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Capítulo III — A Visão da Mãe Negra

Raiana
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A luz azul envolveu Amara como um manto.

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atepagina50

aquele lugar entre o oceano negro e as estrelas que pulsam... isso é espaço de verdade mesmo, ou só existe quando ela fecha os olhos?

aquele lugar entre o oceano negro e as estrelas que pulsam... isso é espaço de verdade mesmo, ou só existe quando ela fecha os olhos?

Conteúdo da publicação

A luz azul envolveu Amara como um manto.

O penhasco desapareceu.

O vento deixou de existir.

O tempo perdeu seu significado.

Ela já não sentia o peso do próprio corpo.

Quando abriu os olhos, encontrava-se em um lugar impossível de descrever.

Não havia céu.

Não havia terra.

Sob seus pés estendia-se um oceano negro, imóvel como um espelho. Acima de sua cabeça brilhavam incontáveis estrelas, cada uma pulsando como um coração vivo.

Ao longe, tambores ressoavam lentamente.

Tum...

Tum...

Tum...

O som parecia acompanhar as batidas de seu peito.

Então, do infinito, surgiu uma dança.

Primeiro, apenas sombras.

Depois, um redemoinho de fogo azul.

Em seguida, pétalas vermelhas começaram a cair do céu invisível.

Cada pétala que tocava o oceano transformava-se em um lótus luminoso.

Amara caiu de joelhos.

As lágrimas escorriam por seu rosto.

Ela compreendia que estava diante de algo que ultrapassava qualquer palavra.

No centro da luz surgiu uma presença majestosa.

Não era apenas uma forma.

Era uma força.

Uma beleza que inspirava reverência e um profundo sentimento de acolhimento.

Sua pele parecia conter a própria noite.

Seus longos cabelos moviam-se como rios sob o vento invisível.

Em seus olhos havia a serenidade de quem conhecia todos os sofrimentos do mundo e, ainda assim, jamais abandonava seus filhos.

Amara não ousou levantar a cabeça.

Sua voz saiu quase como um sussurro.

— Mãe...

O silêncio respondeu por alguns instantes.

Então uma voz, suave e poderosa ao mesmo tempo, ecoou por toda a imensidão.

— Amara...

Por que choras?

— Porque falhei.

Porque não fui aceita.

Porque nasci pobre.

Porque minha vida não tem valor.

A presença aproximou-se.

A cada passo, o oceano negro florescia em milhares de lótus.

— Quem te ensinou que o ouro mede a pureza?

— Foram os homens...

— E por que acreditaste neles mais do que na voz que sempre falei ao teu coração?

Amara permaneceu em silêncio.

Nunca havia pensado nisso.

A voz continuou.

— Muitos constroem templos de pedra.

Poucos constroem templos dentro de si.

Os primeiros desaparecem com o tempo.

Os segundos permanecem para sempre.

Então a visão mudou.

Diante de Amara desfilaram cenas de toda a Índia.

Uma criança órfã chorando à beira de uma estrada.

Uma mulher viúva sendo ignorada pela multidão.

Um velho doente abandonado sob uma árvore.

Um homem marcado pela guerra, incapaz de encontrar paz.

Cada rosto parecia carregar uma parte da dor que ela mesma conhecia.

Amara levou as mãos ao peito.

— Posso sentir o sofrimento deles...

— Porque teu coração aprendeu através da própria dor.

Quem nunca sofreu pode oferecer conselhos.

Mas apenas quem conheceu a escuridão pode caminhar ao lado de quem perdeu a esperança.

A jovem começou a compreender.

Seu sonho de servir à Grande Mãe jamais havia sido negado.

Apenas estava destinado a um caminho diferente daquele que imaginara.

A presença luminosa ergueu uma das mãos.

Da palma surgiu uma pequena chama azul.

Ela desceu lentamente até tocar o centro do peito de Amara.

A chama não queimava.

Espalhava calor.

Coragem.

Compaixão.

Toda a tristeza que durante anos habitara seu coração começou a desaparecer.

No lugar dela nasceu uma paz profunda.

A voz tornou a falar.

— A partir desta noite, caminharás entre reis e mendigos sem fazer distinção.

Verás além das aparências.

Curarás corações antes mesmo de tocar seus corpos.

Nunca estarás sozinha.

Mas lembra-te: teu maior inimigo não será a pobreza.

Será o orgulho daqueles que acreditam possuir a verdade.

Amara ergueu lentamente o rosto.

Pela primeira vez, conseguiu contemplar plenamente aquela presença.

E, naquele instante, percebeu que não estava apenas diante de uma divindade.

Estava diante do reflexo de tudo aquilo que existe: a criação e a transformação, a vida e a morte, o medo e a coragem.

Seu coração encheu-se de uma certeza que jamais sentiria novamente vacilar.

Quando a visão começou a se desfazer, a voz pronunciou suas últimas palavras.

— Amanhã, ao nascer do sol, encontrarás aquele que te ensinará o primeiro segredo do verdadeiro sacerdócio.

Ele não usa joias.

Não vive em templos.

E ninguém conhece seu nome.

Amara estendeu a mão, desejando permanecer naquele lugar por mais um instante.

Mas a luz dissolveu-se lentamente.

O som dos tambores cessou.

O perfume das flores desapareceu.

Ela abriu os olhos.

O primeiro raio de sol surgia atrás das montanhas.

Ainda estava sobre o penhasco.

Mas algo havia mudado para sempre.

No centro de seu peito, sob o tecido simples do velho sari, brilhava discretamente um pequeno símbolo azul, como uma chama viva.

E, pela primeira vez desde a infância, Amara sorriu sem lágrimas.

Sua verdadeira jornada estava apenas começando.

Thoughts

  • paginadobrada

    amara sorrindo sem lágrimas no final... fui interrompida na melhor parte

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  • oitoemponto

    que estranho ler isso no escuro do lado de alguém dormindo... como se a visão tivesse mesmo poder para acordar

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  • meioCapitulo

    poxa, ela vai encontrar esse cara sem nome amanhã? porque eu parei aqui e tenho que saber o que ele ensina

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  • marcao77

    que tipo de sacerdócio é esse que não usa joia, não vive em templo... dá vontade de descobrir junto

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  • deixoumarca

    amara saindo daquele penhasco com um símbolo queimado no peito é exatamente o tipo de coisa que as pessoas chegam aqui pra tatuar

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  • atepagina50

    aquele lugar entre o oceano negro e as estrelas que pulsam... isso é espaço de verdade mesmo, ou só existe quando ela fecha os olhos?

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  • contoDeSexta

    eu também já sofri pra entender o outro. essa parte doeu de um jeito bom, sabe?

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  • li_no_busao

    e aí, o que ela vai fazer com aquela chama no peito? porque parece que só começa aí mesmo, né

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