e depois? mustafa vai ficar ali com esse guerreiro que já tá meio morto por dentro? o que alp quer agora que salvou ele?
CAPÍTULO VII — A LENDA E A SALVAÇÃO
“Às vezes, o salvador não chega como anjo, mas como um homem cansado que carrega sua própria morte nas costas.”
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e depois? mustafa vai ficar ali com esse guerreiro que já tá meio morto por dentro? o que alp quer agora que salvou ele?
Conteúdo da publicação
“Às vezes, o salvador não chega como anjo, mas como um homem cansado que carrega sua própria morte nas costas.”
Mustafa levantou-se devagar. As pernas pareciam pertencer a outro corpo, pesadas e alheias. Ele caminhou pela casinha de pedra, os pés descalços produzindo um som leve e abafado contra o chão de terra batida. Eram apenas duas divisões pequenas: uma porta entreaberta que rangia ao vento, uma janela estreita por onde entrava uma lâmina de luz. Nada ali lhe era familiar. O ar carregava o cheiro de poeira velha, ervas secas e abandono.
Ao entrar na cozinha apertada, deparou-se com uma mesa de madeira grossa, um pote de água e alguns restos de pão. Sentado na ponta da mesa estava um homem.
Alto. Barba espessa e escura. Olhos afiados como lâminas forjadas em batalhas antigas. Cicatrizes profundas marcavam seu rosto e os braços expostos. Vestia uma túnica simples de guerreiro, com uma cota de malha jogada descuidadamente sobre o banco ao lado. Uma espada longa, de lâmina larga, descansava encostada na parede, como se fosse uma extensão natural de seu dono.
Mustafa parou na entrada. O corpo inteiro enrijeceu. O homem ergueu os olhos e o encarou em silêncio, sem pressa.
O menino engoliu em seco. A voz saiu rouca, quase sem força:
— Por que me salvou?
O homem não respondeu de imediato. Apenas o observou, como quem avalia uma ferida aberta. Mustafa deu mais um passo à frente. A pergunta seguinte escapou quase como um sussurro:
— E você… não estava morto?
O homem soltou um suspiro curto, cansado. Colocou o pedaço de pão sobre a mesa e falou com voz grave, calma, mas carregada de algo muito mais antigo que a exaustão:
— Eu já estava morto para o mundo muito antes de te encontrar. O resto não importa.
Fez uma pausa. Seus olhos não se desviaram do menino.
— Heroísmo bobo. Vi um corpo pequeno ainda respirando no meio da carnificina. Podia ter passado direto. Não passei.
Mustafa permaneceu imóvel, absorvendo as palavras como se viessem de muito longe. Dentro dele, as imagens ainda giravam sem parar: a cabeça do pai rolando pelas pedras, o crânio da mãe partido ao meio, os olhos de Maya buscando os seus no último instante antes de se apagarem para sempre.
Ele não agradeceu. Não chorou. Não fugiu. Apenas ficou ali, quieto, guardando mais uma coisa que não compreendia por completo.
O homem — que mais tarde Mustafa aprenderia chamar-se Alp Arslan — observou-o por mais alguns segundos. Depois apontou para o pote de água sobre a mesa.
— Beba. Você vai precisar de forças.
Mustafa não se mexeu de imediato. Seus olhos permaneciam fixos no estranho, tentando decifrar o peso que carregava nos ombros. Havia algo naquele homem que não era apenas cansaço. Era como se ele carregasse sombras mais antigas que as dele próprio.
Fora da casinha, o vento continuava a soprar baixo, murmurando entre as pedras. Dentro, o silêncio entre os dois era quase palpável — o silêncio de duas almas que, por caminhos diferentes, haviam sido marcadas pela mesma guerra.
E, pela primeira vez desde o massacre, Mustafa sentiu que não estava completamente sozinho. Embora ainda não soubesse se aquilo era salvação ou apenas o começo de algo maior e mais sombrio.
Thoughts
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Permalinke depois? mustafa vai ficar ali com esse guerreiro que já tá meio morto por dentro? o que alp quer agora que salvou ele?
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Permalinkaquele silêncio deles é estranho, sabe? quando duas pessoas que sofreram muito se encontram, a conversa é outra coisa.
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Permalinktem gente que carrega morte nas costas. esse alp é um desses. o menino tá vendo isso e fica em silêncio porque sabe que não é momento de falar.
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Permalinkpor que o cara salva e depois fica tão vago assim? tipo, "heroísmo bobo", disse e pronto. mustafa tá ali tentando decifrar um fantasma.
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Permalinkaquela cena dele repassando na cabeça, a morte da família de novo e de novo... isso dói demais. quando lê coisa assim a gente volta pra casa diferente.
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Permalinkque tipo de salvador é esse que traz mais mistério do que resposta? mustafa agora tá inteiro preso a essa pergunta de não sabe se tá salvo ou condenado.