Aos sete anos o amor é asqueroso. Fala-se de amor e as crianças logo estendem a língua, soltando um ranhento eca. Nas festas de aniversário, quer deixar uma criança envergonhada, dê início a um chato “com quem será”. O aniversariante tímido desejará sumir com o ano concluído, pra nunca mais voltar. E depois, quando os salgados estiverem gelados e os convidados já em retirada, o inconformado pretendente vai aos pais e diz: pô já não falei que esse negócio de “com que será” é chato pra burro?
Além de nauseabundo o amor é careta. Todas as “cartas de amor são ridículas”. As crianças veem as mães nas poltronas assistindo novelas, deparam-se com aquelas cenas melosas de atores com queixo quadrado e, imediatamente atribuem ao amor a caretice.
Aos dez anos o amor ganha um certo respeito. Mais precisamente... não o amor, e sim a pessoa a quem se deveria amar. Os seres aparecem numa opacidade. As meninas viram meninas e não só a outra parte da costela. Não existe somente amigo e inimigo: há um meio termo. Já não se fica tão colérico ao ouvir um “tá namorando”. Até se solta um risinho no “com quem será”.
Depois de um pequeno espaço de tempo (por volta dos quatorze anos ou menos) o amor vira beijo. Estala como um pingo que você imaginara que iria cair e caiu. Pinga em forma aquosa o que evaporava na cabeça. Sem nem saber o que é beijo se beija. Se diz as primeiras palavras de amor, palavras que alguém disse serem de amor. Desconhece o momento certo de driblar, de passar, de chutar; só simplesmente corre pra cima do lateral, em busca da tão dita “fumaça”. É afobado? É. Mas tem um quê de naturalidade dificilmente visto noutros momentos. Os presentes são pequenos lanches da cantina, não os cartões de crédito que escondem os bancos. Ninguém quer muito, apenas a consciência (mesmo que falsa) de que se é amado. O amor é um grande clássico da literatura lido por um inexperiente.
Aos dezoito anos o amor é sexo. O amor secciona e só fica com uma única parcela: de pernas, de saias e mãos quando necessárias. “Esqueceste os teus sonetos né, miúdo?”, falam as tias nas festividades pra o concretista saído da alcova. Até se diz eu te amo, mas é um eu te amo de cartório, as juras são identidades falsas pra se ir numa balada. Porém, contudo, todavia, o amor não é raso, nem falso, pois é profundo em sua camada delgada e o mais verdadeiro possível em suas mentiras. Pode mais tarde servir de ridicularia? Pode..., mas quem quer saber?
Aos vinte e cinco anos o amor é liquidificador, torradeira, prato, garfo e geladeira – decorada com um adesivo de pinguim sorridente. Agora, o amor tem com quem dividir as horas e o tecido do lençol. E para não fazer mal: o amor desperta de manhãzinha, o amor vai pela primeira vez às Casas Bahia. O amor avalia se a banha de porco é melhor que margarina. Para fazer algo: tem a gravata amarrada, tem a gravata desamarrada em momentos de raiva. O amor dorme no sofá sendo chamado de fuleiro. E de vez em quando um anjo torto, desses que não tem nada o que fazer, pergunta ao amor: quando irás casar?
Aos trinta anos o amor ganha pernas, sapatinhos e chora. Chora por não dormir e chora quando posto pra dormir. Em momentos como a borba, perguntam-lhe sobre quem ele mais gosta: o cara que falam ser seu pai ou a mulher que dizem ser sua mãe, o amor vota branco; não viu suas respectivas propostas – além de ainda não poder receber propina de drops e bolas. O amor começa a desconfiar do “com quem será”.
Aos quarenta anos o amor já é amigo do cobrador. Brinca com amendoins na boca, sentindo o sal dilatar no palato. Vê as BRs súbitas passando e constata ter acertado mais uma vez o trajeto. Assenta num banco de praça e se surpreende com os pombos pois estes ainda não ama. Aos finais de semana vai à praia, quando não, ao aterro pra tirar retratos, e se não pode, tenta em casa mesmo se fazer perene. Assiste um filme do Chaplin e dorme.
Aos cinquenta anos o amor se desdobra. O amor começa a fazer faculdade, o amor resolve simulados, tenta dormir e não consegue, vira a cabeça em sentido rotacional por todas constelações do cetim. O amor repousa no volante esperando no estacionamento. Leva, busca, fareja. Se depara na cama que nem a estátua O Pensador; o amor corre porque daqui a pouco dá hora…
Aos sessenta anos o amor para; não de amar mas sim de confluir. O amor rasteja a faca amanteigada no pão aberto, como o jornal que lê periódicamente. O amor começa a rir com qualquer lance bobo de uma partida. O amor pega a sua antologia de retratos e começa a reuni-los, por dia, por mês, por ano, por década. O amor não quer que ninguém saiba, mas têm um sapatinho escondido debaixo da cama, que ele pega de vez em quando; pra constatar coisas tácitas. E ao ouvir um gemido da porta, o amor os esconde sobressaltado – não que ser chamado meloso.
Aos setenta anos o amor já tem toda a sua obra reunida, lida, relida e reescrita. Em álbuns de família despenca os olhos, soltando palavra a cada passar das páginas mofadas. O amor tem dobras na barriga que nem tivera noutros tempos. Em momento que não dá mais pra aguentar, de boca baixa, o amor fala um eu te amo e chora. Aos finais de semana o amor vê o sol pela moldura, as xícaras e as montanhas no cinzeiro. Fica na poltrona sentado.
Aos oitenta anos o amor é indagado; “tu nunca irás parar de lembrar?”.