4. A DÚVIDA SOBRE O PRÓPRIO CORPO
Olhava para minhas mãos:
´´Será que são grandes demais?``
Olhava para meus ombros:
´´Será que são largos demais para este mundo?``
Não era questão de beleza.
Era questão de pertencimento.
Meu corpo era um território ocupado,
e eu, uma turista dentro da minha própria pele.
Como ´´Audre Lorde`` escreveu em Zami:
´´Eu era uma mulher aprendendo a habitar meu corpo
em um mundo que queria que eu desaparecesse.``
As roupas não me vestiam direito
não porque estavam mal cortadas,
mas porque meu corpo pedia desculpas
por ocupar o espaço que lhe pertencia.
Encolhia os ombros para caber,
respirava fundo para disfarçar o peito,
andava devagar para não chamar atenção
para a única coisa que não podia esconder: eu mesma.
´´Janis Joplin`` cantava ´´Piece of My Heart``
e eu sentia que cada verso era sobre mim:
alguém tentando se partir em pedaços
para caber em algum lugar.
Era uma guerra silenciosa.
O inimigo era o espelho,
o campo de batalha, o quarto,
e a arma, minha própria mente:
´´Você não é bem-vinda aqui.``
Hoje sei: não era um corpo errado.
Era um corpo que ainda não tinha sido visto
por olhos que entendessem que ele era inteiro.
Mas naquela época, a dúvida pesava mais que os ossos.
E eu tentava encaixar minha forma
num molde que nunca foi feito para mim.
— NelleAziul