Sempre me julguei um bom observador, e tal qualidade me era honrosa. Contudo, percebo que a rotina acaba com as práticas mais agradáveis. Melhor dizendo: a tirania do urgente. É assim que chamam isso, e, ao nos roubar o tempo, rouba-nos juntamente com ele a própria vida. Percebo isso pelas vezes em que me esqueço se é terça ou quarta-feira, ou há quantas horas estou preso a determinado projeto.
Outro dia, porém, trabalhando até mais tarde — como de costume —, fui até o refeitório da empresa, de onde avistei a lua cheia no céu. Há quanto tempo eu não parava para observá-la! Por acaso era também uma sexta-feira e, num estalo, lembrei-me das brincadeiras sobre lobisomem, de ser aquele o momento apropriado para cortar o cabelo e as unhas, e do aviso para prestar atenção às grávidas de plantão, pois seria quando os bebês viriam à luz. Quando olhei novamente para o céu, duas fases da lua já haviam passado sem que eu visse nenhuma delas. Para quem cresceu observando as estrelas, esquecer aquilo mostrava o quão afastado eu estava das minhas paixões da juventude.
No fim, não cortei o cabelo e tampouco me atentei para as notícias de nascimentos na família. Aliás, há muito ficou para trás o tempo em que eu era um dos primeiros a saber de tais novidades. Onde foi que deixei tudo isso de lado? Onde deixei de ser presente e parte da vida de irmãos, primos e amigos? A última vez de que me lembro de tê-los por perto foi na festa de comemoração da minha formatura. Depois disso, os contatos foram ficando cada vez mais casuais e breves. Por fim, restaram apenas algumas ligações para me felicitar pelo ingresso em uma das maiores empresas da região — e, quando mudei de cidade, penso que mudei também de família.
Hoje, são apenas lembranças arquivadas, incapazes de concorrer com as inúmeras informações que me chegam a todo momento. Onde foi exatamente que me perdi? Talvez refazer o caminho inverso até a última lembrança me ajude a descobrir. Eu fazia isso quando criança, quando esquecia o troco do pão em algum canto da cozinha. E por falar em cozinha, olhar para aquele copo de isopor com café expresso de máquina trouxe-me à mente o cheiro do café fresquinho da vovó, passado no coador de pano e posto sobre uma mesa rústica entre leite e queijo igualmente novos, manteiga, torradas de pão amanhecido e um bolo de milho recém-saído do forno. Era uma das poucas coisas que nos tiravam das nossas brincadeiras.
E, por falar nisso, ver o esforço dos meus colegas de trabalho planejando comprar videogames de última geração para os filhos me faz perceber quão ricas eram as nossas brincadeiras, sem que nenhum brinquedo elaborado fosse necessário. Na velha goiabeira inclinada sobre o lago, ensaiávamos saltos mortais que sempre terminavam em barrigadas. Disputávamos quem se equilibrava por mais tempo sobre a cerca do vizinho português — uma das poucas feitas com mourões de madeira que, embora não servissem para isso, viravam trilha para os meninos arteiros. Vez ou outra, ele mandava o filho, que tinha a nossa idade, pedir que parássemos. O menino sempre aparecia engomadinho, mas acabava caindo na farra e se sujando todo com a terra vermelha dos nossos terreiros.
Num piscar de olhos, surgiam lembranças das fogueiras de São João, das quermesses regadas a quentão, vinho quente, doces, pipoca e pau de sebo; dos constantes arranca-rabos nos jogos de futebol aos fins de semana; dos breves namoros com as garotas mais cobiçadas da cidade. Acho que posso atribuir a culpa pelo meu afastamento desse ritmo de vida ao meu tio. Foi vendo-o consertar o velho trator que comecei a me interessar por mecânica. De tanto acompanhar o monta e desmonta e segurar as peças daquele motor, acabei decorando seus mecanismos de cabo a rabo. E o que me salvou de ser apenas o mecânico local foi a amizade com o filho do prefeito, que me rendeu uma bolsa de estudos na faculdade recém-chegada à cidade vizinha.
Percebo agora onde comecei a deixar meu velho e bom mundo para trás. Apaixonado pela nova profissão, realizei proezas jamais imaginadas por meus pais e ajudei a equipar o nosso interior com máquinas modernas, guiadas por GPS e com cabines climatizadas. Isso foi, em parte, bom; em parte, triste, pois já não se veem os trabalhadores sazonais colorindo os campos na época da colheita. Outros fenômenos nocivos das grandes cidades também contaminaram o interior. Os cavalos bem arreados dos boiadeiros deram lugar a motos cortando o poeirão do pasto. Os móveis rústicos das casas simples viraram artigo de luxo para ricos excêntricos. Os bons e velhos caipiras hoje decoram as salas com móveis planejados, e as paredes caiadas cederam espaço às tintas texturizadas. A taipa de pilão virou peça de museu, e pouquíssimos fogões a lenha ainda sobrevivem em uso diário.
Num estalo, o copo de isopor escorregou entre meus dedos, trazendo-me de volta à realidade. Lá estava eu, em um endereço cobiçado por muitos engenheiros, com o diploma pendurado na parede do escritório, traçando o futuro para abastecer a vida dos meros mortais. E, como imortais que têm nas mãos o curso da história, sentávamo-nos diante de computadores imponentes, esboçando neles as nossas ideias mais arrojadas. Esquecíamo-nos, porém, de que a vida acontece lá fora — de que estar frente a frente com a natureza, de pés descalços e mãos nuas, é o momento em que realmente vivemos as maiores aventuras. O excesso de erudição não raro nos cega, e o sucesso muitas vezes se transforma em grades de uma prisão invisível aos olhos, onde entregamos sangue e alma para alimentar um mundo que sequer sabe para onde quer ir.
De súbito, meus olhos se abriram após aquela tempestade de lembranças e reflexões. Consegui enxergar as correntes que me prendiam os punhos e os tornozelos, mas percebi também as chaves ao meu alcance, à distância de uma simples decisão. Sem medir consequências nem olhar para trás, desatei-me e pus-me a caminho da minha libertação. Os colegas, sem se darem conta do que acontecia, perguntaram-me perplexos:
— Para onde vai? Esqueceu que há muito a fazer e que o projeto não pode esperar?
Ao que, sem me voltar para eles e firme em meus passos, respondi:
— O futuro pode muito bem esperar, e já há gente demais cuidando dele. O presente, porém, acaba a cada pôr do sol, e o de hoje não veremos novamente amanhã.