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Eloquencia da Fome - Parte 1
Na Torre de Ceres, uma equipe de filmagem estava posicionada na sala de mármore. O cenário estava montado. Era uma entrevista ao vivo.
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Eloquência da Fome
Na Torre de Ceres, uma equipe de filmagem estava posicionada na sala de mármore. O cenário estava montado. Era uma entrevista ao vivo.
A equipe estava nervosa. Nunca haviam visto a Grande Mãe pessoalmente. Aguardavam, ansiosos, a sua chegada.
Na sala principal estavam Luz, Ysa, Amós e Koee, atrás da equipe, acompanhando tudo entre monitores e luzes de estúdio. A entrevista seria transmitida ao vivo, em horário nobre, para toda a República de Fiúme, com tradução instantânea para a língua local.
Al Acram estava ali como jornalista. Desta vez, porém, não poderia entrevistá-la. Sua aparência não era considerada jovial o bastante e a emissora havia mudado o entrevistador de última hora. Mãe Ceres soube da mudança e fez questão de que fosse ele.
Ainda assim, seria uma entrevista firme, transmitida para quase todo o continente.
Atrás de tudo, através dos enormes painéis de vidro, havia uma visão de Ceres: uma cidade que funcionava quase como um relógio. Trens passavam ao fundo, silenciosos. A acústica da sala era tão perfeita que até os menores sons pareciam adquirir a dimensão de um trovão.
Até então, havia apenas o burburinho da equipe.
Então, ela apareceu.
Mãe Ceres estava sem sua coroa, sem a tiara de cristal. Vestia uma roupa executiva, coberta por um véu cinza-escuro, e usava sua máscara ovalada.
Seus passos eram leves, silenciosos, quase felinos.
O burburinho morreu.
Ninguém precisou pedir silêncio.
A presença dela simplesmente o impôs.
Por alguns segundos, ninguém se moveu.
Era como se uma entidade tivesse entrado na sala.
E, naquele instante, uma entrevista deixou de parecer uma entrevista.
A equipe inteira permaneceu séria, quase catatônica, em absoluto silêncio.
Koee sorria, inocente, como se aquela situação fosse perfeitamente normal.
Amós suspirou, entediado com o comportamento da equipe.
Ysa mantinha o queixo acima do horizonte, orgulhosa.
Mãe Ceres olhou para todos por alguns segundos.
Percebeu o efeito que havia causado.
Então, quebrou o silêncio:
— Boa noite, meus filhos. Sejam bem-vindos a Ceres. Todos se alimentaram? Estão confortáveis? Não quero ninguém com fome aqui!
Aquilo nem parecia uma entrevista.
Ninguém sabia como reagir.
Então, um repórter mais jovem se aproximou.
— Boa noite, Mãe Ceres. Eu sou Hermes Render.
Ele estendeu a mão.
Mãe Ceres também.
Hermes apertou com força.
Forte demais.
Ela percebeu imediatamente.
— Meu filho... com todo respeito, por que essa força toda? — disse, olhando para a mão dele. — Sei que está bem alimentado... Mas me chame de Mãe. Assim fica mais fácil, né?
Hermes ficou vermelho.
Mãe Ceres percebeu o constrangimento.
— Estou brincando. Desculpe se fui muito espirituosa.
A sala inteira caiu na risada.
Até quem tentava manter a postura.
Hermes também riu, sem saber exatamente onde enfiar a cara.
A entrevista ainda nem tinha começado.
Um jovem da equipe se aproximou, gaguejando um pouco.
— Senhora Mãe Ceres... posso colocar o microfone de lapela?
— Sim, meu filho. Deve. E me chame de Mãe, sem problemas.
Ele assentiu, ainda nervoso.
Precisaria tocar nela.
Era apenas um microfone sem fio, preso entre as roupas. Um procedimento profissional que ele já havia feito centenas de vezes.
Mas aquela não era qualquer pessoa.
Enquanto levantava cuidadosamente o fio, Mãe Ceres percebeu o nervosismo do rapaz. Segurou sua mão.
— Pode me tocar. Não tenha medo. Sou de carne e osso, como você, meu filho.
Ele ficou atordoado.
Tinha acabado de tocar uma chefe de Estado. A mulher mais temida e adorada do planeta.
A Nossa Senhora da Fome.
A mulher que havia destruído a Omni Opus com um gesto que nem ela própria sabia controlar.
E ele simplesmente... tocou nela.
— Fique tranquilo. Está tudo bem.
O rapaz assentiu e se afastou.
Sentou-se em sua cadeira, ainda meio incrédulo, e começou a equalizar o áudio, inquieto, fingindo que aquilo era apenas mais um trabalho.
Hermes apontou para o lugar onde Mãe Ceres deveria se sentar.
— Aqui, né?
Ela olhou para a cadeira.
— Sim, Mãe.
Hermes percebeu o que havia dito.
Mãe Ceres sorriu por trás da máscara.
A entrevista ainda não tinha começado.
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