação.
Mas, para mim, a distribuição de renda nunca deveria ser feita de cima para baixo, não por caridade, mas por lógica econômica. Hoje, o que vemos é uma parcela da classe média que não percebe benefícios nem transformações porque não faz parte da maioria dos programas sociais. Acaba desenvolvendo uma espécie de ciúme por nunca ser contemplada. Concordo que deveria existir assistência também para essa parcela da população. Essas pessoas se sentem passadas para trás, como se estivessem em uma fila na qual alguém furou sua vez. Mas esquecem que a população mais pobre passou gerações esperando nessa mesma fila, sem nunca chegar ao atendimento.
Daí fica fácil culpar o mais fraco, porque julgamos seu caráter, enquanto admiramos e desejamos as influências dos ricos. Acham ruim a distribuição de renda, mas aplaudem empréstimos e incentivos para empresários. Quer dizer que todo empresário é honesto e gosta de trabalhar? Nem todos serão empresários de sucesso, assim como nem todos conseguirão ser artistas de sucesso. Mas podemos ser artistas e empresários, independentemente do resultado financeiro.
Uma economia funciona como um corpo humano. Imagine que determinada parte do nosso corpo receba pouco sangue. Então, o coração decide: "Não vou mandar sangue para o dedo mindinho do pé. Ele não serve para nada". O dedo começa a necrosar e cai. Depois, o coração procura outra parte do corpo para culpar, porque, afinal, por que deveria mandar sangue para um órgão que funciona com pouco sangue?
Quem é que gosta de trabalhar? Trabalhamos para sermos dignos, para não sermos danificados pela falta de condições de sobrevivência. A economia não se importa com o caráter de ninguém, assim como o capitalismo também não. Eles não são monstros de sete cabeças. Nós é que somos os monstros.
Julgamos o caráter dos pobres, mas queremos as influências dos ricos. Dizem que algumas pessoas, ao receberem dinheiro por meio da distribuição de renda, vão gastá-lo com drogas e bebidas. Mas quem vende drogas e bebidas também come arroz com feijão. Ninguém rasga dinheiro.
E pensar em uma "terceira via"? Para mim, é a pior burrice! Se já culpamos a direita e a esquerda, imagine a terceira via no poder. Percebe que, no fim, pode acabar ficando tudo na mesma? A terceira via parece acreditar que o sistema é um videogame, como se fosse fácil jogar, zerar a partida em seis horas e começar outra.
Mas o jogo político é para a vida inteira, e transformar uma geração leva tempo. Se levamos cinco mil anos para chegar ao ponto de beber água limpa com segurança, imagine quanto tempo precisamos para mudar uma nação?