Um comentário do Adenilson virar um texto inteiro é coisa boa de ver acontecer. Quanto tempo isso ficou rodando na sua cabeça antes de você sentar pra escrever?
De olhos fechados
Pensamento
Um comentário do Adenilson virar um texto inteiro é coisa boa de ver acontecer. Quanto tempo isso ficou rodando na sua cabeça antes de você sentar pra escrever?
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Depois de publicar Domingo qualquer, recebi um comentário do @Adenilson que ficou na minha cabeça.
Ele falou sobre esse curioso compasso de ouvir a respiração de quem está ao nosso lado. Sobre como, com os anos, a gente passa a reconhecer uma pessoa até pelo jeito que ela respira dormindo. Sem precisar abrir os olhos.
E fiquei pensando no quanto a convivência faz da gente uma espécie de especialista em alguém.
Lembrei de uma fala do Chico Anysio sobre casamento. Ele dizia, brincando, que quem entende de casamento não é quem passou quarenta anos casado com a mesma pessoa, mas quem se casou várias vezes.
Não sei se ele estava certo.
Mas entender de casamento é uma coisa. Entender de uma pessoa é outra.
E isso só o tempo ensina.
Você começa reconhecendo a pessoa pelo rosto.
Depois, pelo jeito de falar.
Pelo jeito de andar.
Pelo jeito de fechar uma porta.
Pela maneira como coloca a chave sobre a mesa.
Mais tarde, já sabe quando alguma coisa não está bem pela forma como ela responde.
Pela pequena mudança na voz quando está irritada.
Aprende a diferença entre um suspiro de cansaço e um suspiro de preocupação. Reconhece o silêncio que significa tranquilidade e aquele outro, quase igual, que significa que alguma coisa está incomodando.
E o sorriso que é realmente felicidade e aquele que ela dá só para não precisar explicar que não está bem.
Até que chega um ponto em que você consegue perceber coisas que ninguém mais percebe.
É aí que a intimidade realmente acontece.
E talvez isso seja uma das coisas mais bonitas que o tempo pode fazer com duas pessoas.
Ele transforma convivência em linguagem.
Cria um dicionário particular, feito de gestos, silêncios, olhares, respirações e pequenas manias.
Uma língua que não precisa ser ensinada porque é construída vivendo.
Talvez amar alguém por muito tempo seja isso: tornar-se especialista naquela pessoa.
Sem achar que já sabe tudo sobre ela.
E gosto de pensar que, depois de tantos anos, alguém pode respirar de um determinado jeito do outro lado da cama e você, ainda de olhos fechados, pensar:
“Tem alguma coisa diferente.”
E nem sabe explicar o quê.
Mas sabe.
Porque conhece aquele jeito único que ela tem de existir no mundo.
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Depois de publicar Domingo qualquer , recebi um comentário do que ficou na minha cabeça.