Hadria ia na frente de olho em tudo. Não entra naquele deserto sabendo de nômades carnívoros sem já ter um plano. O Luiz tagarelando, ela vigilante.
Capítulo 06 : O Crepúsculo nas Terras Negras
livro (trinta dias para a última lua)
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Hadria ia na frente de olho em tudo. Não entra naquele deserto sabendo de nômades carnívoros sem já ter um plano. O Luiz tagarelando, ela vigilante.
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livro (trinta dias para a última lua)
O sol estava quase se pondo, e a escuridão da noite começava a engolir a vasta imensidão do deserto de areias vermelhas e pretas. O entardecer naquele domínio não trazia a suavidade de um crepúsculo comum; era um espetáculo grandioso, brutal e hipnótico.
O céu parecia queimar. As nuvens ralas rasgavam o firmamento tingindo-se com as cores de uma ferida aberta, explodindo em tons de carmesim ardente, laranja-ferrugem e um violeta tão profundo que já antecipava o luto da noite. No horizonte infinito, onde as dunas pontiagudas encontravam a abóbada celeste, o enorme astro moribundo parecia sangrar sua última luz, banhando as planícies em um brilho espectral e alongando as sombras até que se tornassem garras escuras arranhando o chão.
Com a queda da temperatura, a brisa noturna despertou, cortando a paisagem com um assobio baixo e constante. O vento varria as cristas das dunas com elegância, levantando finos véus de areia que dançavam no ar como espíritos inquietos. Era uma coreografia mágica: os minúsculos grãos vermelhos cintilavam sob a luz agonizante como pó de rubi esmagado, misturando-se à areia negra que subia pesada, espiralando feito cinzas de um vulcão adormecido.
As duas cores se abraçavam em redemoinhos perfeitamente coreografados pelo vento, reescrevendo a geografia do deserto a cada segundo. A superfície ondulava como um oceano de fogo e trevas, apagando qualquer rastro de vida e reforçando a beleza imponente, silenciosa e mortal daquele lugar.
A beleza do deserto das Terras Negras contrastava com a letalidade do lugar. A areia fina, quando inalada e alojada no organismo, petrificava o corpo lentamente. Em quinze dias, qualquer ser vivo viraria pedra e, em seguida, se despedaçaria, tornando-se parte das dunas. A petrificação trazia uma dor agonizante para os viajantes. Os nômades demoníacos, nascidos no deserto, utilizavam um equipamento em volta do nariz para purificar o ar. Somado a isso, a própria anatomia deles os protegia: não se tornavam pedra em quinze dias. Poderiam viver no deserto por cinquenta anos antes de, finalmente, se petrificarem e retornarem como areia para a vastidão.
Caminhando logo atrás de Hadria, o príncipe Luiz tagarelava. Com a propriedade de quem passara um século em uma biblioteca, ele explicava que havia lido sobre os perigos daquela região. No deserto das Terras Negras, existiam tribos demoníacas nômades que eram absurdamente sanguinárias e estritamente carnívoras, prontas para devorar qualquer coisa viva que encontrassem pela frente. Segundo ele, os dois precisariam manter o máximo de cuidado e discrição para evitar, a todo custo, cruzar o caminho desses grupos.
Ele ainda estava falando quando, de repente, sentiu uma dor aguda explodir em sua nuca.
Sua visão escureceu instantaneamente e seu corpo desabou, pesado e inerte, afundando na areia. Algo grande e forte o havia atingido em cheio pelas costas.