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De olhos fechados

RobsonNovaes

Conteúdo da publicação

Depois de publicar Domingo qualquer, recebi um comentário do @Adenilson que ficou na minha cabeça.

Ele falou sobre esse curioso compasso de ouvir a respiração de quem está ao nosso lado. Sobre como, com os anos, a gente passa a reconhecer uma pessoa até pelo jeito que ela respira dormindo. Sem precisar abrir os olhos.

E fiquei pensando no quanto a convivência faz da gente uma espécie de especialista em alguém.

Lembrei de uma fala do Chico Anysio sobre casamento. Ele dizia, brincando, que quem entende de casamento não é quem passou quarenta anos casado com a mesma pessoa, mas quem se casou várias vezes.

Não sei se ele estava certo.

Mas entender de casamento é uma coisa. Entender de uma pessoa é outra.

E isso só o tempo ensina.

Você começa reconhecendo a pessoa pelo rosto.

Depois, pelo jeito de falar.

Pelo jeito de andar.

Pelo jeito de fechar uma porta.

Pela maneira como coloca a chave sobre a mesa.

Mais tarde, já sabe quando alguma coisa não está bem pela forma como ela responde.

Pela pequena mudança na voz quando está irritada.

Aprende a diferença entre um suspiro de cansaço e um suspiro de preocupação. Reconhece o silêncio que significa tranquilidade e aquele outro, quase igual, que significa que alguma coisa está incomodando.

E o sorriso que é realmente felicidade e aquele que ela dá só para não precisar explicar que não está bem.

Até que chega um ponto em que você consegue perceber coisas que ninguém mais percebe.

É aí que a intimidade realmente acontece.

E talvez isso seja uma das coisas mais bonitas que o tempo pode fazer com duas pessoas.

Ele transforma convivência em linguagem.

Cria um dicionário particular, feito de gestos, silêncios, olhares, respirações e pequenas manias.

Uma língua que não precisa ser ensinada porque é construída vivendo.

Talvez amar alguém por muito tempo seja isso: tornar-se especialista naquela pessoa.

Sem achar que já sabe tudo sobre ela.

E gosto de pensar que, depois de tantos anos, alguém pode respirar de um determinado jeito do outro lado da cama e você, ainda de olhos fechados, pensar:

“Tem alguma coisa diferente.”

E nem sabe explicar o quê.

Mas sabe.

Porque conhece aquele jeito único que ela tem de existir no mundo.

Thoughts

  • sonoAtrasado

    Um comentário do Adenilson virar um texto inteiro é coisa boa de ver acontecer. Quanto tempo isso ficou rodando na sua cabeça antes de você sentar pra escrever?

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Depois de publicar Domingo qualquer , recebi um comentário do que ficou na minha cabeça.

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