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1883 - Capítulo 6: Estrela Intercontinental Sensível

Fe_
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o meu dinheiro ele vem da rua. A droga que vocês e seus filhos usam e batizada com sangue! É mais financiamentos mais arma. Mais Bang! Bang!

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Capítulo 6: Estrela Intercontinental

Robert

O sol sueco de manhã cedo era lindo.

Os pássaros cantando, os carros esportivos estacionados. E no centro do estacionamento iluminada pelo sol ao fundo, havia a estátua de 4 metros de Edna D. Eanes, segurando a bandeira da Agência Internacional de Combate ao Narcotráfico e Narco-terrorismo. Uma imagem abençoada, com certeza. Ela segurava a bandeira vermelha com F.B grande em branco no meio e o AICNN em preto menor em baixo do nome maior. Robert estacionou seu carro ao lado dos outros em frente ao Country Club. Ao descer, percebeu que o carro do Gleen, o seu chefe, já estava lá. Tomara que não o tivesse feito esperar muito tempo — não seria uma forma interessante de começar o dia.

Ao pegar sua bolsa de tacos no banco do passageiro, ele entrou no clube.

Era e sempre foi deslumbrante — fundado pelo mesmo fundador da AICNN, Felipe das 6 Balas, para contribuidores importantes. Bandeiras de alguns países e um ou dois reinos tremulavam ao lado da entrada. Paredes com tijolos vermelhos queimados pelo sol, antigos, com colunas brancas na entrada, do chão até onde vinha a sacada do segundo andar.

— Bom dia, senhor Riojas! O senhor Hewitt está esperando na sala de jantar.

Um dos funcionários do lugar o cumprimentou assim que passou pela porta da frente. Robert apenas concordou com a cabeça e continuou andando, com passos leves e tranquilos, O chão de madeira refletia como um espelho e tornou seus passos altos o suficiente para algumas cabeças se virarem para ele — um baseado de manhã cedo era seu café favorito.

Ele passou por um corredor onde estavam próximos à entrada o primeiro-ministro inglês e o general japonês, ele parou no bar ao fim da sala de entrada. Sentou numa das cadeiras que tinha seu nome e colocou sua bolsa ao lado, no chão. A luz do sol invadia as janelas ao lado, iluminando todo o lugar. O garçom passava rápido, já que estava servindo o café da manhã na sala de jantar, mas ainda assim serviu um charuto e um copo de whisky para Robert, num prato de prata com entalhes dourados.

Fora a terceira ou quarta vez que vinha ao clube tão cedo pela manhã, por mais que não gostasse de levantar a essa hora, ele tinha que admitir que não era de todo mal, pelo contrário, o lugar parecia mais arrumado e tranquilo do que nunca.

Enquanto acendia o charuto, passos se aproximaram e alguém tocou seu ombro. Ele deu um gole no copo e se virou para pegar a bolsa no chão.

— Já comeu alguma coisa? Fiquei preocupado de ter te tirado da cama muito cedo e você dormir no volante.

Ele ouviu Gleen falar ao se levantar do banco.

— Tô bem, só queria que da próxima vez, não fosse tão cedo. — Robert balbuciou entre um bocejo olhando pro amigo enquanto terminava de beber o whisky.

— Deixa isso aí. — Gleen se aproximou para sussurrar. — Um juiz da Suprema Corte americana está aqui. — Gleen pegou o copo da sua mão e colocou na bancada do bar, e eles andaram até a porta de vidro embaixo das escadas ao lado, que dava para a área aberta. — Bora pro campo do lago, lá tem uns buracos que nunca joguei.

Na área atrás do bar ficava a magia — aquele Country Club se estendia para além da visão de Robert. Havia campos que ele nunca havia jogado, não que passasse muito tempo lá, O cheiro da grama molhada recém cortada, a descrição, já que oficialmente esse lugar não existe desde 1922. Eram o que contribuiam para tornar esse lugar tão adorável.

Gleen olhou para os lados mas não viu ninguém por perto. Robert conseguiu ver um carrinho de golfe a alguns metros, e foram andando pelo curto caminho de pedras na grama.

— A idade tá chegando, Papai Noel. Uma hora vai ter que parar de entregar os presentes. — Robert soltou algumas pequenas risadas com o charuto. Notava a ofegância do amigo e diminuiu um pouco a velocidade dos passos.

Gleen soltou uma gargalhada enquanto andava devagar ao lado dele. — Ainda não. Tem muitos desgraçados na lista que ainda não receberam o carvão.

E finalmente haviam chegado ao carrinho de golfe. Alguém deve tê-lo esquecido lá cedo — por algum motivo aquele lugar parecia mais cheio que o normal lá atrás.

Robert tomou o volante e seu velho amigo sentou ao seu lado.

— Era sobre isso também que eu queria falar com você. — Gleen ofegava a cada palavra, talvez tivesse comido demais. — Se lembra daquele filho bastardo do Morath Nechestnyy?

— Você tá bem? Quer voltar? Se quiser eu te levo pra casa? — Robert falou rápido enquanto verificava o relógio do amigo. — Por que você não compra um daqueles relógios inteligentes? Meu pai usa um e ajuda bastante a monitorá-lo e...

— Não, eu tô bem. Você se lembra ou não? — Gleen perguntou impaciente, enquanto se segurava no banco.

— O que entrou pro serviço secreto deles antes de ir pra guerra em 2007? — Robert se concentrou no caminho para o Campo do Lago, ele não tinha ido muitas vezes. Viveu num período de poucas guerras, aquela parte do Clube era a mais afastada e longe dos outros. — O que tem ele? Pelo que sei, sem chances na sucessão da coroa deles. Morreu em combate, ou alguma coisa assim.

— Mas nunca acharam um corpo, né. — Gleen respondeu, pondo seu chapéu branco para tapar um pouco o sol da visão.

— Não, nunca acharam. Mas é óbvio, seria quase inacreditável se alguém achasse o corpo dele no meio de tantos outros. — Robert parou o carrinho de golfe e olhou para o amigo. — O que é que ele tem a ver? Você acha que ele tá vivo?

— Alguns agentes infiltrados, confirmaram ele em Butte. Como detentor de um terço do crime no estado da casa Montanna, que reflete no resto do Pais. Segundo eles, ele foi trazido do lado leste do globo pelo tio, líder daquele grupo chamado Chama num sei duque...— Gleen carregava um colar dourado fino com sigo, que ele apertava um pouco sobre a camisa polo branca.

— Droga! — Robert exclamou enquanto apertou o volante do mini carro — ficamos dando voltas atrás desse arrombado, eram muito escorregadio.

— Pois é, ao fim da Guerra dos bastardos na Floresta dos patetas, ele e os sobreviventes formaram um grupo mercenário narco-terrorista, e levou o sobrinho para o continente americano. Também segundo os agentes da inteligência, ele estaria reunindo forças no país para se juntar ao tio e tomar o Trono de Kholyn. — Gleen cuspiu a cada fim de frase, seu nojo pelas realezas era de transbordar.

— Isso é maluquice. — Robert parou para pensar, o quão maluco era aquela ideia. — Ele não vai conseguir, ninguém no país tem essa força de apoio para ele. — Robert parou o carrinho de golfe próximo ao campo que se estendia até um grande lago, onde nadavam alguns cisnes brancos.

— Pois é. Poder ele já conseguiu — Gleen desceu do carrinho devagar um pés após o outro sobre a grama e Robert o acompanhou carregando as duas bolsas com os tacos. — O moleque, matou o irmão de um dos Lordes do crime e colocou o FBI para juntar os pedaços do coitado.

— E porque o presidente deles não toma frente disso? não temos agentes lá para fazer a proposta? — Robert acompanhou Gleen ate um morro um pouco mais alto do campo. Lhe dando uma visão de encher os olhos do lugar, sempre que ele ia lá e se sentia desconectado do resto do mundo, como se estivesse no verdadeiro paraíso.

— Tão todos envolvidos, e o presidente deles é um inútil, a mulher esta a mais de 8 anos no poder, e se deixou ser intimidada por criminosos em todos eles. — Enquanto Gleen falava Robert lhe passou um de seus tacos e ele posicionou uma pequena bola ao pino cravado no chão. — Enquanto eles envenenam o mundo e lucram sobre cada ovelha que prova o sangue.

— E quando começamos a por agentes para sondar ele? — Robert questionou em dúvida, já que há alguns meses agência precisou retirar alguns agentes de uma situação complicada há alguns meses e os custos de uma operação como essa pesaria. E ele como segundo no comando e presente em muitas questões sustentaria a responsabilidade desses gastos.

— Há cerca de 8 anos, um pouco depois dele ser "adotado" pela família real antiga do Texas. — Gleen se esforçou para dar sua primeira tacada com força suficiente para fazer a pequena bola sumir ao longe e desaparecer ao atingir o chão entrando num buraco ao longe, Robert nem notara aquele buraco tão longe.

— Caralho! — ele exclamou ao ver aquela tacada, com um tom desacreditado. Conhecia as habilidades do amigo, mas se impressionava sempre que presenciava suas habilidades mesmo naquela idade. — E o que os Ironhorn iriam querer com um bastardo?

— Oque eles querem? — Gleen se alongou dando um estalo nas costas e fazendo sua camisa subir na barriga gorda e murcha — desde 1845, eles...

Gleen era interrompido pelo seu celular que começara a tocar no bolso do seu short, apesar dele tentar ignorar, o toque era insistente, ele puxou o celular do bolso e uma pequena foto da sua mulher aparecia na tela.

— É eu acho que ela tá preocupada pela hora que sai.

— Não, tranquilo pode atender ai. — Robert se afastou um pouco do amigo e foi sentar no carrinho que estava a alguns metros afastado. Ficara admirando o calor do sol da manhã e acendera o charuto que havia deixado no carrinho.

Alguns tragos no charuto foram suficiente para levar sua consciência para outro lugar mesmo que só por um instante. Mas não durou muito, logo ele via seu amigo caindo para trás na grama, largando o celular e apertando o peito.

Gleen caiu no chão e imediatamente Robert correu até ele, não precisou se preocupar em chamar ninguém já que pode escutar um helicóptero de longe vindo ate eles.

Ele verificou o pulso acelerado do amigo e afrouxou os botões da camisa polo e o cinto da calça.

— Respira devagar e fica calmo tá a ajuda já tá vindo — Robert olhou para o helicóptero que se aproximava e fazia seus cabelos bagunçarem ao vento. — É parece que esse campo não é tão discreto assim.

O helicóptero pousou próximo e alguns homens desceram com uma maca.

— Meu celular. — Gleen tentou falar em meio ao barulho das hélice do rotor principal do Helicóptero enquanto a apontava para o dispositivo no chão que ainda estava em chamada.

Robert se afastou do amigo que fora carregado por outros dois homens para dentro do helicóptero para pegar o celular no chão e se afastou deles.

— O que aconteceu Laura? — Robert gritou próximo a tela do celular. — Tá tudo bem?

Porém, olhando para a tela do celular ele não via Laura, a mulher do Gleen do outro lado da ligação de vídeo e sim o homem que esteve em alguns de seus piores pesadelos durante 9 anos.

— Ai, vou falar muito não, que nois não tem muito pra conversa não. A mulher já era — Ethan virava a câmera do celular que antes que mostrava seu rosto para a Laura no chão no canto de sala escura vazia, suja por sangue. — O filho dele ainda até que tá respirando o filha da puta, novecentas facadas no coração, mas o menino é bom. Tá respirando ainda. Por enquanto.

— Eu vou te encontrar seu des— Antes que Robert pudesse continuar Ethan lhe interrompeu com um tiro de escopeta na cara da Laura que já estava sem vida no chão.

— Ai arrombado, a faca é o queijo tá comigo. a única coisa que você tem pra negociar é o pão. Então só quero escutar você falando o que eu quero ouvir, ou pode ter certeza que você vai preferir não achar o corpo deles três.

Robert ficara branco já que acabara de se lembrar que o Gleen tem uma filha mais nova que viajava para Itália com algumas amigas.

— Como eu sei que ela tá bem? — Robert questionou irado contendo a espuma da boca e rangendo os dentes.

Ethan então virara a câmera para o outro lado da sala, onde ela estava, sentada, acorrentada e pelada ao lado do corpo do irmão que engasgava no próprio sangue.

— É o seguinte — Ethan volta a câmera do celular para si enquanto ele parece subir uma escada e sair do lugar onde estava, ele vai para um campo aberto, o sol bate em sua cara iluminando sua pele parda e cabelos escuros e sua íris âmbar parecia mais viva do que nunca. No campo atrás dele, podia se ver muitos soldados bem armados conversando e tomando café, alguns estavam encostados em lançadores transportadores eretors pesados, que Robert reconheceu na hora que passara por seus olhos, projetados para transportar e disparar mísseis balísticos nucleares de alcance intercontinental e algumas bases de sua Superpotência Clandestina Narco-Militar. Chama Intercontinental. — não quero a AICNN se metendo no nosso pé, não quero vocês se metendo nos problemas do outro lado do globo, problema de americano é problema somente de americano. Vocês fazem vista grosa pra crianças que eles estupram e matam, tenho certeza que podem e vão fazer esse favorzinho pra mim não é?

Robert enfim teve a chance de falar algo, mas sua boca não conseguia se fechar com o que via, agora entendera o ataque cardíaco do Gleen.

— Vocês vão se fingir de cego e eu prometo não começar a terceira guerra mundial. — Robert escutou Ethan dizer antes dele largar o celular e dar alguns tiros nele encerrando a ligação.

Robert ainda ficara com o celular do amigo sem reação aparente no rosto a não ser a de medo.

Antes de sair correndo com ele da mão, seu desespero para chegar ao carro e ir para a base central da agência era tão grande que esquecera de usar o carrinho para voltar.

Fenrir

— Cadê eles, mano? Os cara nunca aparecem na hora. — Um jovem sentado no capô de um carro em uma esquina à noite jogava as palavras ao vento ao lado do seu amigo. — Mania feia do caralho.

Da escuridão da madrugada, um carro surgiu rompendo a névoa. Ela se desfazia ao redor dele à medida que se aproximava.

— Olha eles aí. — O outro jovem retrucou se desencostando do carro e apagando o cigarro.

O carro parou do lado deles, os faróis estavam apagados e a única janela que abaixou foi a do passageiro, bem ao lado deles.

— Aí, a parada. — Fenrir entregou um bloco a eles enrolado em papel alumínio.

Dylan, que estava ao lado dele, nem virou a cara. Continuou com as mãos no volante e olhando pelo retrovisor.

O jovem mais próximo, que estava sentado no capô, pegou o bloco e o sopesou na mão.

— E esse é um quilo de crack? Tá certo? — O jovem perguntou olhando pro Fenrir que o olhou de volta com as sobrancelhas levantadas. — Tipo, sei lá, né. Tá parecendo menor.

Fenrir olhou para a droga, olhou para o outro jovem e baixou um pouco mais o vidro que antes só revelava até a linha dos seus olhos.

— É, aí tem setecentas gramas. A carga tá acabando, então tamo tendo que dividir certinho pra todo mundo fazer uma moeda. — Ele retrucou, enquanto acendia um baseado. — Mas semana que vem nóis já vai pegar uma parada massa. Aí nóis se acerta.

— Demorou, então vou mandar lá os sete mil no pix. — O jovem que estava com o produto em mãos acrescentou, jogando o bloco dentro do carro.

Fenrir ficou lá e olhou eles entrarem dentro do carro antes de falar pro Dylan continuar.

— Toma no cu, véi. Menos três mil de cada um que nóis fez as entregas de crack hoje, é uma check. Tá ligado, né? — Dylan grunhiu irritado acelerando o carro.

— Os cara lá de Israel falaram só semana que vem. — Fenrir bufou cansado, a fumaça do baseado enchendo o carro. — Nóis vai ter que segurar as pontas até lá.

— Segura as pontas levando bala, é complicado né, véi. — Dylan resmungou enquanto dirigia pela rodovia e passavam por uma placa sinalizando que saíam de Butte. — Tomara que aquele padre tenha todo o dinheiro da gente.

A cidade vizinha, Anaconda, ficava a uns 30 minutos de carro de Butte. Uma viagem tranquila naquela noite — o dia já havia sido agitado o suficiente.

As palavras de Dylan não passaram despercebidas da mente entorpecida do Fenrir. Não tinha mais volta, não existia segunda chance, as peças estavam no tabuleiro — fazer a jogada inicial não garante uma vitória.

Homens, armas, território e alianças. A mente viajava em formas diferentes de conseguir todos eles ainda nessa semana, se não provavelmente nem passariam dela.

A paranoia veio junto com o baseado, sem convite, martelando sua consciência.

Passou toda a viagem de volta pensando na mesma coisa. Agora, seguindo para Anaconda, a pergunta continuava lhe perseguindo.

Será que ele ou alguém tinha acertado o Cody?

Sua mão levava o baseado até os lábios, mas tremia um pouco.

Ele preferia pensar que era o frio, mas já havia passado por madrugadas piores na Rússia.

Se lembrou de quando isso acontecia, quando ainda morava com a Isobel. Cody o ajudava nesses momentos — as sequelas que a guerra deixara em seu corpo não poderiam ser curadas por nada nesse mundo, e mesmo assim seu primo sempre soube ajudá-lo.

Até na saudade de casa, Cody nunca falou muito sobre seus pais e Fenrir também nunca perguntou muito à Isobel ou à Ari. Não que importasse muito também. Mas um dia a conversa surgiu com o Cody enquanto ambos cheiravam pela primeira vez juntos e compartilharam esse momento. Foi um dia para lembrar.

Cody

— Ei, espera aí! — Um jovem gritava enquanto corria, seguindo uma menina que disparava na sua frente, fugindo de um homem alto de terno que os perseguia para fora da escola — uma grande estrutura de três andares, a Eastmore Academy, localizada no Upper East Side, um dos bairros mais nobres e ricos de Nova York.

Cody correu até conseguir sumir da visão do coordenador em meio aos carros e pessoas da calçada. O homem de meia-idade estava ofegante e preferiu recorrer ao escritório da diretora — esse comportamento do Cody estava ficando comum demais entre eles.

— Você tá muito devagar. — A jovem Arienne, que era três anos mais velha, falou ofegante, parando de correr e se aproximando do primo. — Vamos, o pessoal já tá no parque, só falta a gente.

Cody seguia a prima que liderava um caminho seguro longe dos olhares dos funcionários da escola até o Central Park, que ficava próximo.

O caminho era um pouco demorado até lá, e metade dele Cody ficou calado, meio cabisbaixo. A prima notou o silêncio que não era comum nele.

— Hoje foi o melhor dia pra faltarmos. De jeito nenhum que eu vou participar daquela apresentação ridícula que o professor de história pediu. — A garota comentava em tom alegre com o primo que continuava calado. — Tá tudo bem?

Cody se tocou — estava perdido em algum outro lugar.

— Tá sim, só tava pensando demais. — O garoto fez uma pausa pra enxugar os olhos que haviam ficado molhados.

Então sua prima parou e tocou em seu ombro.

— Ei, o que aconteceu?

— Acho que a mamãe vai terminar com o papai. — O garoto falou segurando o choro e continuando andando. — Ele parece que não pensa na gente. Vive na rua, fora a trabalho, ele diz.

— É, eu escutei minha mãe comentando com a sua. — Arienne acelerou um pouco o passo para seguir ao lado do primo. — Não precisa se preocupar com isso, eles se amam muito. Vai tudo ficar bem, deve ser só uma fase.

— Eu espero que não. — Enxugando mais lágrimas. — Não quero falar disso. — Se aproximando do local, Cody encerrou o assunto com a prima. — Onde tá todo mundo?

— Acho que nem devem ter vindo pra escola hoje. Bando de traidores, nem avisam. — A garota resmungou com o Cody antes de sugerir que fossem tomar um sorvete e matar um tempo antes de ir para casa.

Foi o convite perfeito para ele. O dia estava quente. Eles sentaram em um banco da praça tomando seus sorvetes, conversaram bastante — aquele tipo de conversa pra jogar o tempo fora que ele sempre adorou ter com ela. O tipo de prima que ele queria como irmã, mas sua mãe não podia mais ter filho por um abuso de drogas passado. Claro que ela só disse a ele que a cegonha só tinha uma criança tão especial quanto ele pra ela.

Ficaram lá até Arienne receber uma mensagem da mãe falando que estava indo buscá-la. Ela nunca conseguiu desativar o rastreador do celular por mais que tentasse.

— A mamãe já tá ali, vamos. — Arienne chamou Cody para entrar no carro de sua mãe, que já havia chegado no fim da tarde para buscá-los.

— Por que vocês faltaram à escola, Ari? Eles ligaram três vezes pra mim pra avisar que você havia faltado metade das aulas do dia. — Foi a primeira coisa que escutaram da mãe dela ao entrar no carro. Uma jovem vampira, ruiva. A segunda mulher mais bela que Cody já havia visto em sua vida, só atrás da própria irmã dela.

— Ainda arrastou seu primo junto, né? — Isobel terminou de bufar e virou o rosto para o Cody. — Bem que eu falei pra sua mãe que você só podia tá com ela. — Cody se ajeitava no banco de trás do carro junto à filha dela.

— Mas mãe, foi porque a aula de hoje era— — Antes que Arienne pudesse concluir, sua mãe a interrompeu.

— Não quero saber, Ari. Então quer dizer que a partir de agora, só com treze anos, você quer escolher as aulas que assiste? — Ela condenou, olhando uma última vez para a filha antes de ligar o carro. — Que faculdade aceitaria alunos com tantos buracos no histórico de aulas? Não quero escutar nem um pio de vocês dois o caminho todo.

O caminho até a casa do Cody foi demorado e silencioso — o trânsito estava horrível em Manhattan. Mas não foi de todo mal. Pôde aproveitar um último momento com a prima, e sua tia no fim das contas não era essa mulher rígida que tentava parecer.

— Obrigado por me trazer, tia. — Cody agradeceu abrindo a porta de trás do carro. — Até amanhã, Ari.

— Tchau, querido. — Isobel se despedia do Cody pela janela do carro. — Diz à sua mãe que amanhã eu falo com ela. Hoje tô muito ocupada e ainda tenho que levar a Ari pra casa. Tchau, beijo.

Elas partiram. Cody viu sua prima acenando com a mão pelo vidro traseiro do carro e se despediu de volta.

Sua casa ocupava uma seção de um longo conjunto de sobrados de três andares. A fachada de arenito marrom, as janelas altas e a escadaria estreita que levava à porta de entrada faziam dela praticamente indistinguível das outras cinco casas que dividiam o quarteirão.

Cody bateu a porta de casa. Depois de alguns segundos sua mãe atendeu.

Ela o puxou para dentro pelo braço com uma cara não muito feliz.

— Você já acha pouco as preocupações que eu tenho, né? — Um tapa atingiu o rosto do Cody. — Ainda falta à escola que eu e seu pai nos matamos pra pagar.

Ela largou Cody próximo à mesa de jantar.

— Você não acha que tem nada para dizer não? — Ela o encarou enquanto o fazia sentar à mesa. — Que saber, tudo bem. Tentei, mas não ia dar certo mesmo, né.

A mãe do Cody deixou escorrer algumas lágrimas enquanto tentava esconder, pegando um prato de comida que estava posto na cozinha.

— Desculpa, mãe. Eu não tava mui— — Cody foi interrompido pela mãe que pôs um prato à mesa à sua frente.

— Tudo bem, Cody. Não interessa mais mesmo não. — Ela segurou o choro e enxugou as lágrimas. — Come logo. Eu vou estar lá em cima arrumando suas coisas. A gente vai passar um tempo na casa da sua tia.

A mãe dele pôs a mão sobre sua cabeça e bagunçou seu cabelo curto ondulado antes de se virar e subir as escadas. Cody estava desanimado por ter que sair de casa tão de repente, mas pelo menos ia para a casa da tia. Lá já era melhor que os hotéis das outras vezes.

Sua mãe era linda — uma jovem vampira de trinta e dois anos, loira, com olhos castanhos claros. Era difícil para ele dormir ao lado dela, sabendo que ela estava se derramando em lágrimas do outro lado. Na casa da tia pelo menos ela teria mais conforto e alguém para conversar.

Cody passou um tempo enrolando, mexendo a comida de um lado para o outro, comendo devagar.

Então alguém bateu a porta. Três vezes, forte e alto.

Quem seria? Eles não esperavam visitas. E se fosse o pai não tinha necessidade de bater.

Ele se levantou da cadeira e foi até a porta, mas antes que pudesse colocar a mão na maçaneta:

— Cody? — A voz que parecia ser a do seu pai murmurou do outro lado da porta. — Eu sinto seu cheiro, filho. Abre a porta, por favor. Eu preciso falar com sua mãe.

Cody ficou parado em frente à porta. Ele sabia que não deveria abri-la — seus pais haviam brigado há uma semana, ela apareceu com um olho roxo, e foi a última vez que foram dormir em um hotel. Sua mãe já havia falado há alguns dias para ele não deixar o pai entrar. A casa era deles e Cody estava com saudades. Mas ele não queria ver sua mãe machucada de novo, então se afastou da porta e voltou a sentar à mesa de jantar para terminar de comer.

"Uma hora ele vai embora e eu posso me desculpar outro dia", ele pensou enquanto pegava o celular e colocava os fones de ouvido.

Assistia a um vídeo sobre o desenho que via muito com a prima — alguém analisando em quantos momentos a raposa poderia ter pego a ave sem dificuldade.

Até que um barulho alto o interrompeu — um som de tiro seguido de outro, vindo do segundo andar da casa.

Ele tirou os fones para escutar, e correu para a escada.

Outros sons invadiram seus ouvidos — pareciam ser tapas e murros seguidos, um atrás do outro, cada um mais forte que o anterior. Barulhos de móveis caindo e sendo quebrados ficaram altos e violentos.

Quando Cody subiu ao segundo andar, antes que pudesse entrar no quarto onde sua mãe estava, seu pai abriu a porta.

Em forma vampírica bestial. Dentes tão longos que mal cabiam dentro da boca. Olhos negros e fundos com uma íris vermelha que cintilava junto do batimento cardíaco do pai.

— Ei, campeão. — O pai o olhava com um ódio que não conseguia disfarçar. Olhou para o Cody, olhou de volta para dentro do quarto atrás dele, e fechou a porta.

Mas não antes de Cody ter uma visão da mãe.

Jogada no chão com o pescoço quebrado no meio, ainda agonizando, afogando no próprio sangue. Vidros da janela do quarto estavam fincados no corpo dela.

— A vadia ficou, ia nos abandonar. — Ele se abaixou e pegou no ombro do filho que estava paralisado à sua frente. — Você sabe que eu te amo, né?

O rosto do pai próximo ao seu era assustador. O cheiro de álcool no hálito era tão forte que Cody poderia ficar tonto. Ele nunca o tinha visto tão perto em forma bestial — sua boca nem fechava com tantos dentes. A qualquer momento Cody sentia que seria devorado vivo.

— A ma— a mamãe... — Cody tentava falar enquanto tentava não chorar. — A mamãe tá bem?

O suor nervoso que escorria pela sua testa era incomum para ele, acostumado com o sangue frio.

— Minha mãe tá bem, né, pai? — O garoto não conseguiu controlar as lágrimas que caíram sobre sua bochecha rosada e escorreram pelo queixo.

— Ei, olha pra mim. — O pai pegou seu rosto em uma das mãos, que tinham unhas tão afiadas e longas quanto seus dentes. — Não importa. Para ela nunca importou. Ela nunca nos amou de verdade. — Com as veias negras pulsando no rosto medonho, ele ainda conseguiu que aqueles olhos negros lacrimejassem sobre o brilho da íris cor de vinho.

— Aquela vagabunda nos traía sempre que podia. — O pai do Cody falou em pausas, como se estivesse com um choro entalado na garganta. — Eu tenho meus defeitos. — Balançou a cabeça concordando consigo mesmo. — Eu sei. O jogo. Eu prometi tudo a ela. Que pararia de apostar, qu— — Fez uma pausa, virou o rosto e tentou engolir o que para o Cody parecia ser uma voz carregada de tristeza.

Cody tentou passar pelo pai. Ele não deixou.

— Mãe. — Cody gritou entre o pai e a porta. — Ma— mãe. — Gritou uma última vez segurando o choro.

— Ei, essa casa— — O pai bateu no assoalho com a ponta das unhas de uma das mãos. — Recuperaríamos. A irmã dela tem dinheiro, ela poderia nos ajudar.

O pai, sem conseguir se segurar, virou o rosto para longe do Cody e vomitou uma aliança junto de uma unha postiça pintada. Virou o rosto de volta para o filho com um sorriso torto e sem graça.

— Ei, eu ainda sou eu. Ainda sou seu pai. — O pai chamava a atenção do filho que ainda estava voltada para a porta atrás dele, com aquela imagem na cabeça. — Isso não é culpa sua. Vai ficar tudo bem. — Ele puxou Cody para um abraço. — Vem cá.

Um abraço tão frio quanto poderia ser.

Cody não aguentou e caiu em lágrimas enquanto abraçava forte o pai e olhava para o vômito no chão. Cor de caramelo era o esmalte preferido de sua mãe. Suas mãos tremiam ao encostar no pai no abraço.

Alguém bateu a porta e tocou a campainha.

— Ei. — O pai rompeu o abraço. Cody olhou em seu rosto uma última vez — podia sentir o hálito forte de álcool a cada sílaba que o pai pronunciava. — Preciso que você vá para o meu quarto e se esconda embaixo da cama. Tá ouvindo? Vai.

Cody obedeceu chorando, sem querer ir, enquanto o pai o empurrava para o cômodo.

— Polícia de Nova York!

Alguém batia a porta e gritava do lado de fora. O pai do Cody o empurrou para dentro do quarto e trancou a porta.

No mesmo momento, a porta que batiam foi levada ao chão.

— Polícia de Nova York! Ponha as mãos sobre a cabeça e volte à sua forma civil!

Muitos passos ecoavam na audição do Cody — subindo rápido.

— Mãos na cabeça, seu desgraçado! Destransforma e fica de joelhos!

Um policial em forma espectral que entrou pela janela do quarto ao lado gritou para o pai do Cody, que tentou fugir por onde havia invadido.

Passos e mais passos subindo para o segundo andar.

— Fica civil, filha da puta! Destransforma e fica de joelhos!

— Que droga. — Um dos policiais que havia aberto a porta do quarto ao lado falou. — O desgraçado matou ela. Central, temos um corpo aqui. Não chegamos a tempo da denúncia da I-189 na...

Cody estava escondido embaixo da cama. Suas mãos tremiam e sua visão ficava esbranquiçada nas bordas. Sentia uma vontade de vomitar que mal podia controlar.

Com o rosto virado para o chão ele caía sobre mais lágrimas, enquanto sentia todas as suas forças indo junto delas.

Cada vez que fechava os olhos, o rosto da mãe vinha à sua cabeça — como ela era bonita. Como em um dia no parque o rosto dela sobre a luz do sol de manhã parecia divino. Como os abraços dela eram quentes. E quanto seu pai havia estragado tudo isso.

Mais lágrimas caíam dos seus olhos enquanto, sem que ele percebesse, era levado por um policial até a parte de fora da casa, onde foi atendido por uma das ambulâncias lá fora.

Então, quando finalmente parou para perceber — seu pai estava algemado por policiais sendo levado para uma viatura. E o que parecia ser sua mãe estava dentro de um saco preto.

E ai, Cody!

— E aí! quer ver um bagulho de doente que o padre me mandou? — Leviano perguntou ao Cody, puxando o celular do bolso da calça e dando play num vídeo.

— Aí, verdades e mentiras eu tenho muitas pra contar também, mano. Aos 44 do segundo, vocês querem vir falar de paz? Tem uns malucos que falavam disso há três anos, tá ligado? — Um homem de balaclava se gravava com o celular, segurando uma pistola em uma das mãos. — A bola do mundo me deixou na mira dos internacionais. Então demorou. — Ele disse enquanto a câmera revelava pelo menos mais cinco pessoas de balaclava e armadas com pistolas, atirando para o alto e fazendo sinais de facção. Um deles erguia uma bandeira de Israel.

— Cês tão ligados que eu sou notícia. Sou ibope. Tô na melhor parte dos jornais.

— Quem sou eu? Nem vocês e nem eu sabe. Já morri, matei, já roubei. Acabou que rodei altas mão. Mas agora tenho tudo que preciso pra fazer diferente.

— E aí, quer saber? Não vem pagar de pam se não for porra nenhuma. — Em uma pausa ele voltou a gravar os amigos — alguns até pareciam menores, balançando pistolas e granadas na cintura, provocando. — Essa guerra vocês não sustentam, não.

— Se precisar mandamos pro paredão. Sem estresse, seus arrombados. Tô com bala na agulha. — Ele pausou a fala para entrar no carro e deu mais dois tiros pela janela do passageiro. — O meu dinheiro vem da rua. A droga que vocês e seus filhos usam é batizada com sangue. É mais financiamento, mais arma. Bang! Bang! — O homem de balaclava imitou o som de disparos uma última vez antes do vídeo terminar.

Cody viu aquele vídeo com um rosto incrédulo. Um ódio forte se acumulou no seu peito, seu coração batia acelerado ainda mais pela situação em que estava.

— Agora, vou perguntar a ele pra que mandou isso. Acha que vai fazer nóis voltar atrás e se deixar intimidar, por acaso? — Leviano praguejou enquanto digitava no celular.

Era noite. Ele e Leviano estavam com o carro encostado na estrada. Aquele vídeo pareceu um filme de terror — similar a muitos vídeos terroristas que Cody já havia visto.

Naquele momento ele concluiu um pensamento forte que tinha sobre o primo.

Sobre o quão rápido ele podia cagar com a própria vida.

Uma caminhonete passou por eles. Leviano ligou o carro girando a chave rápido no contato e a seguiu, mantendo uma certa distância.

— E aí, essa é a caminhonete dele? — Leviano perguntou acelerando um pouco o carro e pondo a mão na arma da cintura.

— É, eu acho que sim. — Cody respondeu puxando sua arma enquanto Leviano acelerava o carro para ficar ao lado da caminhonete preta. Cody viu a placa e alguns furos de bala — com certeza aquela era a caminhonete do Fenrir.

Com o carro paralelo à caminhonete, Leviano abaixou o vidro e disparou enquanto dirigia em direção ao motorista, que estava com todos os vidros levantados. Cody fez o mesmo do banco do passageiro — com uma Mac-10 ele rajou os vidros do banco de trás na esperança de acertar alguém.

A caminhonete não durou muito na estrada. Logo o motorista deve ter perdido o controle e acabou capotando em alta velocidade. Um tombo feio — a caminhonete rodou pelo menos três vezes.

Na cabeça dele, aquele assunto tinha acabado ali.

Leviano parou o carro a alguns metros da caminhonete tombada, deu ré e fez o caminho de meia-volta.

Thoughts

  • Fe_

    Atualizado!

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  • TintaEAvesso

    Sacou onde tu acertou? Na última linha. Dizer que na cabeça dele o assunto tinha acabado ali já entrega que não acabou, e sem precisar avisar ninguém. Fecha o capítulo e abre o próximo no mesmo movimento. O vídeo antes disso é o único ponto que eu mexeria: ele explica com palavra o que a cena já tinha mostrado.

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