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CAPÍTULO V — A LUZ ANTES DA SOMBRA

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"A luz não ilumina o caminho. Ela apenas torna a escuridão que virá mais nítida."

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Pensamento

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contoDeSexta

Gostei muito daquele amanhecer todo. Dele a correr, do sorriso dela. De verdade, gostei.

Gostei muito daquele amanhecer todo. Dele a correr, do sorriso dela. De verdade, gostei.

Conteúdo da publicação

"A luz não ilumina o caminho. Ela apenas torna a escuridão que virá mais nítida."

Jerusalém, 15 de julho de 1099.

A manhã nascera tranquila.

Os primeiros raios de sol escorriam pelos telhados de pedra da cidade, cobrindo muros, vielas e mercados com uma luz dourada que parecia antiga. O ar ainda carregava o frescor da madrugada, misturado ao cheiro de pão recém-assado e das especiarias vendidas nas barracas próximas.

Por um breve instante, Jerusalém parecia em paz. Mas a paz, como todas as coisas belas, era frágil. E naquela manhã ninguém sabia disso. Muito menos Mustafa.

Aos dez anos de idade, ele acreditava que o mundo era simples. O sol nascia. As pessoas sorriam. As crianças brincavam. E o dia seguinte sempre chegava.

Era tudo o que importava.

Correndo pelas ruas estreitas, Mustafa parecia uma pequena tempestade impossível de conter. Os pés descalços batiam contra as pedras aquecidas pelo sol. Sua túnica simples balançava enquanto ele desviava de mercadores, barris e animais de carga com a habilidade de quem conhecia cada canto da cidade.

Alguns moradores gritavam para que tomasse cuidado. Outros apenas sorriam. Todos o conheciam. E todos sabiam que tentar fazê-lo andar devagar era uma batalha perdida.

— Mustafa!

Uma mulher chamou da porta de sua casa.

— Vai acabar se machucando correndo assim!

— Ainda não foi hoje!

Ele respondeu sem diminuir o ritmo. A gargalhada que deixou para trás ecoou pela rua.

Quando finalmente alcançou o pátio da escola, parou por um instante para recuperar o fôlego. Foi então que a viu.

Maya.

Ela estava próxima das antigas colunas de pedra que sustentavam parte do pátio. A luz da manhã atravessava os espaços entre os pilares e desenhava reflexos dourados em seus cabelos escuros. 

Nada nela era extraordinário. Nenhuma joia. Nenhuma roupa elegante. Nenhuma beleza impossível. Mas, para Mustafa, ela parecia mais brilhante do que qualquer coisa que existisse na cidade.

Ao perceber que estava sendo observada, Maya ergueu os olhos. Por um segundo, seus olhares se encontraram. Então ela sorriu. Era um sorriso pequeno. Quase tímido. Mas foi o suficiente.

Mustafa sentiu o coração acelerar. Rapidamente desviou os olhos para não parecer bobo. Falhou completamente. Porque seu sorriso já ocupava metade do rosto. Maya percebeu.

E riu.

O som daquela risada foi mais forte do que qualquer sermão que ele ouviria naquele dia.

— Pega-pega! — gritou Mustafa.

E saiu correndo. Maya respondeu com outra gargalhada e disparou na direção oposta. Logo o pátio inteiro se transformou em caos. Crianças corriam entre as colunas. Outras gritavam instruções inúteis. Algumas apenas observavam a perseguição como se fosse o evento mais importante do mundo.

E talvez fosse. Pelo menos para Mustafa. Ele quase conseguiu alcançá-la. Os dedos tocaram a manga de seu vestido. Mas Maya escapou no último instante. Virou-se enquanto corria e mostrou a língua para ele. Mustafa fingiu indignação. Ela respondeu com mais risadas.

Naquele momento, o mundo parecia perfeito. Pouco depois, os sinos chamaram as crianças para as lições. O entusiasmo desapareceu imediatamente. Ou pelo menos desapareceu para Mustafa. Sentado sobre o chão de terra batida, ele tentava parecer atento enquanto o padre recitava passagens religiosas. Tentava. Mas não conseguia.

Seus olhos vagavam pela sala. Suas mãos procuravam distrações. Sua mente estava em qualquer lugar, menos na aula. Foi quando avistou o cajado do padre apoiado próximo à parede. Uma ideia surgiu. E ideias eram perigosas quando apareciam na cabeça de Mustafa.

Esperou. Contou alguns segundos. Observou o padre virar-se para escrever. Então agiu. Moveu-se silenciosamente, pegou o cajado e o escondeu atrás de uma pilha de mantos dobrados. Voltou para o lugar exatamente quando o velho religioso se virou novamente.

Poucos minutos depois veio a confusão.

— Onde está meu cajado?

As crianças permaneceram em silêncio. Mustafa também. Com uma expressão tão inocente que chegava a ser ofensiva.

O padre estreitou os olhos.

— Mustafa...

– Sim, padre?

— Você sabe de alguma coisa?

– Eu? Nunca.

Maya precisou cobrir a boca com as duas mãos para esconder o riso. Os olhos dos dois se encontraram. E, mais uma vez, aquele calor estranho apareceu dentro do peito dele. Um sentimento que ainda não compreendia. Mas que também não queria perder. 

O restante do dia passou como tantos outros. Brincadeiras. Risadas. Corridas. Pequenas travessuras. Momentos simples. Momentos comuns. Momentos que pareciam destinados a durar para sempre. Mas nada dura para sempre. Afinal, toda luz carrega consigo a promessa inevitável do entardecer. 

Quando o sol começou a descer no horizonte, Mustafa retornou para casa. As ruas estavam mais silenciosas. As sombras tornavam-se mais longas. A luz dourada da tarde começava lentamente a desaparecer. Ao entrar, largou-se no chão próximo à janela. O corpo cansado afundou na terra fresca.

Durante alguns minutos ficou apenas observando os últimos feixes de luz atravessarem a pequena abertura na parede. Então pensou em Maya. No jeito como ela corria. No som de sua risada. No sorriso tímido que sempre parecia esconder alguma coisa. Um sorriso involuntário surgiu em seu rosto. Fechou os olhos. E permitiu-se descansar.

Tudo parecia certo. O mundo era grande. O mundo era seguro. O mundo estava cheio de brincadeiras. Mustafa acreditava nisso com todo o coração. E talvez fosse exatamente por isso que a tragédia o escolheu.

Porque os dias mais sombrios raramente começam na escuridão. Eles começam sob o sol. E aquela seria a última tarde em que Mustafa veria o mundo como uma criança.


Thoughts

  • contoDeSexta

    Gostei muito daquele amanhecer todo. Dele a correr, do sorriso dela. De verdade, gostei.

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  • contoBreve

    Muita ação em poucas palavras. A parte da brincadeira é cinema puro.

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  • atepagina50

    Que detalhe da cidade, ruas e mercados até o pátio com colunas. Pesquisaste tudo isso ou foi imaginação?

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  • Simao

    Luz bonita, criança feliz, foreshadow pesado. Está tudo armado pra falhar, né?

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  • Rui_Salgueiro

    Aquela da bengala do padre é do tipo de coisa que a miúda minha ia também fazer, juro.

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  • Marina

    Estou sofrendo com o Mustafa e a Maya só pelos olhares deles 😭

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  • vqueiroz90

    Aquele aviso no começo já me deixa desconfiado. Aposto que esse amanhecer lindo é armadilha.

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  • tresPaginas

    O Mustafa vai encontrar a Maya de novo depois daquele dia? Porque se aquilo tudo acaba assim...

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