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Capítulo 06: O Preço do Veneno

BELADIA
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livro (Querida, Sorria!)

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Aquele momento na despensa, com a mão na chave, acho que todo mundo que já trocou uma coisa por outra conhece aquele parar e recuar.

Aquele momento na despensa, com a mão na chave, acho que todo mundo que já trocou uma coisa por outra conhece aquele parar e recuar.

Conteúdo da publicação

livro (Querida, Sorria!)

Os primeiros cento e vinte dias no bangalô não tiveram a beleza poética de um renascimento. Tiveram o cheiro ácido de bile, o suor frio da madrugada e os tremores incontroláveis da abstinência.

Maraíra havia parado de tomar todos os medicamentos e trancado as garrafas de destilados no armário da despensa. A decisão de viver, no entanto, não avisou ao seu corpo que o pior já havia passado. Acostumado à letargia do álcool e à agressividade química dos remédios, o organismo de Maraíra entrou em colapso ao ser privado de seus venenos diários.

A febre e os tremores vieram.

Maraíra estava caída no tapete da sala, os joelhos encolhidos contra o peito, os dentes batendo tão forte que a mandíbula doía. O frio parecia nascer de dentro dos seus ossos, irradiando para a pele pálida e coberta por uma fina camada de suor gelado. Quando tentava levantar, a sala girava vertiginosamente. O estômago contraía-se em espasmos dolorosos, expulsando apenas um líquido amargo.

Foi Vivi quem a encontrou daquele jeito. A enfermeira rural não demonstrou pena, nem proferiu palavras doces de consolo. Com a frieza técnica e meticulosa de quem já havia visto a morte de perto, Vivi a arrastou para o chuveiro e ligou a água fria.

— Me solta! — Maraíra gritou, debatendo-se fracamente enquanto a água gelada chocava-se contra sua pele febril.

— Fique quieta. Seu corpo está fritando por dentro — ordenou Vivi, segurando-a pelos ombros com firmeza, ignorando os protestos.

Nas semanas que se seguiram, o bangalô tornou-se uma clínica de reabilitação improvisada. Vivi passava no início da manhã e no fim do expediente. Encontrava Maraíra em estados variados de degradação: algumas vezes chorando, encolhida no sofá; outras vezes rosnando de irritação, caminhando de um lado para o outro como um animal enjaulado, os dedos tremendo de vontade de destrancar o armário das bebidas.

 — Você está sentindo dor? — perguntou Vivi certa noite, sentada na beirada da cama enquanto forçava Maraíra a engolir meio copo de água.

— Tudo dói. Meus músculos, minha cabeça, minha pele... parece que estou rasgando por dentro — sussurrou Maraíra, com os olhos fundos e escuros pela insônia crônica.

— É o seu corpo expulsando a mentira — Vivi respondeu secamente, recolhendo o copo. — A verdade dói, Maraíra. Você passou meses anestesiando a sua raiva. Agora vai ter que aprender a senti-la sóbria.

A compaixão de Vivi era prática. Ela não alisava os poucos cabelos que restavam na cabeça de Maraíra; ela trazia soro caseiro, obrigava-a a mastigar pedaços de pão e a tomar o caldo do Tio Zé, monitorando-a sempre com um olhar clínico.

Certa madrugada, por volta da quinta semana, a insônia atingiu um pico insuportável. Maraíra levantou-se, as pernas ainda fracas, e caminhou até a despensa. A chave estava no trinco. Bastava girar. Uma única dose de uísque silenciaria o zumbido em sua cabeça e faria o tremor em suas mãos parar.

Ela tocou o metal frio da chave. Fechou os olhos.

A imagem da mãe veio à mente. Depois, o sorriso condescendente de Pedro e o olhar de deboche da irmã, Júlia. Se abrisse aquela porta, continuaria sendo a vítima frágil que todos eles esperavam que ela fosse. A mulher patética que sempre fora, que mentira para todos e para si mesma.

Maraíra recuou um passo.

Não girou a chave.

Em vez disso, caminhou até a cozinha, pegou uma garrafa de água na geladeira e sentou-se na varanda, enrolada em um cobertor grosso. O vento gelado da montanha cortava o ar. Pela primeira vez em mais de sessenta dias, suas mãos não tremiam.

A mulher doente havia morrido, de fato, naqueles dias de febre e suor. Quem via o sol nascer naquela manhã era alguém que já não queria morrer.

O alvorecer surgiu tímido, despontando em notas suaves de azul-claro e amarelo. Foi como se o sol tomasse a noite em um abraço forte e caloroso; aos poucos, o horizonte foi tingido por uma aquarela viva de vermelho, dourado e roxo, até que a escuridão se dissipasse por completo. O canto dos pássaros rompeu o silêncio, e o vento frio que soprava suavemente na varanda serviu como um lembrete físico e inegável: a vida pulsava no corpo de Maraíra. E era uma vida nova.

Maraíra levantou-se e disse, em um sussurro para si mesma:

— Vou fazer um café. Pois agora eu tenho que ter planos. Um plano para viver e outro para destruir quem vier destruir essa nova vida.

 

 

 

 

 

 

 

Thoughts

  • gastoInvisivel

    Quem já caiu sabe que o importante é quem aparece. Vivi apareceu.

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  • escritorioAberto

    Vivi era exatamente o que Maraíra precisava. Sem pena, sem doçura de filme. Só 'seu corpo está fritando'.

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  • emailSemLer

    Aquele momento na despensa, com a mão na chave, acho que todo mundo que já trocou uma coisa por outra conhece aquele parar e recuar.

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