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1883 - Capitulo 3: RATOS Sensível Spoiler

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Craig havia verbalizado algo que o Cody já vinha cozinhando a noite toda sem conseguir servir — uma ideia que ficava quente demais para tocar de frente. Por que ele? O que o Fenrir teria a ganhar? As perguntas eram rápidas demais para ter resposta, e a ausência de resposta era a resposta que mais doía. — Não sei. — Cody olhou pela janela. A caminhonete do primo já não estava mais lá. — Mas nós vai ter que pressionar essa ferida pra ver que dor ele sente

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poeta93

Aquela cena no elevador, o tempo passando devagar demais pra cabeça. Isso é paranoia pura. A gente sente o peso da suspeita doendo.

Aquela cena no elevador, o tempo passando devagar demais pra cabeça. Isso é paranoia pura. A gente sente o peso da suspeita doendo.

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Capitulo 3: RATOS

É noite em Williamsburg.

Fenrir dorme na cama de solteiro com o lençol enrolado nas pernas, suando mesmo com a janela entreaberta. Na cabeceira, os remédios para dor contra prata formam uma fileira pequena e silenciosa que dizia tudo sobre como o dia tinha sido.

Na sala, as luzes estavam apagadas. A escuridão da noite entrava pela janela como se tivesse peso próprio.

Cody estava encostado no sofá com um baseado fino entre os dedos e o rosto iluminado pela televisão pequena que passava as imagens da operação. Cinquenta AKs. Quarenta e sete diamantes e ouros que iriam para todo canto do país. Quilos e mais quilos. O repórter falava com aquele tom que tentava soar neutro e não conseguia esconder o deleite.

Ele havia feito a conta três vezes. Vinte e quatro milhões — a parte deles. Cento e treze milhões era o que precisavam para viver mais um trimestre.

O celular vibrou na mesa.

Volkov & Morningstar Legal Group. 666 Lexington Avenue, Floor 47, Manhattan, New York City 10022.

Cody apagou o baseado na borda do cinzeiro. Desligou a televisão. A sala ficou completamente escura por um segundo antes que seus olhos se ajustassem.

Do lado de fora, ele parou com a mão ainda na maçaneta. Olhou para cima.

O céu de Williamsburg estava limpo demais para uma noite com esse peso. As estrelas pareciam não saber o que estava acontecendo lá embaixo.

Tava uma noite linda para morrer, ele pensou.

Seu corpo foi se desfazendo — primeiro os contornos, depois o volume, depois tudo — até virar uma fumaça densa e escura que girou em torno de si mesma e disparou para cima como uma bala. Acima das nuvens, o rastro preto se fundia com o céu e ele ficava quase invisível. Lá em cima o frio era reconfortante. Os problemas não desapareciam, mas ficavam longe o suficiente para parecerem de outra pessoa por rapidos quarenta e quatro minutos, naquela noite inacabável.

Na frente do edifício, Cody passou a mão no rosto antes de dar um passo. Estava nervoso. Terceira vez que vinha e ainda não havia conseguido se acostumar com a sensação de ser tão pequeno naquele lugar.

O porteiro abriu a porta antes que ele chegasse perto o suficiente para bater.

— Senhor Martin.

O salão era incompatível com o exterior do prédio — que já era colossal — como se o espaço interno tivesse sido dobrado por algo que não era arquitetura. Mármore branco com colunas, com detalhes em ouro. Uma multidão de seres se movendo em todas as direções com uma urgência caricata.

A estátua estava no centro, como sempre. Quinze metros de altura. Um lobisomem, um orc e um vampiro em forma bestial, com humanos esquartejados aos pés e vísceras nas garras. Estava cravado na base:

"Se rebaixar não faz parte de sua natureza e aquele que continuar tentanto possuir um rosto para si e outro para o mundo, jamais encontrará paz. Mais cedo ou mais tarde esquecerá quem foi e de quem seria — e se perderá nas visões de outros."

— Kaelor Volkov. Um vampiro que escolheu não ser como você, um "qualquer". 1485–2003.

Cody entrou no elevador. Apertou o botão do quadragésimo sétimo em meio a botões que iam até o seicentos e seçenta e seis.

A varanda ocupava toda a extensão do andar. Korben Volkov estava de pé de frente para Manhattan, com as duas mãos apoiadas no parapeito e o copo de whisky na direita. Não se virou quando Cody saiu pela porta de vidro.

A secretária fechou a porta atrás deles sem fazer barulho.

— Sente-se.

Não foi um convite.

Cody se sentou.

Apreciando a vista de manhatan ele ousou olhar para cima e viu andares que estendia e se perdiam atraves das nuvens.

A mesa entre as duas cadeiras tinha uma garrafa de whisky e dois copos. Korben foi até a cadeira do outro lado sem pressa, serviu o copo de Cody sem perguntar, e ficou de pé por um momento segurando o dele, olhando para a cidade lá embaixo como se estivesse contando alguma coisa.

Depois sentou.

— Conversamos sobre muitas coisas na última vez que você esteve aqui. — Korben rodou o copo levemente pela mesa sem erguê-lo. — Mas houve uma coisa. Uma pessoa, na verdade se me lembro bem.

Cody esperou.

— Falamos sobre seu primo. O licano.

— Nós vamos pagar. As bocas que temos por lá tavam abastecidas até—

— Óbvio que vão pagar. — Korben finalmente ergueu o copo e bebeu um gole pequeno, preciso. — Isso não está em discussão.

Silêncio. Korben colocou o copo na mesa com uma calma que era mais assustadora do que qualquer tom de voz levantado.

— Os policiais acharam tudo que estava lá. — Não era uma pergunta. Era uma afirmação que esperava ser contradita. — Você sabe disso.

Cody assentiu. Bebeu o copo inteiro de uma vez e encheu de novo.

— Acharam tudo. — Korben repetiu, mais devagar. — Estava enterrado. Estava fora da casa, como ensinamos a todos que trabalham conosco. E mesmo assim acharam. Como se soubessem exatamente onde cavar. E o quanto cavar. — Ele inclinou levemente a cabeça. — Como se alguém tivesse desenhado a porra de um mapa. — Korben falou em pausas, aumentando a voz cada vez mais.

— Foram os caras de L.A que foram até lá. Foram pegos no caminho de volta.

— Meu deus, se você não me contasse, eu nunca saberia. — "Por satan, eu devo ter jogado pedra na curz so pode." Korben balbuciou pra si, enquanto servia mais Whisky em seu copo. — O tom de Korben não mudou. Era isso que tornava a ironia mais cortante — ela não precisava de entonação para ferir. — Já disse mais de uma vez: não façam negócios dentro de casa. Mas parece que dar ordens a você é o mesmo que tentar adestrar uma porta.

Cody olhava para os próprios pés.

— E as matérias-primas enterradas? — Korben continuou, a voz mais baixa agora, como se estivesse pensando em voz alta. — Como sabiam onde estavam? Porque, caso sua audição esteja falhando — ELES ACHARAM TUDO.

As últimas duas palavras vieram sem aviso. Korben não gritou — endureceu. A diferença era importante. Alguém que grita perdeu o controle. Korben nunca perdeu nada.

Cody ergueu o olhar.

— Não faço ideia. Eles não tinham como saber. Um dia antes de irem lá, a gente desenterrou e deixou tudo pronto para quando chegassem.

Korben ficou em silêncio por um momento que durou tempo demais. Depois:

— Então os policiais adivinharão onde cavar. Verdadeiros videntes. — Ele pegou o copo de novo. — Que sorte a sua, ter gente com tanto talento trabalhando contra você.

Korben se levantou e foi até o parapeito, de costas para Cody.

— Foram investidos neste trimestre cento e treze milhões de dólares em vocês dois. Esse valor deveria ter se tornado trezentos e cinco milhões — vinte e quatro dos quais seriam de vocês. — Pausa. — Nos custou oitenta e um milhões apenas para tirar os nomes de vocês dos jornais e das delegacias de um país inteiro.

Ele ficou quieto por um momento, olhando para Manhattan a noite.

— Quero os trezentos e sessenta e dois milhões que vocês devem a esta empresa e às pessoas que investiram em vocês através de nós. E quero o rato. Até o fim do trimestre. Sem explicações, sem extensões. Até lá, não quero ver a cara de nenhum dos dois.

Cody se levantou e deixou o copo na mesa.

— Demoro. A gente vai se acertar. Vou resolver essa situação.

— Caso a incompetência de vocês tenha crescido além do que consigo calcular — Korben falou por cima do ombro, sem se virar — e vocês não consigam o dinheiro... — Uma pausa pequena e deliberada. — Seu primo tem uma irmã. Filha de uma mulher, poderosa. Tenho certeza de que poderíamos chegar a um acordo. Principalmente agora, ela esta com quanto mesmo? — vinte aninhos. A flor da idade.

Cody não respondeu.

Atravessou a sala, apertou o botão do térreo e ficou parado enquanto as portas fechavam. O elevador começou a descer. Mais rápido do que deveria. Ou talvez o tempo estivesse passando devagar demais para o peso do que havia ouvido.

Ele levou a mão à cabeça. A enxaqueca chegou de repente, como sempre chegava quando alguma coisa grande demais tentava caber num espaço pequeno.

— Droga. — Murmurou para si mesmo.

As portas abriram. Ele desapareceu naquele mar de seres vazios.

O sol tinha acabado de nascer.

O cheiro da terra molhada da chuva que havia durado a noite toda e da bosta do cachorro que cagava ao lado de sua casa inundava o nariz do Fenrir.

Às vezes eu gostaria de voltar para casa e abraçar a minha mãe. Chorar abraçado nos braços dela. Naqueles peitos macios, eram os únicos momentos de sua vida em que ele jura que podia se sentir flutuando, como se estivesse boiando no espaço — com os olhos fechados, sentir na sua pele contra a dela a leveza da insignificância da sua existência.

Fenrir estava sentado na beira da cama de solteiro, fumando um cigarro com o cotovelo no joelho. Se levantou, se espreguiçou, virou para sair do quarto — e o primo apareceu na porta ao mesmo tempo, molhado da cabeça aos pés.

— Acabei de chegar. — A voz de Cody parecia cansada e sonolenta. — Tava em Nova York falando com o chefe. — Cody encostou no batente e deu espaço para o primo passar. — Temos até o fim do trimestre pra pagar os trezentos e sessenta e dois milhões.

— Tudo isso? — Fenrir respondeu com a voz rouca de dentro do banheiro, com a porta aberta, mijando. — Ele bem que podia dar um desconto depois de todo esse tempo. Até nosso salário a gente vai pagar pra ele. Filha da puta, ladrão.

— Os nossos vinte e quatro entraram no bolo junto com os oitenta milhões que eles pagaram pra livrar nossa cabeça de uma caçada. Com os vinte e quatro teria sido trezentos e oitenta e seis. — "Foda se"Cody balbuciou com a voz baixa e cansada — Quase nem faz diferença. — Cody encostou na parede com sono.

— Eles nem deviam cobrar esses oitenta milhões. Tava no contrato que era obrigação deles com funcionários com mais de dois anos de serviço. — Fenrir terminou, se estreitou pra passar pelo primo e foi para a sala.

— Odeio esses caras de terno. Tenho certeza que embaixo daquela calça colada de viado ele fica com um plug enfiado na bunda. Bicho cuzão do caralho.

Cody passou a mão no rosto ao ouvir as palavras do primo, ele achou que podia estar tendo pesadelos com a arrogancia do primo.

— Isso porque ele acha que temos um rato. — Ele seguiu atrás do fenrir que se jogava no sofá. — E você acha mesmo que ele ia cumprir com essa parte? O que você faria se ele não cumprisse?

— Processaria ele de volta? — Fenrir escutou aquilo pegando um cigarro no bolso da calça. — Acho que não dá certo pra nenhum dos lados. Principalmente pra traficantes e assassinos.

— São uns desgraçados. A gente já deu tanto dinheiro pra eles. — Fenrir falou acendendo o cigarro e olhou pro primo com a dúvida pintada na cara que o encarava. — Não faço a menor ideia de quem poderia ser o rato. Ninguém mais além de nós sabia. E ele sabem disso.

Os dois ficaram quietos por um momento. Fenrir deu um trago. Cody olhava para a televisão desligada — e no reflexo escuro da tela, os dois sentados no sofá pareciam uma fotografia de algo que ainda não tinha nome.

— Você pegou chuva no caminho? — Fenrir perguntou sem tirar os olhos do reflexo deles.

— Foi. Fui rápido e na volta não tava com a mesma força. — Onde você tava ontem de tarde?

— Você sabe. Resolvendo o negócio da dívida com o Arthur.

— O dia todo? — Cody respondeu logo depois. — Achei que você tivesse uma técnica.

— Passei na casa da minha vó também. — Fenrir acendeu outro cigarro, o anterios havia sido rasgado no meio quando ele puxou, fumaça vaza-va. — Ela pode ser meu álibi se quiser seguir com a investigação, detetive.

— Só nós dois sabíamos. — Cody ainda olhava o Fenrir pelo reflexo. — Justamente pra evitar esse tipo de problema.

— E o que você tá querendo dizer com isso? Que eu ia fuder com nossa operação toda. A troco de quê?

Os olhos dos dois se encontraram no reflexo da televisão desligada e ficaram assim por um tempo que durou mais do que qualquer um dos dois teria admitido.

— Então tá certo. — Cody o olhou por uma ultima vez e se levantou. — A gente precisa arrumar a grana de um jeito ou de outro. Precisamos desse dinheiro se quisermos continuar.

— Vamos dar um jeito. Sempre nos viramos. — Fenrir se levantou e pegou as chaves da caminhonete. — Vou dar uma volta.

A porta bateu.

Cody ficou parado na frente da geladeira aberta, olhando para dentro sem ver nada. O frio saindo era reconfortante de um jeito idiota. Ele pensava em motivos para seu primo ter feito aquilo — tentando montar um argumento que fechasse, mas cada vez que fechava de um lado abria de outro.

O celular tocou.

Craig ligava, os dois sem cumprimentavam enquanto Fenrir do lado de fora, entrava em sua caminhonete, e saia em direção casa de sua vó

— Quem? — A voz do Craig saiu rápida. — Não era só você e o Fenrir que sabiam onde tavam as paradas? Ou você acha que foi aqueles caras de lá da rua que ele anda?

— Que nada. Os caras lá tavam tudo dentro de casa na hora, todos bebos. E com certeza as casas deles também foram invadidas — tinha mais de um motivo dentro da nossa casa pra isso.

Cody colocou a lasanha no micro-ondas e ficou olhando o prato girar.

— Então quem poderia ser? Você tá ligado que eu e o Arthur nem sabíamos onde você enterrava as paradas. — O som baixo de reggae atrás da voz do Craig parava de vez em quando como se ele tivesse pausado algo.

— Não, viado, fica tranquilo. Vocês e a Lila são os últimos que eu iria desconfiar. Confiança total. A gente se conhece de um milênio.

— Então quem? — Craig fez uma pausa. — O Fenrir?

Do outro lado da linha, a mente do Cody congelou.

Craig havia verbalizado algo que o Cody já vinha cozinhando a noite toda sem conseguir servir — uma ideia que ficava quente demais para tocar de frente. Por que ele? O que o Fenrir teria a ganhar? As perguntas eram rápidas demais para ter resposta, e a ausência de resposta era a resposta que mais doía.

— Não sei. — Cody olhou pela janela. A caminhonete do primo já não estava mais lá. — Mas nós vai ter que pressionar essa ferida pra ver que dor ele sente.

O micro-ondas apitou.

A lasanha estava pronta.

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