Mana, as dívidas passam rápido no meio da lista e pra mim são a parte mais assustadora. Roma só proibiu a escravidão por dívidas com a Lex Poetelia Papiria, lá por 326 a.C., e mesmo depois disso o devedor seguia preso de outros jeitos. Quem deve sempre foi o primeiro da fila.
Escravidão: uma Instituição universal e transversal que atingiu todas as culturas.
Pensamento
Mana, as dívidas passam rápido no meio da lista e pra mim são a parte mais assustadora. Roma só proibiu a escravidão por dívidas com a Lex Poetelia Papiria, lá por 326 a.C., e mesmo depois disso o devedor seguia preso de outros jeitos. Quem deve sempre fo
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A escravidão é uma instituição historicamente universal que antecede em milênios o comércio transatlântico de africanos, demonstrando que, durante a maior parte da história humana, a privação da liberdade não foi baseada no conceito moderno de raça, mas sim em guerras, conquistas, dívidas e pirataria. Ao longo de milênios, povos de pele clara — europeus e asiáticos — foram massivamente escravizados por outros povos, incluindo pelos próprios europeus, árabes e otomanos.
Na Antiguidade Clássica, por exemplo, a cor da pele era irrelevante para a condição de escravo; os impérios grego e romano escravizavam qualquer povo derrotado em batalha, o que incluía os habitantes de regiões que hoje compreendem a França (Gálias), Espanha (Hispânia), Grã-Bretanha, Alemanha (Germânia), Grécia, Trácia e a Europa Oriental. Esse fluxo de cativos foi tão expressivo que, por volta do ano 120 d.C., após intensas campanhas militares romanas, estima-se que a população da cidade de Roma fosse composta por mais de 50% de escravos, sendo a esmagadora maioria composta por europeus de pele clara. Posteriormente, na Idade Média, o tráfico de escravos brancos continuou em larga escala entre os séculos VI e XII d.C.
Durante esses cerca de 600 anos, povos germânicos, vikings e mercadores italianos das repúblicas de Veneza e Gênova realizavam incursões na Europa Oriental para capturar eslavos pagãos e vendê-los para os mercados do Império Bizantino e do Califado Islâmico. O volume de pessoas traficadas foi tão monumental que, entre os séculos IX e XI, o termo latino Sclavus (eslavo) substituiu a antiga palavra romana para servo (servus), dando origem direta à palavra "escravo" em português, slave em inglês e esclave em francês. Já na Idade Moderna, entre aproximadamente 1500 e 1700, o Canato da Crimeia — um Estado tártaro-mongol aliado ao Império Otomano — baseou grande parte de sua economia em incursões anuais na Europa Oriental, capturando populações eslavas das regiões que hoje correspondem à Ucrânia, Rússia e Polônia.
Historiadores estimam que entre 1 e 2 milhões de europeus católicos e ortodoxos foram capturados e vendidos nos mercados de escravos de Istambul e do Oriente Médio nesse período. Paralelamente, entre 1530 e 1780, os corsários berberes (piratas muçulmanos do Norte da África que operavam a partir de Argel, Túnis, Trípoli e Marrocos) atacavam navios e vilas costeiras da Itália, Espanha, Portugal, França, Inglaterra, Irlanda e até da Islândia. Estudos do historiador Robert Davis apontam que cerca de 1 milhão a 1,25 milhão de cristãos europeus brancos foram escravizados no Norte da África, chegando ao ponto de vilas inteiras, como Baltimore na Irlanda, serem totalmente despovoadas. No total, a escravização de pessoas brancas durou milhares de anos, estendendo-se desde os primeiros registros da Suméria até as primeiras décadas do século XIX, quando as Guerras Berberes puseram fim ao tráfico no Mediterrâneo.
Esse panorama confirma que quase todas as etnias do planeta já estiveram em ambos os lados dessa instituição. Contudo, historiadores apontam uma distinção crucial entre esses períodos e o comércio transatlântico de africanos (séculos XVI a XIX): enquanto a escravidão antiga e medieval de europeus permitia a assimilação, a alforria e gerava filhos livres, o modelo transatlântico europeu transformou a escravidão em uma indústria capitalista, hereditária e estritamente racializada, utilizando juridicamente a pele preta como sinônimo de propriedade móvel.
O declínio desse sistema na Idade Moderna acelerou-se com as chamadas Guerras Berberes, impulsionadas principalmente pelos Estados Unidos que, recém-independentes, recusavam-se a continuar pagando os vultosos tributos anuais exigidos pelos governantes norte-africanos para garantir a segurança de seus navios mercantes. Diante da recusa do presidente Thomas Jefferson em ceder às extorsões de Tripoli em 1801, uma série de conflitos navais eclodiu no Mar Mediterrâneo. O envio da recém-criada marinha americana resultou na Primeira Guerra Berbere (1801–1805) e, posteriormente, na Segunda Guerra Berbere (1815), liderada pelo comodoro Stephen Decatur, que impôs pesadas derrotas militares aos corsários e forçou os estados de Argel, Túnis e Trípoli a libertarem os prisioneiros e assinarem tratados de paz sem a cobrança de resgates.
Esse enfraquecimento abriu caminho para que as potências europeias agissem de forma mais coordenada. Em agosto de 1816, uma frota combinada de navios britânicos e holandeses realizou um massivo bombardeio contra a cidade de Argel, destruindo a frota pirata local e forçando a libertação imediata de mais de 1.200 escravos cristãos. Embora o tráfico tenha continuado de forma residual nos anos seguintes, o fim definitivo desse tipo de escravidão ocorreu em 1830, com a invasão e conquista de Argel pela França. A ocupação militar francesa desmantelou as estruturas dos antigos estados berberes, extinguindo permanentemente os mercados de escravos na região e encerrando um ciclo de milênios de escravização de populações brancas e europeias no Mediterrâneo.
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