Desiderata paterna
Oh, filha! Se nasceste neste mundo
E eu, pelo amor fecundo, renasci;
Se ao esperar-te vir, suado, imundo,
Chorando só e, junto, enfim, sorri;
Se apaixonado à vida mais e mais,
Em teus olhos fatais, fui me tornando;
Se nunca imaginei quão bom ser pai,
Preocupar-me demais, viver amando;
Se ao te guiar, pequena, passo a passo,
Sentiste nos meus braços, segurança;
E, quando sufocada em meus abraços,
Pediste mais amassos, canto e danças;
Se o doce borbulhar da juventude
Do amor sutil ou rude, descobrires,
E dele tu formares a virtude
Que só se repercute ao ser que é livre;
Se tudo que entenderes não ser teu
Deixares, mesmo ao breu escurecido;
Se não sofreres que ninguém te deu
E sentires teu “eu” fortalecido;
Se todos os caminhos da amizade
Passares nas idades do teu tempo;
Se vires que aprender é o que te cabe
E conviver é a arte dos momentos;
Se tiveres paixões por toda a vida
Sutis e enlouquecidas de prazeres;
Se encontrares alguém, porto e guarida,
E este, fizer de lida, tu viveres:
Amada, me perdoes, se exagero,
Se falo muito, faço pouco ou erro.
Eu sou comum, tão cheio de defeitos...
Apenas trago, do paterno peito,
Todo o desejo que me fez viver
Quando, ao Setembro, enfim, te vi nascer.
Se fizeste do peito a voz motriz
Eu digo, e a boca abaixo ao meu nariz,
Que posso, amor, ao fim, partir, feliz!