Que volta dada em Alice quando ela viu o rosto. Deve ter congelado ali mesmo.
ENTRE SOMBRAS E PECADOS
CAPÍTULO 7 — A FOTOGRAFIA
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Que volta dada em Alice quando ela viu o rosto. Deve ter congelado ali mesmo.
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CAPÍTULO 7 — A FOTOGRAFIA
A chuva havia parado durante a madrugada.
Mas Blackwood continuava com aquela aparência úmida e silenciosa que fazia a cidade parecer mais velha do que realmente era.
As ruas ainda estavam molhadas.
As luzes dos postes refletiam no asfalto.
E, em algum lugar daquela cidade, alguém sabia que Yasmin havia começado a fazer perguntas.
Ela não contou a ninguém sobre as mensagens.
Nem para Aurora.
Nem para Gabriel.
Muito menos para Liam.
Talvez fosse desconfiança.
Talvez fosse medo.
Ou talvez fosse exatamente o que aquela pessoa queria.
Que ela começasse a desconfiar de todos.
Yasmin guardou o celular no bolso e saiu de casa.
Naquela manhã, precisava ir à faculdade.
Precisava fingir que a noite anterior não tinha acontecido.
Precisava fingir que não tinha recebido uma mensagem de um desconhecido dizendo para não confiar em Liam.
Mas, enquanto caminhava pelo corredor da universidade, percebeu que não conseguia pensar em outra coisa.
A árvore.
A promessa.
A fotografia.
A mãe de Liam.
E aquela frase:
Não confie em Liam.
— Yasmin?
Ela parou.
Aurora estava atrás dela.
— Você está bem?
— Estou.
Aurora estreitou os olhos.
— Você mente muito mal.
Yasmin tentou sorrir.
— Dormi mal.
— Por causa do quê?
— Nada.
Aurora ficou alguns segundos observando-a.
— É por causa dele?
Yasmin não respondeu.
Aurora suspirou.
— Liam?
— Eu não quero falar sobre isso.
— Tudo bem.
Aurora passou o braço pelo dela.
— Mas quando quiser, eu estou aqui.
Yasmin sorriu de leve.
— Obrigada.
As duas continuaram andando.
Mas Yasmin não percebeu que, do outro lado do corredor, alguém observava as duas.
Uma câmera foi levantada.
Uma fotografia foi tirada.
E depois outra.
UMA PROFISSÃO FEITA DE LEMBRANÇAS
Alice Moreno gostava de fotografar aquilo que as pessoas tentavam esconder.
Não rostos.
Não paisagens bonitas.
Histórias.
Ela acreditava que uma fotografia não registrava apenas o que estava diante da câmera.
Registrava aquilo que alguém queria esquecer.
Naquela manhã, recebeu um e-mail.
Remetente: Blackwood Heritage & Properties.
Alice abriu.
Senhora Moreno,
gostaríamos de contratar seus serviços para registrar o estado atual de uma propriedade histórica da família Blackwood.
Ela leu novamente.
A propriedade era uma antiga casa pertencente à família.
Abandonada havia anos.
O pagamento era alto.
Muito alto para um trabalho aparentemente simples.
Alice respondeu aceitando.
Não sabia ainda que aquela decisão mudaria sua vida.
A CASA
A propriedade ficava afastada do centro de Blackwood.
A estrada era estreita.
As árvores cobriam parte do caminho.
Quando Alice chegou, ficou alguns segundos dentro do carro.
A casa era enorme.
Antiga.
Escura.
Tinha três andares e janelas altas.
A pintura estava descascada.
Parte do jardim havia sido tomada pelo mato.
Alice pegou sua câmera.
— Vamos lá.
Ela desceu.
O portão estava destrancado.
Isso a incomodou.
A propriedade estava oficialmente abandonada.
Então por que alguém teria deixado o portão aberto?
Ela entrou.
Cada passo produzia um pequeno som sobre as folhas secas.
A porta principal estava aberta.
Alice parou.
— Isso não estava no e-mail.
Entrou.
O cheiro de madeira antiga tomou conta do ambiente.
Ela começou a fotografar.
Sala.
Escadaria.
Corredor.
Janelas.
Quadros.
Tudo.
Até encontrar uma fotografia antiga pendurada na parede.
Alice aproximou-se.
Era uma fotografia de família.
Ela conhecia alguns rostos.
Blackwood.
Mas havia algo estranho.
Uma mulher havia sido parcialmente retirada da fotografia.
Como se alguém tivesse tentado arrancá-la.
Alice fotografou.
Depois continuou.
O SEGUNDO ANDAR
Alice subiu as escadas.
Cada degrau rangia.
Ela chegou ao corredor.
Havia quatro portas.
Três estavam abertas.
Uma estava trancada.
Alice fotografou a porta.
Então percebeu algo escrito na madeira.
Uma pequena marca.
Dois riscos cruzados.
Ela passou os dedos sobre a marca.
Sentiu um arrepio.
Era exatamente o mesmo símbolo que havia visto em um arquivo antigo da família.
Ela fotografou.
Depois continuou.
O quarto mais ao fundo parecia ter sido preservado.
Uma cama.
Um armário.
Uma escrivaninha.
Brinquedos antigos.
Alice aproximou-se.
Um pequeno carrinho de madeira estava sobre a mesa.
Ao lado dele havia uma fotografia.
Ela pegou.
Um menino.
Negro.
Cabelo cheio.
Sorrindo.
Alice reconheceu imediatamente.
Liam.
Mas ele parecia ter aproximadamente dez anos.
Ela virou a fotografia.
Não havia data.
Apenas uma palavra escrita atrás.
"Proteja-o."
Alice sentiu um desconforto.
— Quem escreveu isso?
Um barulho veio do corredor.
Ela se virou.
Nada.
— Tem alguém aí?
Silêncio.
Alice colocou a fotografia de volta.
Pegou a câmera.
E continuou fotografando.
O QUARTO
Ela entrou no último cômodo.
Era um escritório.
Havia documentos antigos espalhados sobre uma mesa.
Alice não deveria mexer neles.
Mas algo chamou sua atenção.
Um arquivo com uma etiqueta:
PROJETO BLACKWOOD.
Ela ficou imóvel.
Não abriu.
Ainda.
Primeiro fotografou.
Depois fotografou novamente.
E então ouviu um barulho.
Um clique.
Como se alguém tivesse acabado de tirar uma fotografia.
Alice virou rapidamente.
Nada.
Seu coração começou a acelerar.
Ela pegou o celular.
Sem sinal.
— Ótimo.
Guardou novamente.
Foi até a janela.
A cortina se mexeu.
Alice segurou a câmera com força.
Aproximou-se.
E então viu.
Uma figura.
Do outro lado do jardim.
Um homem.
Parado.
Observando a casa.
Alice levantou a câmera.
Ajustou o foco.
Tirou uma fotografia.
O homem virou o rosto.
Ela ampliou a imagem.
Seu coração parou.
Era Liam.
QUINZE ANOS ANTES
Alice não sabia.
Mas aquela mesma casa guardava uma lembrança que Liam tentava esquecer.
Ele tinha dez anos.
Estava sentado no chão do corredor.
Sua mãe estava ajoelhada diante dele.
— Escute o que vou dizer.
— Mãe...
— Não interrompa.
Ela segurou o rosto dele.
— Existem pessoas nesta cidade que fariam qualquer coisa para conseguir o que querem.
— Quem?
Evelyn olhou para o corredor.
— Não importa.
— Importa sim.
Ela respirou fundo.
— Se alguma coisa acontecer comigo...
Liam começou a chorar.
— Não vai acontecer.
Ela sorriu.
Mas era um sorriso triste.
— Se acontecer, você precisa continuar.
— Continuar o quê?
Ela tocou o peito dele.
— Sendo você.
— Eu não entendo.
— Um dia vai entender.
Passos surgiram no corredor.
Evelyn levantou rapidamente.
— Vá para o quarto.
— Mas...
— Agora.
Liam correu.
Antes de entrar no quarto, olhou para trás.
Sua mãe estava parada no corredor.
E havia outra pessoa atrás dela.
Uma pessoa que ele não conseguiu identificar.
PRESENTE
Alice voltou para a fotografia.
Liam estava no jardim.
Mas havia algo estranho.
Ela ampliou.
Ele não estava olhando para a câmera.
Estava olhando para uma janela.
A mesma janela do segundo andar.
A janela do quarto onde ela estava.
Alice sentiu o coração bater mais rápido.
— Ele sabia que eu estava aqui?
Ela olhou novamente para a fotografia.
Liam não estava sozinho.
Havia uma sombra atrás dele.
Alice aproximou a imagem.
A sombra parecia ser de uma mulher.
Ela ampliou novamente.
O rosto apareceu.
Alice ficou sem respirar.
Conhecia aquela mulher.
Tinha visto seu rosto em documentos antigos.
Evelyn Blackwood.
A mulher que, segundo todos os registros oficiais, estava morta ou desaparecida havia quinze anos.
Alice deu um passo para trás.
— Não...
Ela olhou pela janela.
Liam havia desaparecido.
UMA SEGUNDA FOTOGRAFIA
Alice voltou para a mesa.
Abriu a gaveta.
Encontrou um envelope.
Sem nome.
Sem data.
Dentro havia três fotografias.
A primeira mostrava Evelyn.
A segunda mostrava Liam criança.
A terceira mostrava Yasmin.
Alice ficou paralisada.
Yasmin aparecia ao lado de Liam.
Os dois eram crianças.
Estavam sorrindo.
Mas a fotografia havia sido tirada naquela mesma propriedade.
Alice virou.
No verso estava escrito:
"Eles não podem se lembrar."
Ela leu novamente.
Eles não podem se lembrar.
Por que alguém teria fotografado duas crianças?
E por que queria impedir que elas lembrassem?
Alice sentiu que havia encontrado algo muito maior do que imaginava.
Pegou as três fotografias.
Colocou dentro da bolsa.
Então ouviu o telefone tocar.
Número desconhecido.
Ela atendeu.
— Alô?
Silêncio.
— Quem está falando?
Nada.
Alice olhou para a porta.
— Se isso for alguma brincadeira...
Uma voz masculina respondeu:
— Você deveria ter deixado as fotografias onde estavam.
Alice congelou.
— Quem é você?
— Alguém que está tentando evitar que você morra.
— O que você quer?
— Que pare de fotografar.
— Por quê?
Silêncio.
Então a voz respondeu:
— Porque algumas imagens têm o poder de destruir famílias.
A ligação terminou.
Alice ficou olhando para o celular.
Depois para as fotografias.
Ela sabia que deveria devolvê-las.
Sabia que deveria esquecer.
Mas havia uma coisa que ela aprendeu trabalhando como fotógrafa:
quando alguém tenta desesperadamente esconder uma imagem, geralmente existe uma história atrás dela.
E Alice queria descobrir qual.
LIAM E A FOTOGRAFIA
Naquela tarde, Liam entrou em uma cafeteria.
Ethan estava sentado esperando por ele.
— Você demorou.
Liam sentou.
— Tive coisas para resolver.
Ethan observou o amigo.
— Você está estranho.
— Estou sempre estranho.
— Mais que o normal.
Liam não respondeu.
Ethan apoiou os braços sobre a mesa.
— É a Yasmin?
Liam olhou para ele.
— Não se mete.
Ethan riu.
— Então é.
— Não é da sua conta.
— Talvez não.
Ele ficou sério.
— Mas você precisa tomar cuidado.
Liam franziu a testa.
— Com o quê?
— Com aquilo que você está fazendo.
— Você não sabe o que estou fazendo.
— Conheço você há tempo suficiente.
Liam ficou em silêncio.
Ethan continuou:
— Quando você começa a se importar com alguém, você fica pior.
— Pior?
— Mais controlador.
Liam desviou o olhar.
— Eu consigo controlar isso.
Ethan soltou uma pequena risada.
— Você sempre diz isso.
— Dessa vez é diferente.
— Por quê?
Liam demorou alguns segundos.
— Porque é ela.
Ethan percebeu que havia algo naquela resposta que não era apenas atração.
Era medo.
— Você ainda gosta dela.
Liam olhou pela janela.
— Nunca deixei de gostar.
YASMIN
Yasmin estava no quarto quando recebeu outra mensagem.
Dessa vez não havia texto.
Apenas uma fotografia.
Ela abriu.
Era ela.
Conversando com Aurora naquela manhã.
Yasmin sentiu o estômago revirar.
Alguém estava seguindo-a.
Ela ampliou a fotografia.
Ao fundo havia uma pessoa.
Um homem.
Boné.
Rosto escondido.
Ela salvou a imagem.
Depois recebeu outra mensagem.
"Agora você entende por que Liam quer que você pare?"
Yasmin ficou imóvel.
Então respondeu:
"Quem é você?"
A resposta demorou.
Um minuto.
Dois.
Três.
Finalmente:
"Alguém que conheceu Liam antes de você."
Yasmin sentiu um arrepio.
Digitou:
"Quem?"
A resposta veio:
"Pergunte a ele quem estava na janela naquela noite."
A mensagem desapareceu.
Yasmin arregalou os olhos.
Ela tentou tirar uma captura.
Não conseguiu.
A conversa inteira havia desaparecido.
Como se nunca tivesse existido.
O PASSADO DE YASMIN
Naquela noite, Yasmin voltou ao antigo jardim.
Não contou para ninguém.
Sentou-se perto da árvore.
Passou a mão sobre a marca que ela e Liam haviam feito.
E então lembrou.
Liam criança.
Ele sorrindo.
O cabelo bagunçado.
A maneira como sempre inclinava a cabeça quando queria entender alguma coisa.
E uma coisa que ela nunca havia esquecido:
Liam nunca dizia "tchau".
Quando precisava ir embora, dizia:
"Até depois."
Porque acreditava que "tchau" significava que talvez não voltassem.
Yasmin sorriu tristemente.
— Você ainda faz isso?
Uma voz respondeu atrás dela.
— Faço o quê?
Ela virou.
Liam estava ali.
Yasmin levantou.
— Você sempre dizia "até depois".
Ele ficou surpreso.
— Você lembra disso?
— Lembro.
Ele sorriu.
Dessa vez, um sorriso verdadeiro.
Pequeno.
Quase imperceptível.
Mas era o mesmo sorriso da infância.
Yasmin sentiu o peito apertar.
— Você mudou.
— Todos mudam.
— Não completamente.
Liam ficou olhando para ela.
— Você também não.
— Como sabe?
— Porque ainda mexe no cabelo quando está nervosa.
Yasmin imediatamente levou a mão aos cachos.
Parou.
Liam sorriu.
— Ainda faz.
Ela ficou sem graça.
— Você lembra?
— De tudo.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então Yasmin perguntou:
— Liam...
— O quê?
— O que aconteceu naquela noite?
O sorriso desapareceu.
— Não aqui.
— Por quê?
Ele olhou para a árvore.
— Porque alguém pode estar ouvindo.
Yasmin sentiu um arrepio.
— Você está dizendo que estamos sendo observados?
Liam olhou para ela.
— Estou dizendo que precisamos ir embora.
Antes que Yasmin pudesse responder, Liam percebeu algo preso entre as raízes da árvore.
Um pequeno pedaço de papel.
Ele se abaixou.
Pegou.
Abriu.
Seu rosto mudou.
— O que foi? — perguntou Yasmin.
Liam não respondeu.
Ela tentou ver.
Ele fechou o papel.
— Liam.
— Nada.
— Você acabou de mentir.
Ele olhou para ela.
— Eu sei.
Yasmin cruzou os braços.
— Então me conte.
Liam respirou fundo.
— Alguém sabe sobre a nossa promessa.
— Quem?
Ele olhou para a floresta escura.
— Essa é a pergunta que eu venho tentando responder há quinze anos.
Um galho quebrou ao longe.
Os dois olharam na mesma direção.
Não havia ninguém.
Mas, atrás de uma árvore distante, uma câmera registrava tudo.
Uma fotografia.
Depois outra.
E outra.
Na última imagem, Liam e Yasmin apareciam lado a lado.
No canto inferior da fotografia, uma mão segurava uma caneta.
E escrevia:
"Eles começaram a lembrar."
Thoughts
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PermalinkMas Evelyn tá ali com ele agora? Quanto tempo ela ficou desaparecida?
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PermalinkParece que Liam foi deixado ali pra guardar a casa ou proteger algo. Aí quando aparece a fotógrafa ele tira os olhos dela na mesma hora pra não ser visto.
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PermalinkLiam olhando pra janela enquanto Alice está ali dentro. Ele sabe que ela veio.
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PermalinkQue volta dada em Alice quando ela viu o rosto. Deve ter congelado ali mesmo.