Como é amar?
Como é amar alguém
que ama outro alguém,
e assistir de camarote
a quem você quer bem
se perder por quem não lhe faz bem?
Porque amar sem ser amado
já é um estrago danado,
mas ver quem você ama
se acabar por outro alguém
é descobrir que a dor também dói dobrado.
E não, não é ciúme,
nem vontade de ocupar lugar,
é que eu queria tanto
que ela aprendesse a se amar
antes de se acabar
tentando alguém conquistar.
E é engraçado, no fim das contas:
ela chora por quem não a quer,
e eu choro por ela,
que não percebe, sequer,
que eu só queria vê-la bem
mesmo sem ser quem ela quer.
E que ironia desgraçada,
que piada de mau gosto:
eu querendo arrancar-lhe a tristeza
enquanto escondo a minha no rosto.
Ela procura em outra pessoa
o carinho que tanto deseja,
e eu procuro um jeito de ajudá-la
sem que minha própria dor transpareça.
Porque eu sei que não posso salvá-la,
nem escolher por quem vai se apaixonar.
Posso oferecer meus conselhos,
posso ouvi-la, posso ficar,
mas não posso obrigá-la a enxergar
o que ela não consegue enxergar.
E às vezes eu brinco,
faço graça, tento descontrair,
mas nem sempre a piada chega
com a intenção que eu quis transmitir.
E quando ela leva pro peito
o que eu nem pensei em ferir,
eu me pergunto em silêncio
se eu devia ter ficado sem rir.
Eu sei que também erro,
que nem sempre sei me expressar,
que às vezes, tentando ser leve,
posso acabar por pesar.
Mas queria que ela entendesse,
mesmo sem eu saber explicar,
que por trás do meu jeito idiota
existe alguém que se importa
mais do que consegue demonstrar.
Porque eu também queria cuidado,
também queria compreensão,
queria não precisar esconder
o que transborda no meu coração.
Queria poder ser abrigo
sem me esquecer de mim,
porque, até quem cuida de todo mundo
se cansa de ser forte assim.
E talvez essa seja a parte
que eu mais demoro a aceitar:
eu posso amar alguém profundamente
sem conseguir fazê-la melhorar?
Posso querer que seja feliz,
mesmo que não seja ao meu lado,
posso torcer pelos seus sorrisos
mesmo sabendo o quanto tenho chorado?
Porque amar não é possuir,
não é prender, não é exigir.
é querer ver alguém florescer
mesmo quando você não vai assistir.
Mas, porra, como dói
ver alguém tão especial
se contentar com tão pouco
e chamar de amor o que lhe faz mal.
E eu queria gritar, sacudi-la,
fazê-la finalmente perceber
que não precisa se quebrar inteira
pra alguém decidir lhe querer.
Mas quem sou eu pra dizer
qual caminho ela deve trilhar,
se nem eu sei o que fazer
com esse tanto de coisa que sinto
e não consigo organizar?
Olha, o fim, somos duas dores
que escolheram direções diferentes:
ela sofre por quem não a escolhe,
e eu sofro por quem sofre por gente
que talvez nunca entenda
o valor de quem tem à sua frente.
E eu continuo aqui,
não por promessa ou esperança,
mas porque meu carinho por ela
não depende de uma recompensa.
Só que ninguém me avisou
que querer tanto o bem de alguém
também poderia doer assim,
que eu poderia cuidar de uma ferida alheia
enquanto sangro dentro de mim.
Então, como é amar?
Talvez seja querer que alguém fique bem
mesmo quando você não lhe convém.
talvez seja soltar sem deixar de querer,
entender sem conseguir resolver,
e continuar desejando felicidade
pra quem não consegue enxergar
o próprio valor de verdade.
mas tem uma coisa que eu ainda não sei,
e talvez demore pra entender:
como é que eu cuido tanto de alguém
sem esquecer que eu também
mereço cuidado?
como é que eu ensino alguém a se escolher
se, quando se trata de mim,
eu também não sei o que fazer?
talvez amar seja isso,
um eterno aprender:
querer salvar o mundo de alguém
sem deixar o próprio mundo se perder.
L.M
Poema altoral