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Determinismo puro

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Determinismo puro

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PedroSalles

O determinismo puro tem um endereço bem concreto: a audiência de custódia da segunda de manhã. Eu escuto a cadeia inteira de causas de um rapaz de dezenove anos e o juiz decide assim mesmo, com prazo e com fiança. Levando o seu texto até o fim, o que você

O determinismo puro tem um endereço bem concreto: a audiência de custódia da segunda de manhã. Eu escuto a cadeia inteira de causas de um rapaz de dezenove anos e o juiz decide assim mesmo, com prazo e com fiança. Levando o seu texto até o fim, o que você faz com a punição?

Conteúdo da publicação

Determinismo puro


Uma via sem volta?




uma imagem que insiste em voltar: a de um rio que não escolhe seu curso. Nasce na montanha, desce pelos vales, contorna as pedras e segue — não por decisão, mas por inclinação. Assim também parecemos nós: arrastados por uma correnteza que chamamos tempo, causa, destino. Mas seria o rio menos rio se pudesse escolher seu leito? Ou seria apenas outro modo de mover-se, outra forma de necessidade?

Determinismo puro — a expressão soa como um veredito, uma sentença sem apelação. Tudo o que acontece ocorre porque não poderia acontecer de outro modo. Cada gesto, cada pensamento, cada silêncio é apenas o desdobramento de uma cadeia infinita de causas anteriores. Não há desvios, não há acasos, não há portas abertas — apenas o trilho invisível por onde a existência segue.

E, no entanto, há algo que resiste. Algo em nós se recusa a aceitar que tudo já estivesse escrito antes mesmo de nascermos. Há uma rebeldia íntima, um sussurro que insiste em perguntar: e se houvesse outra possibilidade? E se, em algum lugar, em algum instante, a estrada pudesse seguir por outro caminho?

Mas talvez essa rebeldia seja apenas outra engrenagem. Talvez o próprio desejo de liberdade não passe de mais um efeito da cadeia causal — uma ilusão necessária, como o horizonte que parece mover-se quando avançamos, mas nunca se aproxima. O cérebro que questiona o determinismo é, ele mesmo, produto de causas anteriores. A dúvida, a angústia e a esperança podem ser apenas o modo como a necessidade se experimenta por dentro.

Há uma imagem antiga, quase bíblica: a do livro em que tudo já está escrito. Cada página, cada linha, cada palavra — tudo previsto, tudo inscrito. Mas quem escreve esse livro? E, mais importante, quem o lê? Se tudo já está escrito, a leitura é apenas um ritual, o reconhecimento do que sempre foi. Não há surpresa, não há descoberta — apenas uma memória antecipada.

E, no entanto, vivemos como se houvesse escolha. Acordamos, vestimos uma camisa e não outra, seguimos por um caminho e não por outro, dizemos sim onde poderíamos ter dito não. Essa experiência cotidiana da liberdade é tão vívida, tão imediata, que parece absurdo chamá-la de ilusão. Mas e se a ilusão residisse justamente nessa vividez? E se a liberdade fosse apenas o nome que damos à ignorância das causas que nos movem?

Há quem diga que o determinismo puro é uma via sem volta — uma estrada que, uma vez percorrida, não permite retorno. Mas talvez a questão não seja voltar, e sim olhar. Olhar para os lados, observar a paisagem, perceber que, mesmo em uma estrada reta, há variações de luz, de sombra e de temperatura. Talvez a liberdade não esteja em mudar de caminho, mas em perceber o caminho que se percorre.

A imagem do trem é inevitável: trilhos fixos, velocidade constante, destino traçado. Mas, dentro dos vagões, há passageiros que conversam, leem, dormem e olham pela janela. O trem não escolhe seu rumo, mas os passageiros vivem — e cada um vive à sua maneira. Um se angustia, outro se encanta, um terceiro apenas observa. O destino é o mesmo; a experiência, porém, não.

Determinismo puro — talvez seja isso: não a negação da vida, mas a afirmação de que ela acontece de um modo específico. Não há desvios, mas há variações. Não há escolhas absolutas, mas diferentes modos de habitar a necessidade. E talvez, nesse habitar, exista algo que se aproxime da liberdade — não como o poder de mudar o curso, mas como a capacidade de lhe dar sentido.

Há uma frase que diz: “A liberdade é o reconhecimento da necessidade.” Soa como paradoxo, mas talvez seja apenas uma forma de honestidade. Reconhecer que somos parte de uma cadeia maior, que não somos o centro nem os únicos autores de nossa história, não nos diminui. Apenas nos coloca em nosso devido lugar: não como deuses, mas como participantes.

E, se a via é sem volta, talvez isso não seja uma maldição, mas uma condição. A seta do tempo não retorna, o rio não sobe a montanha, a causa precede o efeito. Ainda assim, dentro dessa ordem há espaço para a contemplação, para a pergunta e para o silêncio. Há espaço para olhar pela janela do trem, ver a paisagem passar e, ao contemplá-la, transformá-la em memória, em significado, em algo que nos toca.

Determinismo puro — uma via sem volta? Talvez. Mas talvez a pergunta decisiva não seja se há volta, e sim como percorrer o caminho. Como habitar a necessidade sem se curvar a ela. Como viver como se houvesse escolha, mesmo que talvez não haja. Como dar sentido àquilo que não podemos mudar.

E, no fim, talvez isso seja suficiente: não a liberdade de mudar o curso, mas a de lhe dar sentido. Não o poder de voltar, mas a capacidade de olhar. Não a fuga da necessidade, mas a arte de habitá-la.


Determinismo puro — uma via sem volta? Talvez. Mas ainda há paisagens para contemplar, perguntas a fazer e silêncio a escutar. E, nesse silêncio, talvez exista algo que se aproxime da liberdade — não como ruptura, mas como reconhecimento; não como fuga, mas como presença.

Thoughts

  • MarianaGouveia

    No consultório esta ideia aparece muito, e nunca como tese: aparece como alívio. Quem diz que não podia ter feito de outra maneira anda quase sempre a tentar largar uma culpa que já não aguenta. Escreveu isto a partir de alguma coisa que lhe aconteceu, ou veio todo da leitura?

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  • PedroSalles

    O determinismo puro tem um endereço bem concreto: a audiência de custódia da segunda de manhã. Eu escuto a cadeia inteira de causas de um rapaz de dezenove anos e o juiz decide assim mesmo, com prazo e com fiança. Levando o seu texto até o fim, o que você faz com a punição?

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