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ENTRE SOMBRAS E PECADOS

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ATO II

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ATO II

CAPÍTULO 11 — SEM SAÍDA

A chuva começou antes do anoitecer.

Primeiro foram apenas algumas gotas contra as janelas.

Depois, o céu de Blackwood pareceu desabar.

Relâmpagos cortavam as nuvens e iluminavam a cidade por segundos, revelando ruas quase vazias, árvores se curvando com o vento e casas escondidas atrás de cortinas fechadas.

Yasmin estava sentada na cama.

O celular permanecia sobre o colchão.

A última mensagem ainda estava aberta.

"E você também estava."

Ela havia lido aquilo tantas vezes que já conseguia enxergar as palavras mesmo quando fechava os olhos.

A pessoa que enviara a mensagem dizia que estava naquela noite.

Naquela noite que ela não conseguia lembrar.

Naquela noite que talvez tivesse sido apagada de sua memória.

Yasmin passou as mãos pelo rosto.

— O que aconteceu comigo?

Ela não esperava uma resposta.

Mas o silêncio do quarto parecia ainda mais assustador.

Desde que havia encontrado a estação, alguma coisa dentro dela havia mudado.

As lembranças estavam voltando.

Pequenos pedaços.

Uma voz.

Um cheiro.

Uma mão segurando a sua.

O som de uma porta fechando.

O rosto de Liam quando criança.

E uma promessa.

"A gente vai voltar amanhã?"

"Prometo."

Yasmin fechou os olhos.

Aquela lembrança parecia tão real que quase conseguia sentir novamente a mão pequena de Liam segurando a sua.

Ela abriu os olhos rapidamente.

Não.

Não queria pensar nisso.

Pegou o celular.

Havia uma nova mensagem.

Dessa vez, de Liam.

"Não saia de casa hoje."

Yasmin franziu a testa.

Digitou:

"Por quê?"

A resposta demorou alguns segundos.

"A tempestade está piorando."

Ela respondeu:

"Você está mentindo."

Os três pontos apareceram.

Desapareceram.

Voltaram.

Então:

"Sim."

Yasmin sentiu o coração acelerar.

"Sobre o quê?"

Demorou quase um minuto.

"Ainda não posso contar."

Ela ficou olhando para a tela.

Sentiu raiva.

Mas, por algum motivo, também sentiu medo.

Não por ela.

Por ele.

Digitou:

"Onde você está?"

A resposta veio:

"Em casa."

Yasmin levantou.

Olhou pela janela.

A chuva batia violentamente no vidro.

Ela pegou um casaco.

Se Liam estava escondendo alguma coisa, ela descobriria.

---

A MANSÃO BLACKWOOD

Liam estava na biblioteca.

A casa estava praticamente escura.

Apenas a lareira iluminava parte do cômodo.

Sobre a mesa havia fotografias.

Documentos.

A chave B-17.

E o botão encontrado na estação.

Ele havia passado as últimas duas horas tentando descobrir quem era o homem que fugira.

Nada.

Nenhum registro.

Nenhum rosto.

Nenhum nome.

Liam abriu uma gaveta antiga.

Encontrou um álbum.

Colocou sobre a mesa.

As fotografias de sua infância estavam organizadas por ano.

Ele começou a folhear.

Cinco anos.

Seis.

Sete.

Oito.

Parou.

Uma fotografia chamou sua atenção.

Ele estava sentado em um balanço.

Sua mãe estava atrás.

E Yasmin aparecia ao lado.

As duas crianças sorriam.

Liam aproximou a fotografia do rosto.

Ele conhecia aquele sorriso.

Conhecia porque era o seu próprio.

Mas havia outra coisa.

Yasmin estava mexendo no cabelo.

Mesmo naquela idade.

Ela fazia uma pequena mecha girar entre os dedos sempre que ficava nervosa.

Liam lembrava disso.

Lembrava porque, quando eram crianças, ele costumava puxar aquela mecha apenas para irritá-la.

— Para!

— Você fica engraçada.

— Eu não fico.

— Fica sim.

Ela cruzava os braços.

Depois começava a rir.

Liam sorriu.

Uma lembrança tão simples.

Tão distante.

Por alguns segundos, ele não era o homem que todos temiam.

Era apenas um garoto.

Um garoto que não sabia que perderia a mãe.

Um garoto que não sabia que aprenderia a controlar tudo ao redor para nunca mais sentir aquela sensação de impotência.

Seu sorriso desapareceu.

Ele virou a fotografia.

No verso havia uma data.

17 de outubro de 2011.

E uma frase escrita à mão:

"As crianças não podem saber."

Liam fechou os olhos.

— Que crianças?

Um trovão fez a casa tremer.

Ele abriu os olhos.

Foi quando ouviu o som da porta principal.

Liam imediatamente se levantou.

Passos.

Ele pegou o celular.

Olhou para as câmeras de segurança.

A imagem da entrada estava completamente preta.

— Droga.

Ele pegou o casaco.

Desceu as escadas.

Quando chegou ao hall, viu uma silhueta diante da porta.

Liam parou.

— Quem está aí?

A pessoa não respondeu.

Ele abriu a porta.

Era Yasmin.

Encharcada.

Com os cabelos cacheados grudados parcialmente no rosto.

Ela estava respirando rapidamente.

Liam ficou alguns segundos sem dizer nada.

— Você enlouqueceu?

Yasmin entrou.

— Boa noite para você também.

— Eu disse para não sair.

— E eu disse que você estava mentindo.

— A tempestade está perigosa.

— Não foi isso que você escondeu.

Liam fechou a porta.

— Yasmin...

— Não.

Ela retirou o casaco molhado.

— Hoje você vai me contar.

— Contar o quê?

— O que aconteceu naquela noite.

Liam ficou imóvel.

— Eu não lembro.

— Mas eu lembro.

Ele levantou os olhos.

— O quê?

— Nós estivemos naquela estação.

Silêncio.

— Nossas mães estavam lá.

Liam não respondeu.

— E alguém estava discutindo com elas.

Ele respirou fundo.

— Você precisa ir embora.

— Não.

— Yasmin.

— Não vou embora.

Liam se aproximou.

— Você não entende o perigo.

— Então me faça entender.

— Eu estou tentando proteger você.

Ela deu um passo à frente.

— Você sempre fala isso.

— Porque é verdade.

— Não é.

Liam ficou em silêncio.

Yasmin continuou:

— Você não está me protegendo.

Ela apontou para a própria cabeça.

— Você está tentando controlar o que eu sei.

Ele não respondeu.

— E eu estou cansada disso.

---

A TEMPESTADE

Um relâmpago iluminou o hall.

Por um segundo, Yasmin viu algo atrás de Liam.

Uma fotografia pendurada na parede.

Ela se aproximou.

Era uma imagem antiga da família Blackwood.

Liam percebeu.

— Não.

— Por quê?

Ela chegou mais perto.

Na fotografia estavam os pais de Liam.

Alguns parentes.

E, ao fundo...

uma menina.

Yasmin ficou imóvel.

— Quem é ela?

Liam olhou.

Seu rosto mudou.

— Não sei.

— Você acabou de dizer que não sabe.

— Porque não sei.

Yasmin aproximou o rosto da fotografia.

— Eu conheço essa garota.

Liam olhou para ela.

— De onde?

Yasmin não respondeu imediatamente.

Então uma lembrança veio.

Um quarto.

Uma boneca.

Uma janela.

Uma menina mais velha penteando seu cabelo.

A voz dela:

"Se alguém perguntar, você nunca esteve aqui."

Yasmin levou a mão à cabeça.

— Meu Deus...

Liam segurou seus ombros.

— Yasmin.

— Eu conheço ela.

— Quem?

— Não sei.

Ela fechou os olhos.

— Eu não consigo lembrar.

Liam a segurou com mais firmeza.

— Respira.

— Não consigo.

— Olha para mim.

Ela abriu os olhos.

— Respira.

Yasmin obedeceu.

Uma vez.

Duas.

Três.

Aos poucos, a respiração voltou ao normal.

Ela percebeu que Liam ainda estava segurando seus braços.

Ele soltou imediatamente.

— Desculpa.

Ela olhou para ele.

— Você faz isso quando está com medo.

— O quê?

— Fica mais controlador.

Liam desviou o olhar.

— Talvez.

— Por quê?

Ele demorou.

— Porque quando eu era criança, ninguém controlava nada.

— E isso aconteceu naquela noite?

— Sim.

— Você perdeu sua mãe.

— Eu perdi mais do que isso.

Yasmin esperou.

Liam caminhou até a janela.

— Eu perdi a ideia de que o mundo era seguro.

---

A INFÂNCIA DE LIAM

Liam nunca contava aquela parte.

Nem para Ethan.

Nem para Dominic.

Nem para ninguém.

Mas naquela noite, talvez pela primeira vez, decidiu falar.

— Meu pai não era um homem que gritava muito.

Yasmin ficou em silêncio.

— Ele não precisava.

Liam olhava para a chuva.

— Quando eu era criança, bastava ele entrar em um cômodo para todo mundo ficar quieto.

— Ele era violento?

— Às vezes.

Liam respirou.

— Mas a pior parte não era quando ele batia.

Yasmin sentiu o peito apertar.

— Era quando ele ficava calado.

Liam continuou:

— Minha mãe tinha uma forma de saber quando ele estava prestes a fazer alguma coisa.

— Como?

— Ela mexia no cabelo.

Yasmin percebeu algo.

— Igual eu faço.

Liam olhou para ela.

— Sim.

Ela ficou imóvel.

— Você percebeu?

— Desde criança.

— E nunca falou?

— Porque eu achava que era só uma coisa sua.

Yasmin mexeu involuntariamente em uma mecha do cabelo.

Liam quase sorriu.

— Você ainda faz isso.

— Quando estou nervosa.

— Eu sei.

Por alguns segundos, eles ficaram apenas se olhando.

Era estranho.

A proximidade.

A familiaridade.

A sensação de que, apesar de todos os segredos, existia uma parte dos dois que nunca havia sido esquecida.

---

O QUARTO DE LIAM

Liam levou Yasmin para o andar de cima.

Ela parou diante de uma porta.

— O que tem aí?

— Meu antigo quarto.

— Você ainda guarda as coisas da infância?

— Algumas.

Ele abriu.

O quarto havia sido reformado, mas alguns objetos permaneciam.

Uma caixa de madeira.

Livros antigos.

Um carrinho.

Um desenho infantil.

Yasmin pegou o desenho.

Duas crianças estavam desenhadas de mãos dadas.

Embaixo havia uma frase escrita com letra infantil:

LIAM + YASMIN = PARA SEMPRE

Yasmin começou a rir.

— Você escreveu isso?

Liam ficou constrangido.

— Eu tinha oito anos.

— Você era fofo.

— Não espalha.

Ela continuou rindo.

Liam observou.

Aquele sorriso.

Ele conhecia aquele sorriso.

Yasmin sempre apertava um pouco os olhos quando ria de verdade.

Quando estava apenas sendo educada, não fazia isso.

Quando estava nervosa, sorria de boca fechada.

Quando estava realmente feliz...

os olhos denunciavam.

Liam percebeu que ainda sabia diferenciar todos eles.

Yasmin percebeu que ele a observava.

— O quê?

— Nada.

— Você está olhando.

— Estou lembrando.

— Do quê?

Ele respondeu:

— De você.

Ela ficou quieta.

Liam continuou:

— Você fazia esse mesmo sorriso quando roubava meus doces.

Yasmin arregalou os olhos.

— Eu não roubava.

— Roubava.

— Você deixava.

— Porque você chorava quando eu não deixava.

Ela sorriu.

— Você lembra disso?

— Lembro de quase tudo.

Yasmin abaixou os olhos.

— Eu não.

— Talvez seu cérebro tenha escondido.

— Por quê?

— Para proteger você.

Ela olhou para ele.

— E quem protege você?

Liam não respondeu.

A pergunta atingiu algo profundo.

Porque ele nunca tinha pensado nisso.

---

DOMINIC

Enquanto isso, do outro lado da cidade, Dominic estava sentado dentro do carro.

Aurora havia terminado o relacionamento.

Mais uma vez.

Mas aquela vez parecia diferente.

Ela não estava apenas brava.

Ela havia ido embora.

Dominic apertava o volante.

Seu celular mostrava dezenas de mensagens não respondidas.

Ele abriu uma fotografia antiga.

Ele tinha seis anos.

Estava em uma festa.

Vestia um terno pequeno.

Ao lado dele estava seu pai.

Um homem sério.

Perfeito diante das câmeras.

Dominic lembrava daquela noite.

Lembrava do pai se ajoelhando diante dele.

— Nunca deixe ninguém perceber que você está com medo.

— Por quê?

— Porque pessoas fracas são descartadas.

Dominic tinha perguntado:

— E se eu amar alguém?

O pai riu.

— Amor é uma fraqueza que você precisa aprender a controlar.

Dominic cresceu ouvindo aquilo.

Quando criança, aprendeu a competir.

Quando adolescente, aprendeu a manipular.

Quando começou a namorar, aprendeu a controlar.

Não porque não sentisse amor.

Mas porque confundia amor com posse.

Para ele, perder alguém significava fracassar.

E fracassar significava ser fraco.

Dominic fechou os olhos.

Aurora tinha sido a primeira pessoa que ele não conseguira controlar.

E isso o aterrorizava.

O celular vibrou.

Uma mensagem.

Aurora: "Não tente me procurar."

Dominic encarou a tela.

Seus dedos começaram a digitar.

Pararam.

Ele apagou.

Pela primeira vez, tentou respeitar uma escolha que não gostava.

Não por maturidade.

Ainda não.

Mas porque alguma coisa dentro dele começava a perceber que seu pai talvez tivesse ensinado tudo errado.

---

GABRIEL

Gabriel estava em seu quarto.

O contrato da gravadora estava sobre a mesa.

Sua mãe havia entrado algumas vezes para perguntar se ele tinha certeza.

Ele dizia que sim.

Mas não tinha.

Seu sonho de ser cantor sempre havia sido maior que qualquer medo.

Quando criança, Gabriel cantava escondido.

O pai trabalhava em dois empregos e dizia:

— Música não coloca comida na mesa.

Gabriel nunca esqueceu.

Por isso prometera a si mesmo que venceria.

Não apenas para ser famoso.

Mas para provar que seu sonho tinha valor.

Ele pegou o contrato.

A assinatura estava quase pronta.

Então viu uma cláusula.

"O artista deverá cumprir solicitações de terceiros vinculados ao patrocinador."

Gabriel franziu a testa.

— Que droga é essa?

Ele pensou em Liam.

O "favor".

De repente, teve uma sensação ruim.

---

VALENTINA

Valentina estava em uma cafeteria vazia.

Seu notebook estava aberto.

Ela pesquisava o nome:

Helena Hale.

Nada.

Tentou:

Projeto Blackwood.

Pouco.

Tentou:

Blackwood Almeida Hale.

Um resultado apareceu.

Um documento arquivado.

Valentina clicou.

A página carregou.

Então apareceu uma fotografia.

Ela reconheceu imediatamente.

Era a mesma fotografia que Alice havia encontrado.

Valentina ampliou.

No canto inferior havia uma assinatura.

M. Hale.

Ela procurou o nome completo.

O sistema pediu senha.

Valentina tentou algumas combinações.

Nada.

Então recebeu uma notificação.

ACESSO NEGADO.

Ela fechou o notebook.

Alguém estava bloqueando aquela informação.

Mas por quê?

---

DE VOLTA À MANSÃO

Yasmin estava sentada no chão do quarto de Liam.

Os dois haviam encontrado várias fotografias.

Infância.

Aniversários.

Festas.

Passeios.

Havia uma foto dos dois sentados perto de um lago.

Yasmin apontou.

— Esse lugar.

Liam olhou.

— Lago Ashford.

— Eu lembro.

— Eu também.

— A gente vinha aqui.

— Todo verão.

Ela sorriu.

— Você sempre levava pão.

— Para os patos.

— Não.

Yasmin riu.

— Você comia metade antes.

Liam sorriu.

— Isso é mentira.

— É verdade.

Ela ficou olhando para a fotografia.

— Por que paramos de ir?

Liam ficou sério.

— Depois que minha mãe desapareceu.

Yasmin sentiu a mudança no ambiente.

— Você nunca voltou?

— Não.

— Então talvez devêssemos voltar.

Ele olhou para ela.

— Talvez.

Um trovão explodiu do lado de fora.

As luzes piscaram.

Depois apagaram.

Yasmin levantou.

— Liam?

— Estou aqui.

— Eu não estou vendo nada.

— Fica perto de mim.

— Não começa.

Ele soltou uma pequena risada.

— Dessa vez é só porque está escuro.

— Tem certeza?

— Não.

Um barulho veio do corredor.

Os dois ficaram em silêncio.

Passos.

Liam pegou uma lanterna.

— Fique aqui.

— Não.

— Yasmin.

— Nós dois.

Ele olhou para ela.

— Você nunca obedece.

— Você nunca manda em mim.

— Justo.

Eles saíram.

O corredor estava vazio.

Mas uma porta estava aberta.

A porta do escritório.

Liam franziu a testa.

— Eu fechei essa porta.

Entraram.

Os documentos estavam espalhados.

Alguém havia mexido nas gavetas.

Yasmin percebeu imediatamente.

— A fotografia.

Liam olhou para a mesa.

A fotografia de sua mãe havia desaparecido.

— Não...

Ele procurou.

Nada.

Então viu uma marca no chão.

Uma pegada molhada.

A pessoa havia entrado na casa.

E ainda poderia estar ali.

---

O PORÃO

Liam segurou a lanterna.

— Fique atrás de mim.

— Não vou ficar escondida.

— Yasmin.

— Eu consigo andar.

— Eu sei.

Ele olhou para ela.

— Mas se alguma coisa acontecer...

— Nós dois.

Liam assentiu.

Desceram as escadas.

O porão estava escuro.

A chuva fazia pequenos ruídos nas janelas.

Liam iluminou as paredes.

Nada.

Então Yasmin viu algo.

— Ali.

Uma porta.

Pequena.

Escondida atrás de uma estante.

Liam puxou.

Trancada.

Ele tentou abrir.

Nada.

Yasmin apontou para a fechadura.

— A chave.

Liam tirou a chave B-17.

Girou.

A porta abriu.

Atrás dela havia uma passagem estreita.

Os dois entraram.

Depois de alguns metros, chegaram a um pequeno cômodo.

Havia apenas uma cadeira.

Uma mesa.

E uma televisão antiga.

Liam ligou.

A tela acendeu.

Chiado.

Depois apareceu uma gravação.

Uma mulher.

Liam congelou.

— Mãe...

Era Helena.

Mais jovem.

Sentada naquela mesma cadeira.

Ela olhava diretamente para a câmera.

— Se Liam estiver assistindo isso algum dia...

Ela respirou fundo.

— Então provavelmente Yasmin está com ele.

Yasmin ficou imóvel.

Helena continuou:

— Se vocês chegaram até aqui, significa que alguém falhou em apagar as memórias de vocês.

Liam se aproximou da televisão.

— Que memórias?

A gravação continuou.

— Vocês eram crianças. Não deveriam ter sido envolvidos.

Uma pausa.

— Mas foram.

Yasmin segurou a mão de Liam.

Helena continuou:

— Na noite em que tudo aconteceu, vocês viram uma coisa.

A imagem começou a falhar.

— Uma coisa que jamais deveria ter sido vista.

Liam apertou a mão de Yasmin.

— O quê?

A gravação travou.

A tela ficou preta.

Depois voltou.

Helena estava em pé.

Atrás dela havia outra pessoa.

Um homem.

O rosto estava parcialmente escondido.

Mas Liam reconheceu o relógio no pulso.

Ele havia visto aquele relógio antes.

Na fotografia.

No braço de seu pai.

Liam deu um passo para trás.

— Não...

Yasmin olhou para ele.

— O que foi?

— Meu pai.

A gravação continuou.

Helena olhou para trás.

— Se ele descobrir que vocês se lembraram...

A imagem falhou novamente.

A última frase apareceu em meio ao chiado:

"Ele vai tentar terminar o que começou."

A televisão desligou.

Silêncio.

Yasmin apertou a mão de Liam.

— O que começou?

Ele não respondeu.

Então um barulho veio do andar de cima.

Uma porta batendo.

Liam olhou para a escada.

— Alguém está na casa.

---

A FUGA

Os dois correram.

Liam apagou a lanterna.

Subiram silenciosamente.

Quando chegaram ao corredor, não havia ninguém.

A porta principal estava aberta.

A chuva entrava pela entrada.

Liam correu até ela.

Olhou para fora.

Nada.

Então percebeu uma coisa.

No chão havia um envelope.

Ele pegou.

Seu nome estava escrito.

LIAM.

Abriu.

Dentro havia uma fotografia.

A mesma fotografia que havia desaparecido do escritório.

Sua mãe.

Mas agora havia uma anotação atrás.

"Você sempre chega tarde demais."

Liam ficou imóvel.

Yasmin se aproximou.

— Liam?

Ele virou a fotografia.

No canto da imagem havia uma data.

17/10/2011.

Yasmin sentiu o sangue gelar.

— Essa foi a noite.

Liam assentiu.

— Sim.

Ela olhou para ele.

— O que aconteceu naquela noite?

Liam apertou a fotografia.

— Eu não sei.

— Mas você estava lá.

— Sim.

— E eu também.

— Sim.

Ela se aproximou.

— Então vamos lembrar.

Liam olhou para ela.

Pela primeira vez, ele não tentou impedi-la.

— Vamos.

---

O LUGAR ONDE TUDO COMEÇOU

A tempestade continuava.

Mas, naquele momento, nenhum dos dois parecia se importar.

Liam pegou as chaves do carro.

Yasmin entrou.

— Para onde?

Ele respondeu:

— Lago Ashford.

— Agora?

— Agora.

— Está chovendo.

— Eu sei.

— E se não conseguirmos chegar?

Liam olhou para ela.

— Então voltamos.

Yasmin sorriu.

— Você está aprendendo.

— Não se empolga.

O carro deixou a mansão.

A estrada estava praticamente vazia.

Enquanto dirigia, Liam percebeu que suas mãos estavam tremendo.

Yasmin percebeu.

Ela não comentou.

Apenas colocou a mão sobre a dele.

Dessa vez, ele não precisava controlar nada.

Nem ela.

Nem o passado.

Nem o que aconteceria depois.

Porque, pela primeira vez, os dois estavam indo em direção à verdade.

Mesmo sem saber se conseguiriam suportá-la.

E, em algum lugar da cidade, alguém observava o carro desaparecer na chuva.

Uma figura abriu um telefone.

Digitou uma única mensagem:

"Eles estão indo para o lago."

A resposta chegou segundos depois.

"Então chegou a hora de fazê-los lembrar."

A figura guardou o celular.

E sorriu.

Porque a verdadeira história de Blackwood ainda nem havia começado.

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