A luz da tarde entrava na livraria, deixando tudo com um brilho dourado. O Lucas, que trabalhava lá arrumando os livros, gostava daquele sossego. Era o canto dele.
Tudo mudou numa terça-feira, quando o sino da porta tocou.
A Clara entrou toda apressada, com cheiro de chuva e um sorriso sem jeito. Ela estava segurando um livro bem velhinho. Ela queria um livro de poesia antigo e, quando chamou o Lucas, aquela conversa de trabalho virou um papo de quarenta minutos sobre livros e cafés.
**No começo, era só uma curiosidade.**
A Clara passou a aparecer lá quase todo dia. O Lucas não sabia se ela ia pelos livros ou pelo jeito que ela prendia o cabelo atrás da orelha quando ficava animada. Ele começou a guardar os livros mais legais só para ela; ela começou a levar um café extra, dando risada e dizendo: "é por conta da casa".
**Depois, a coisa ficou mais íntima.**
Eles começaram a deixar bilhetinhos escondidos dentro dos livros que devolviam. Coisas simples: *"Você tinha razão sobre o final, mas eu queria muito que eles tivessem fugido juntos"* ou *"Meu dia foi uma loucura, preciso de uma indicação sua para esquecer o mundo"*.
Não tinha pressa nenhuma. Eles se conheciam pelo que escreviam. O Lucas descobriu que a Clara tinha medo de trovão e anotava tudo num caderno preto. A Clara descobriu que o Lucas dava um risinho abafado que ele tentava esconder, e que ele tinha um relógio de bolso velho que era a lembrança do pai dele.
**Aí, teve aquele momento que mudou tudo.**
Num fim de tarde, a loja estava vazia, tocando um jazz bem baixinho. O Lucas foi ajudar a Clara a pegar um livro numa prateleira alta. Quando ele chegou perto, o espaço entre eles ficou pequeno demais. O ar parecia mais pesado.
A Clara olhou para ele e, pela primeira vez, não falou de livro nenhum. Ficou aquele silêncio de quem quer dizer muita coisa. O Lucas viu que ela estava meio sem jeito, e ela viu que ele estava completamente entregue. Quando ele tocou o pulso dela, de leve, para pegar o livro, não foi um toque qualquer; foi aquele momento que a gente sente que as coisas mudaram.
Eles não se beijaram ali, mas tiveram a certeza de que a amizade tinha virado algo maior. Saíram da livraria juntos, andando ombro a ombro, com as mãos quase se encostando, sabendo que o melhor da história estava só começando.
Ali, no meio da rua, o Lucas percebeu que não estava mais só trabalhando: estava vivendo o começo da melhor história d
a vida dele.