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Domínio de sala de aula
Domínio de sala de aula: quando a responsabilidade da família e do Estado é colocada sobre o professor
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Domínio de sala de aula: quando a responsabilidade da família e do Estado é colocada sobre o professor
Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal
Existe uma expressão que, de tanto ser repetida no cotidiano educacional, parece ter adquirido status de verdade absoluta: “o professor precisa ter domínio de sala de aula”. Em princípio, ninguém questionaria a importância de um ambiente organizado, respeitoso e favorável à aprendizagem. O problema começa quando essa expressão passa a ser utilizada como uma espécie de explicação universal para tudo aquilo que não funciona dentro da escola.
Quando um estudante não respeita regras, agride colegas, desafia professores, interrompe constantemente as aulas, não realiza atividades ou apresenta comportamentos incompatíveis com a convivência escolar, muitas vezes a primeira pergunta dirigida ao professor é: “Mas você não tem domínio de sala?”
Eis uma inversão perigosa: transforma-se um problema social, familiar, institucional e, em determinados casos, estrutural, em uma suposta incompetência individual do professor.
Domínio não é controle absoluto
É preciso compreender que domínio de sala de aula não significa poder absoluto sobre os estudantes. O professor não é policial, psicólogo, assistente social, médico, juiz, conselheiro tutelar e, muito menos, substituto da família.
Seu papel é ensinar.
É evidente que o professor precisa desenvolver estratégias pedagógicas, estabelecer combinados, organizar rotinas, criar vínculos, utilizar metodologias adequadas e administrar conflitos. Isso faz parte de sua competência profissional. Entretanto, há limites objetivos para aquilo que pode ser resolvido exclusivamente pela ação docente.
Como lembra Paulo Freire, “ensinar não é transferir conhecimento”, mas criar possibilidades para sua construção. A educação, portanto, pressupõe relação, diálogo, participação e responsabilidade compartilhada.
Não se pode exigir do professor que construa sozinho aquilo que deveria ser resultado de uma rede de responsabilidades.
A família também educa
A escola não deveria receber diariamente crianças e adolescentes para começar, do zero, a ensinar princípios elementares de convivência humana.
Respeitar o outro, compreender limites, ouvir quando alguém fala, cuidar do patrimônio coletivo, reconhecer a autoridade pedagógica do professor, cumprir determinados deveres e compreender que existem consequências para determinadas atitudes são aprendizagens que também passam pela família.
A escola complementa a educação familiar; não deveria ser convocada a substituí-la.
Quando alguns responsáveis deixam exclusivamente para a escola a tarefa de estabelecer limites, acompanhar tarefas, orientar comportamentos e ensinar princípios básicos de convivência, cria-se uma sobrecarga que inevitavelmente chega ao professor.
E quando esse professor não consegue resolver sozinho aquilo que deveria ser compartilhado, surge a acusação: “falta domínio de sala”.
O Estado também possui responsabilidades
Mas seria igualmente simplista colocar toda a responsabilidade sobre as famílias.
O Estado também tem deveres. Uma educação pública de qualidade exige políticas permanentes, formação continuada, valorização profissional, equipes multiprofissionais, infraestrutura adequada, gestão eficiente, acompanhamento pedagógico e mecanismos de proteção à criança e ao adolescente.
A própria Constituição Federal estabelece, no artigo 205, que:
> “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade.”
A frase é suficientemente clara: a educação não é dever exclusivo do professor.
Se é dever do Estado e da família, por que, diante dos problemas escolares, a responsabilidade costuma desembocar quase sempre sobre a figura docente?
A longa conta que chega ao professor
Há situações em que o professor entra em sala de aula carregando uma conta que não foi ele quem produziu.
Recebe estudantes que passaram horas diante das telas, que dormiram pouco, que não tiveram acompanhamento familiar, que chegam sem rotina de estudos, sem limites, sem materiais, sem alimentação adequada ou submetidos a diferentes situações de vulnerabilidade.
Recebe também estudantes com dificuldades de aprendizagem que não foram identificadas ou acompanhadas adequadamente, problemas emocionais que demandam atenção especializada e conflitos sociais que ultrapassam os muros da escola.
E, ainda assim, espera-se que, em aproximadamente cinquenta minutos de aula, o professor resolva tudo.
Ensine. Motive. Discipline. Acolha. Medie conflitos. Identifique transtornos. Faça inclusão. Recupere aprendizagens. Combata a violência. Previna o bullying. Desenvolva competências socioemocionais. E, acima de tudo, tenha “domínio de sala”.
É uma expectativa desproporcional.
O professor não pode ser responsabilizado por tudo
A crítica ao professor pode e deve existir quando houver negligência profissional, falta de planejamento, práticas pedagógicas inadequadas ou ausência de compromisso com a aprendizagem. Defender o professor não significa transformá-lo em alguém acima de qualquer avaliação.
Mas também é necessário reconhecer quando determinadas situações ultrapassam sua esfera de atuação.
Henry Giroux, ao discutir o papel dos professores, compreende a docência como uma prática intelectual e política, e não simplesmente como execução mecânica de tarefas. Essa perspectiva é importante porque devolve ao professor sua condição de profissional que pensa, planeja, interpreta e intervém pedagogicamente.
Entretanto, profissionalismo não significa onipotência.
O professor pode administrar uma sala; não pode controlar completamente as circunstâncias que cada estudante traz consigo.
Quando “domínio de sala” vira culpabilização
A expressão torna-se problemática quando é utilizada para silenciar o debate sobre as condições concretas de trabalho.
Se uma turma apresenta níveis elevados de indisciplina, a pergunta não deveria ser apenas:
“O professor tem domínio?”
Também deveríamos perguntar:
* Como está a participação das famílias?
* Existem regras claras e coletivamente construídas?
* A escola possui equipe de apoio?
* Há acompanhamento pedagógico?
* Existem profissionais para atender situações que extrapolam a competência docente?
* Como ocorre a relação entre escola e comunidade?
* O estudante possui acompanhamento familiar?
* Há políticas públicas de prevenção à violência?
* A escola possui condições adequadas de funcionamento?
* O professor é ouvido quando relata situações recorrentes?
Essas perguntas deslocam o debate da culpabilização individual para a responsabilidade compartilhada.
A autoridade do professor precisa ser construída e respeitada
O professor precisa, sim, exercer autoridade pedagógica. Mas autoridade não deve ser confundida com autoritarismo.
Paulo Freire nos ensina que autoridade e liberdade não precisam ser inimigas. A autoridade docente pode existir dentro de uma relação democrática, respeitosa e dialógica.
O problema aparece quando se exige do professor autoridade, mas não se oferece respaldo institucional para exercê-la.
Não se pode exigir que o professor seja respeitado apenas porque está diante de uma turma. É necessário que a instituição escolar, a família e as políticas educacionais também reconheçam e sustentem sua autoridade pedagógica.
Professor desautorizado pela família, pela gestão ou pela própria estrutura institucional dificilmente conseguirá construir sozinho a autoridade necessária ao processo educativo.
O estudante também precisa ser responsabilizado
Há outro aspecto que frequentemente desaparece desse debate: a responsabilidade do próprio estudante.
Educar não significa retirar do aluno toda responsabilidade por suas escolhas.
Crianças e adolescentes precisam ser protegidos, orientados e educados, mas também precisam aprender progressivamente que seus atos produzem consequências.
Uma escola democrática não é uma escola sem regras. Liberdade não significa ausência de limites.
Como escreveu Paulo Freire, “a liberdade amadurece no confronto com outras liberdades”. A convivência escolar, portanto, exige direitos, mas também responsabilidades.
A pergunta precisa mudar
Talvez esteja na hora de abandonar a pergunta simplista:
“Por que esse professor não tem domínio de sala?”
E substituí-la por outra, muito mais honesta:
“O que está acontecendo com essa comunidade escolar e quais responsabilidades precisam ser assumidas pela família, pela escola, pelo Estado e pelo próprio estudante?”
Essa mudança de pergunta muda também o diagnóstico.
Porque, muitas vezes, o problema não é a ausência de domínio de sala. É a ausência de uma rede de sustentação da autoridade pedagógica e da aprendizagem.
O professor pode ser excelente e, ainda assim, enfrentar uma realidade extremamente complexa.
Pode dominar metodologias, conhecer sua disciplina, planejar aulas, estabelecer vínculos e utilizar diferentes estratégias pedagógicas e, mesmo assim, encontrar limites diante de problemas que não são exclusivamente pedagógicos.
Conclusão
Talvez “domínio de sala de aula” seja uma expressão que, em determinadas circunstâncias, foi criada para colocar sobre os ombros do professor uma responsabilidade que deveria ser dividida entre muitos.
A escola não pode ser depósito das responsabilidades que a família não assumiu.
O professor não pode ser o responsável por compensar todas as falhas das políticas públicas.
A família não pode transferir integralmente para a escola aquilo que também lhe compete.
E o Estado não pode exigir resultados extraordinários sem oferecer condições extraordinárias para que eles aconteçam.
A educação é uma construção coletiva.
Quando a família falha, a escola sente. Quando o Estado falha, a escola sente. Quando as políticas educacionais falham, o professor sente. E, muitas vezes, quando tudo chega à sala de aula, alguém simplesmente olha para o professor e diz: “Está faltando domínio de sala”.
Talvez esteja faltando outra coisa.
Está faltando compreender que nenhum professor, por mais competente que seja, consegue educar sozinho uma sociedade inteira.
Como afirma a Constituição Federal, educação é dever do Estado e da família. O professor é parte fundamental desse processo, mas não pode ser transformado em seu único responsável.
Domínio de sala é competência docente. Educar é responsabilidade coletiva. E responsabilizar exclusivamente o professor pelos fracassos da educação é, muitas vezes, apenas uma maneira conveniente de esconder responsabilidades que deveriam ser compartilhadas.
Professor Edson Carlos de Sousa Leal – Educar para Transformar.
Thoughts
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PermalinkPá, a ideia de entrar na sala já a pagar uma conta que outros fizeram ficou-me na cabeça. Nunca tinha pensado nisto assim.
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PermalinkTrês citações do Freire e uma da Constituição no mesmo texto. Usa alguma delas quando a conversa é ao vivo com um pai?
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PermalinkVisse, li aquela lista de cinquenta minutos e já cansei só de ler. E ainda tem prova pra corrigir depois.
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Permalinkmano, no suporte é igual. o chamado explode e a pergunta que sobra é se eu não soube contornar
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PermalinkEpá, sala calada e sala a aprender são coisas diferentes. Passei anos calado a copiar apontamentos sem perceber nada, e ninguém achou que faltasse domínio ali.
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PermalinkVish, no meu colégio a gente sabia qual professor ia levar bronca da coordenação e agia de acordo. Aluno de quinze anos entende hierarquia melhor do que muita gente admite. Isso já era assim aí ou piorou?
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PermalinkNo escritório é o mesmo movimento com outro nome. Quando um processo falha, a reunião procura quem deixou passar, nunca quem desenhou o processo assim. Nomear uma pessoa sai mais barato que mexer na estrutura.
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PermalinkAquela lista de ensine, motive, discipline, acolha me deu um frio na barriga. É a lógica da minha agenda lotada, uai: aceita tudo, não faz nada direito e ainda parece que o problema é você.
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PermalinkA parte sobre responsabilizar o próprio aluno é a que menos se ouve em voz alta. Tive um professor que dizia isso na primeira aula e ficou logo com fama de antiquado. Aconteceu-lhe o mesmo?
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PermalinkA pergunta sobre regras construídas em conjunto é a que resolve mais coisa. Na república foi igual: enquanto a regra era do dono da casa, ninguém cumpria. Virou combinado escrito e o gás parou de acabar sem aviso.