13. A CULPA RELIGIOSA
Não vinha com sermão.
Vinha com sussurro dentro da cabeça.
Uma voz que soava como a minha,
mas repetia palavras ouvidas no banco da igreja.
Cada vez que sentia algo bom,
algo que aquecesse o peito e fizesse os olhos brilharem,
a voz chegava:
´´Isso é errado. É pecado. Você vai pagar.``
Como ´´Carrie White`` no filme de Brian De Palma,
eu era a garota que os outros apontavam na igreja.
A que precisava ser salva do seu próprio pecado.
Transformava alegria em vergonha.
Desejo em sujeira.
Amor em mancha que eu precisava lavar
com lágrimas e promessas de nunca mais.
Pedia perdão por coisas que não tinha feito,
por pensamentos que não escolhi ter,
por um coração que batia no ritmo errado,
descompassado com a música dos santos.
Mas o perdão nunca vinha de verdade.
A culpa voltava no dia seguinte,
visita indesejada.
Como ´´Florence Welch`` em ´´Rabbit Heart``,
eu oferecia meu corpo como sacrifício
para um Deus que eu nem sabia se existia.
Porque a culpa religiosa não é arrependimento sincero.
É ciclo vicioso, corrente que prende a alma,
que me fazia sentir que eu era,
desde o início, um erro na criação.
Até que li ´´Mary Daly`` e entendi:
´´Se Deus é homem, então o homem é Deus.``
E se o homem me condenava,
talvez o divino estivesse em outro lugar.
— NelleAziul