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do vento ao verbo (conto) Sensível

Aviso de conteúdo: violência, sexo e linguagem explícita.

ilyum

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já estava descalço quando pisei fundo na lama areia perfundido entre meus dedos já sem unhas e rapidamente inundou meu calcanhar nu. mal vestia roupas e meus seios apontavam em direção ao horizonte negro. mas podia ouvir som e sentir gosto na boca de metal molhado no céu da língua, meus dentes mastigavam com desejo. nas mãos eu carregava uma pequena estatueta oca de dona Janaína com as cinzas de meu irmão.

a música no fundo era pesada e sintetizada, batizada do elétrico e dança bateria monotemática e divindade nas pistas

nua, senti o sol passar pelo meu corpo todo esquentado quanto sangue que pintava lama.

tudo bem aí? perguntou o garoto.

entreguei a resposta em silêncio, já nem sabia por que estava ali.

você tá bem quieto, alguém falou alguma coisa pra ti?, som do escorrido natural do sulco humano escorria de seu corpo, tentei não olhar. já era profano o bastante.

não, mas por que tem lama aqui?

sei lá. ah, deve ser porque choveu, você não deve ter escutado mais cedo quando discorreu aqui. sua voz de bêbado enchia meu ouvido, os batuques estavam intensos. o som, barulho me acalmava - e eu precisava de calma. você deve acreditar em mim, tudo que eu queria era estar em paz.

naquele momento agarrei meus seios, os mamilos endurecidos pelo frio da brisa da água. não via, mas sabia que se houvesse areia o mar daria um jeito de parear junto. conchas cheiro bichos mortos ou semi-vivos o gosto salgado que fica na boca mesmo respirando nos seus ventos. essa parte é importante. o tecido leve de canga que cobria minha virilha era fechada numa espécie de braguilha de tecidos baratos e de certa forma hippie naquele complexo no meio do nada onde estava. ali, nas festas e dentre todas as substâncias não tinha nada para me parar.

das minhas mãos vi o desbotado no vestido azul; mãe, se me ouvir, desculpa por deixá-lo pelo vento. porque uma peça de cerâmica continha a maternidade fraternidade família ausência’ mar e solidão tão juntos de si?

Gustavo ao meu lado fechava a braguilha da calça jeans enquanto se esguelha. você parece malzão

é que meu irmão tá aqui dentro, falei

seus olhos esbulhados me tiraram um riso leve pena sumindo em direção ao nada atmosférico

sério?

sim

caralho, como assim?, com o pirulito de morango entre os dentes, sua pele branca áspera e desnuda no peito. para ser honesta, de início achei Gustavo ridículo, durante todos os outros três dias de covardia e adiantamentos me seguia como cão onde quer que fosse. seus pés também enterrados na mistura esquisita aferrolhada de lama / areia, uma feiura natural anunciada.

natureza não significa beleza, lembrem-se disso quando for preciso lembrar de mim.

ele estava a alguns metros de mim, passou as mãos nas calças com vergonha e ergueu seu olhar como mira de arco sem flecha logo em mim, sem ponta, sem jeito, sem nada para dizer é o bastante. sua intensidade fez meus pés mudarem e estocarem a areia e a lama fazendo meus dedos sem unhas arderem

me diz seu nome, pelo menos vamos conversar. falar, falar um pouco. ele balbuciava um pouco. cedi, ele sequer lembraria de mim dali as horas adentro.

é meu irmão, as cinzas dele aqui dentro

e foi numa rave que decidiste espalhar elas? quer dizer, sinto muito…

num instante daquela minha loucura-insanidade-anormalidade assistida, aquela voz tão alterada atraiu um charme sem nome ao garoto, Gustavo seu nome

é como dizem, é como dizem, meninos serão meninos... até morrerem.

por deus, isso é horrível. ele disse, e achei que fosse finalmente se afastar de mim, mas não. meu corpo viraria de suspiro um novo sol onde o seu corpo era planeta.

o grave da música batia na garganta, falávamos alto.

perguntei, mais uma ação surreal, daquelas que fazemos quando tudo que poderia ocorrer, ocorreu.

vem comigo até o mar e me ajuda a espalhar meu irmão aos mares.

caminhamos pela areia moribunda com plásticos do mundo decorando-a. você é daqui mesmo?, irracionalmente racional Gustavo perguntou a Caminho perambulando no meu lado como um inseto. sob a luz da lua, madrugada me abençoava com a visão de um garoto em preto e branco, assim como eu, pois a escuridão nos deixa invisível do cromático livre das cores que marca. dali, daquele jeito não vi água azulada ou esverdeada muito menos as estrelas como pequenas gotículas de vidro perolado - somente a ele e sua silhueta esguia, a dona em meus braços a morada de meu irmão e as luzes atrás muito longe de nós. as pessoas dançavam ao ritmo do mais acelerado coração. eu em tarquinia taquicardia só de dizer adeus a alguém que não me faltava em vida. leu meus pensamentos, ele então quebrou o silêncio que amaciava o tempo. querido, me conte se não incomodar-te. quem é tu e seu irmão? qual seu nome afinal? já te contei palavra mas você veio morrer no mar, parece

me chame de Abel

um prazer viu?, te achei lindo. enfim, de onde és? percebi pelo jeito seu de falar que é de bem longe

sou de são paulo, mesmo

entendo, e a estátua?

de minha mãe que veio da mãe dela e etc. ela me mandou pra cá espalhar meu irmão para o vento

mas queria você aqui estar?

na verdade não. é um pouco incerto. mas não, não queria vir. ele era um homem complicado. éramos gêmeos, sabe?

mas não dizem por aí que vocês, gêmeos, deviam ser tão unidos como carne osso órgão?

você faz muitas perguntas, gustavo

eu sei, tô curioso

pois bem – agora estávamos na metade do caminho para as ondas – eu te digo se tiver um cigarro para mim

tenho, tenho sim. quero ouvir-te por alguma razão ainda desconhecida para mim.; do bolso da calça jeans, a mágica-e-encantada calças azuis batidas pelo tempo e derrotada pelo excesso. queria abrir o zíper ali e beijar da barriga até onde língua alcançasse< de lá tirou uma amarrotada caixa de marlboro, já pela metade. tem fogo? perguntei. assentiu com a cabeça, permitiu-me me esticar e catar dos dedos, pousou dentre meus dentes. a areia grudada nos dedos sem unhas pinicava airosamente numa sensação de cola e desgruda irritante.

agora, me conta

tudo bem, te conto tudo meu amor. se prepara. engoli em seco três dois um atirei boom.

éramos muito unidos durante todo o período que se demarcam a infância I e II. vestimos as roupas um do outro mas eu me tornei muito tímida a partir de certa idade-menina. já na puberdade ele queria ser um homem-feito, com vozeirão corpo postura e zombaria e riso causados pelas minhas na adolescência. homens, não, garotos correm como contra uma correnteza enormemente feroz e difícil apenas para conseguirem continuar em linha em perfeita criada, digitada, sincronia inviável e invisível, é um contrato onde todos eles num grande mar atropela a todas para continuarem a nadar. se tornam moldados imperfeitos predadores infelizes rapazes que brincam riem fazem piadas morrem de tédio e de tesão pelas garotas peitos seios e aversão ao masculino-macho-romance e diferença significativa no comportamento dos dele. são garotinhos assustados feito macho que caçam sem terem presas então eles riem de nós e de nós tentam nos matar. e meter. comer, fuder nos querem fuder e transar motivados - prontos para tudo! - para associar-se ao feminino feito é preciso ser um daqueles que já morreram, muitas vezes é repetição, sabe? um a um dois a dois, se um vai o outro vai junto, mesmo arrastado. e elas dão, eles comem assustadas suas carne mas também não querem que ela sangre, mas elas têm hemorragia, sangue em corrente desse mar aí na nossa frente. e sangra tanto que a expectativa é cristal tão fino… eles não têm coragem de dizer Não, Não gosto DISSO. e Gustavo, ouça. eles riem, riram, rirão diante do nosso sexo, devoção, sacrosexo e relação. do nosso corpo que também é deles vem as figuras forjadas nas carteiras de escolas e paredes de banheiro. e dentro, escondidos em casulos tão sujos e fedidos com cheiro forte bom às vezes, para muitos, de macho mijo gosto das intimidades o sabor do interior da casca, anti-higiênico, com o prefixo de ausência’: o banheiro, uma olhada de esguelha o corpo secreto muito conhecido por todo esse ecossistema vem ainda maior tesão dos iguais pois ela atrai pois assusta. e por assustar um novo sentimento nasce descontrolado, desmoralizando todo o seu sistema jardim plantado sem cuidado às pressas sistematicamente junto a outros centenas dezenas milhares e milhões de filhotes que por aí ficam. meu irmão, Gustavo, era um deles. falava-se tanto que tal um dava tal dois chupava que a buceta peito bunda cu de mulher era mero detalhe a ser resolvido mais tarde, somente às três da tarde. e eu me arrumava tanto para ser aplaudida e só davam risada. e nós, tão iguais de corpo assustava pelo feminino criado que era supostamente para o seduzir. ao me ver cru a seu espelho semelhança, não sobrava nada além do desgosto e ódio pois todos sabiam e viam que eu o era e ele era eu de jeito que nós não nos víamos. éramos versões paralelas um do outro, cada um a sua maneira de viver. entende?

perfeitamente, Abel. qual era o nome dele

felipe. era felipe. me diz Gustavo você me entende

muitíssimo, Abel querido. vivi nos cantos por tanto tempo, desde completar os sonhados 14, pelo menos. vivia no escuro em noites como essa no centro da cidade, sozinho pois ninguém conhecia meu avesso. comecei a fumar naquele ambiente. as árvores os arbustos as camisinhas, algumas usadas por mim ou pelo homem da vez e outras por outros homens e talvez mulheres. ficar só me alimentava como nenhuma comida jamais fez por mim. era maravilhoso ficar lá, sentado ou rodeando… só esperando por alguém vir, curioso, e puxar um papo. e logo cairia pra dentro de um banheiro ou atrás de um mato ou árvore grossa o bastante e fuderia. dentro fora, boca e mão. dedos e cuspe; perversão deliciosamente voraz. conheci de tudo que esse planeta e esta cidade poderia dar. eu também dei, dei tudo de mim para segundos do clímax que ousava tanto enquanto ouvia as mesmas palavras vezes e vezes. tinha tempos que confundiam as transas e se eu transasse novamente com o mesmo homem causava uma grande algazarra, já cheguei a apanhar então doía e eu pedia mais enquanto metiam. parei de transar com o mesmo depois de uma vez. daí parti pra cá e iniciei as noites de um outro jeito. as boates lugares pessoas a festa a dança o vogue, às vezes com músicas como esse hard techno que toca agora às vezes pop das garotas americanas experienciadas dotadas de desejo de adolescente que teve como permanecer num só lar. antes que pergunte, Abel, sou órfão criado no convento mais sujo dessa terra. comia estrume por vontade de sentir alguma coisa a não ser um desgaste primitivo e por aquelas pessoas que me cansavam, desesperos em mim e por mim. mas talvez eu realmente te entenda pois estudei num colégio só de garotos e vi tanto, e eu passivo ao mundo centrado no meu próprio orí que nem percebia, mas via e sentia quando olhavam pra minha bunda, ou apertavam em tom amigo seus pais, sentava no colo para rirem, duros como pedra pelo toque quente e desgraçadamente nojentos e mundo-feito e anticristo. nunca teve Cristo, mas crosta de sujeira tesão e gozo, porra mesmo. era porra que tinham, bebiam, sentiram. sentía.

então você era, ou ainda é, um michê?

não. nunca fui mas talvez parecesse pois sexo ainda assusta. nunca fiz em público além de arbustos e árvores, escondido pela penumbra grossa. nunca transei sem capa. tomo prep, faço testes. nunca sequer cobrei dinheiro ou recurso pelo meu corpo mesmo se precisei um dia do amparo. eu amo mesmo o toque entre os homens, seu sabor na ponta da língua, suas unhas me arranhando às costas de vez em quando num beijo. não ligo para o que pensam, era chamado de boquinha gulosa por alguns. ri tanto quando descobri através de um deles, um garoto de 20 e poucos. eu tinha 17, mais ou menos. ele era tão curioso e novato, risos, com tudo e todo esse afeto que transborda dois ou três ou quatro corpos. mas eram como atores, um dia que me contou desse nome piada apelido eu ri de cair, o que era raro. nesse dia ele foi um performer francês dos anos 30. novato, ele esfregou, me beijou e fumou, escondeu a aliança e na volta pro parque - sim, Abel, não tinha grindr naquela cidade, nos encontrávamos lá - esfregou o metal? aço? prata? cobre? da aliança e me contou, receoso com medo ou apreensão indigesta de me desapontar sobre o que já não tinha esperança de acreditar que podíamos sim estar mais vezes juntos, nós dois. que tinha gêmeos a caminho. me lembrei disso pois tu pessoalmente és gêmeo, de alguém partido, mas gêmeo. mas como já disse tudo mudou na grande hiper cidade e os djs, produtores, drags, raves ocasionais, a bala obrigatória, bafo, ice, abençoada e tantas outras que acompanha a música. não é assim em todo canto mas é assim lá.

ele parou de falar, se impedindo com um corte de faca bruto na respiração. ainda não entendia como estávamos lá. meu peito já batia mais rápido e mais perturbado eu ficava quanto mais chegávamos as ondas. percebi então que estávamos parados na metade da praia, não sabia quando tínhamos parado de andar. segurei com mais força e de certa forma ternura a pequena miniatura de estátua da Iemanjá. chacoalhei um pouco tentando ouvir o som dos restos mortais de Felipe. os sons ao redor da música, mar e o chacoalhar violento inerente me impediram. estanquei meus pés na areia – já sem tanta lama – para dar mais um passo.

meu corpo e mente estavam inertes com todas as palavras e sensações. do divertimento, da música, o bate estaca para as histórias compartilhadas. de alguma forma desconhecida, não estava surpreso por Gustavo. tudo parecia-me tão natural quanto o ar que chicoteava meu rosto. minha tanga balançava, minhas pulseiras tiniam e meus colares de contas e búzios rodavam graciosos em volta da pulsação cardíaca que era meu pescoço.

retomei o fio dançante da conversa giratória novamente. algo que pensei na hora, sem realmente saber seu significado próprio e figurado.

se todos nós nos inspirarmos e espiar por cima do ombro por dentro do nosso corpo;carne, somos todas apenas pessoas com muito tesão e problemas de confiança

é, acho que é verdade. Gustavo, ainda chapado, respondeu.

traguei meu cigarro de novo. segurei Iemanjá e meu irmão em um abraço coletivo de uma mão só.

era tão lindo a visão do escuro, acredite em mim. eu só queria paz; por favor, me ouça. escute minhas palavras. em seguida (estávamos naquele ponto, nós três, eu, Gustavo e Felipe à beira mar à beira da maré mãe longe da humanidade-musical que ainda rodava e dançava).

no lapso psíquico encontrava-me doido para entrar no mar e beber das conchas a pré-vida da concepção e formação de tais animais dependentes da concha. não levaria ao meu ouvido pois o mar já os possuía. levaria a boca e consumiria da água de uma vez por todas. para sempre. Gustavo percebeu tarde, e esse já é o final dessa história.

o agarrei pelo pescoço numa só mão e o beijei com força tesão desejo carinho benção, maldição. alisei suas costas, beijei a ponta do nariz até nos deitamos na areia e nos transformarmos em abstrato. homem com pessoa, pessoa com homem. então levantei, pela segunda vez ele fechou a braguilha da calça jeans então finalmente parei de adiar. afastei com o gozo o medo da decisão e o peso da consequência. finalmente, virá. lá estava eu, bonita e triste, bonita, sexual, adorável, pronta para me despedir de todos e do Felipe, meu irmão. Estávamos aqui pelo mesmo motivo, e pelo mesmo motivo que iríamos. Tchau. Eu estava me sentindo bem por isso. ainda com tesão secando, desejei por um instante ficar com ele. mas acovardei. seria corajoso por pelo menos uma vez. uma vez até o fim. para sempre.

com Iemanjá mãe doutora dos males eu percebi tarde a tatuagem da segunda cara, face rosto identidade CORPO de dona Janaína na costela direita em Gustavo. era bruto em traço cor e tinta: dona aparecida regida pela branquitude que a violência à mulheridade entregava sem dó nem piedade. rogava por nós amém. pisei na areia pulei nas águas, caminhei até o fundo. Gustavo protestou e pude ver seus lábios e chupões no pescoço, agora que a claridade começará a ser puxada para a parte no grande céu. tanto lá, tanto aqui, é formada por deus e tantos eus que não cabem na água que molhava tudo, até os cabelos. não larguei a estátua nem meu irmão. nossas diferenças, apesar de gêmeas e também a morte - apesar da distinção, também, dos meios do fim. fogo-cinzas ele, água-viva eu - então entrei fundo no mar e tudo.

protestei quando Gustavo me puxou e brigarmos. ele pelo céu e ar eu pela água e encerramento. dei a pior mas mesmo assim para ele me soltar com força atirei Iemanjá em sua testa. a cerâmica partiu molhada de azul, manchou-se de vermelho tudo. minhas mãos sua cabeça. seu corpo inerte cambaleou e tombou para as águas; me enterrei aos seus braços e a estátua, agora quebrada, partiu em direção o mais profundo mar. meu irmão foi-se também. assim como Gustavo. nadei e nadei segurando ele para que não afogasse. tão lindo sua cara, cacheado era os cabelos. fez-se como ondas angelicais enquanto não acordava; como não? não fora um golpe forte, mas logo percebi que o que saia de sua boca não era saliva ou sal. forcei sua pupila e vi-as tão grandes quanto a inferioridade da circunferência da lua. abaixei suas calças jeans e puxei-o para a praia.

era isso, seria o fim.

tirei sua roupa toda e o arrastei comigo e nadei, nadei, nadei, nadei. seu corpo inerte pesado nas minhas mãos. fiquei nua/nu, homem mulher bicho também. ali eu era selvagem e não tinha nome sobrenome ou mãe doce gentil. não teria nunca mais. na rave ainda batia a estaca em 120 dos batimentos cardíacos, apesar de ter certeza que o meu próprio coração mais veloz estaria. faltou ar. já não tinha nada. e ainda não tenho. que me perdoem mas mesmo que só queria paz ali já nunca mais a veria. nadei até o fundo e de lá espirrei o oxigênio humano, do pulmão só peixes enguia água ÁGUA mãe orixá Janaína irmão Gustavo. seu corpo boiou, naturalmente. já fora do corpo como espírito me vi boiar também. mas o mais estranho é que pude jurar ver o mar vermelho sangue de Gustavo semi coberto por algo cinza das cinzas de Felipe.

até o final. há sempre duas. me vi ao centro.

na minha infância contavam uma história. contam que um dia Ifá chamou Exu e lhe mostrou duas cabaças, ele deveria escolher apenas uma e levar consigo em uma viagem até o mercado de Ifé. Na primeira, estava todo o bem, todas as palavras, todos os segredos do corpo, todos os remédios. na segunda, estava o mal e seu significado inalcançável e também todos os silêncios, todos os venenos, o invisível.

ele, Exu olhou as cabaças e mandou abri-las e misturou o conteúdo das duas na terceira. de lá do destino para o caminho, jornada. o que pode ser bem, também pode ser mal

aquilo que é som pode ser também silêncio. aquilo que te cura, pode ser o que te mata. aquilo que você vê, pode ser algo que não dá pra enxergar.

talvez seja isso que tenho em mim. mas aquilo não era meu final. meu final é agora, que tenho a bondade também dentro de mim. é aqui na bondade que digo adeus, adeus aos amigos e conhecidos do meu irmão, daqui, pessoalmente, direi perdão a ele. dos amantes e família chegou ausente’ de Gustavo peço desculpas, não foi de propósito daquele jeito acabar algo que somente me dizia. desculpa, mãe - a do mar e do meu corpo portador de tudo. daqui encontro caminho de paz. à festa e seus moradores desejo tudo de melhor. eu só queria paz, afinal. perdão. e às histórias mal contadas, não há muito ao que me desculpar além de que as memórias esvaem mas a marca no nosso corpo de cada pequena grande média ação é tão mais quente do que nós realmente pensamos ser. não serão nunca só toques, entendo isso agora. e pra ti, não direi nada além de Palavra.

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