Ele sabia que era cilada mas foi do mesmo jeito. Isso é coragem ou é sinal de que ele não quis sair de verdade?
Calor que provoca arrepio
O vento que vinha do oceano trazia apenas o cheiro de sal e a promessa de uma noite longa. A ilha, sem carros e com trilhas mergulhadas na penumbra, parecia concentrar toda a energia naquela praia.…
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Pensamento
Ele sabia que era cilada mas foi do mesmo jeito. Isso é coragem ou é sinal de que ele não quis sair de verdade?
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O vento que vinha do oceano trazia apenas o cheiro de sal e a promessa de uma noite longa. A ilha, sem carros e com trilhas mergulhadas na penumbra, parecia concentrar toda a energia naquela praia. Sob o brilho de tochas fincadas na areia, a vila vibrava.
A música eletrônica misturava-se ao barulho ritmado das ondas que quebravam a poucos metros da pista. Sob um céu absurdamente estrelado, livre das luzes do continente, o lugar estava lotado. Rostos bronzeados, risadas ecoando entre taças e o vaivém de gente que parecia ter deixado o resto do mundo do outro lado do canal.
A brisa trazia o perfume dela. Cabelos escuros, olhos de tempestade e um sorriso de esfinge — verdadeira aparição do nascer do sol em plena noite. Era a imagem de uma mulher saída de lendas, de um filme antigo ou das páginas esquecidas de um livro. Ela bailava entre corações desatentos, caçava amores platônicos e arrastava ao abismo as almas puras.
Ninguém ali percebia o perigo; para a multidão hipnotizada pelo álcool e pelo balanço do ritmo, ela era apenas a mais fascinante da pista. Mas havia um rastro invisível em seus passos. Enquanto varria o lugar com o olhar, os homens se perdiam em fantasias instantâneas, oferecendo drinks e promessas vazias. Ela os descartava com um leve aceno, buscando algo mais raro: alguém que realmente sentisse demais, com uma alma inteira para ser entregue ao mar.
Ao longe, caminhando pela faixa de areia molhada onde a espuma morria, estava o rapaz. A camisa leve, aberta ao peito, revelava o traço de uma tatuagem tribal no ombro. De chapéu e cabelos loiros que escapavam pelas bordas, parecia alheio ao transe ao redor. Segurava uma garrafa de aguardente, mas seus olhos buscavam a imensidão escura do horizonte, como se procurasse respostas na escuridão.
Ele era a própria liberdade. Dono de um coração vadio, caminhava imune a alianças ou amarras, incapaz de se prender a um porto seguro. O desapego era sua armadura; a noite, sua única cúmplice.
Deixando a solidão para trás, avançou em direção à luz das tochas. Sem pedir licença, puxou uma garota qualquer para dançar em um rodopio improvisado. Ao mesmo tempo, beijou-a — um beijo intenso, mas entregue de forma desinteressada, saboreando o instante sem intenção de guardar o amanhã.
Foi quando seus caminhos se cruzaram. Confiante em seu próprio magnetismo, tentou o mesmo jogo com a morena, mas ela não caiu na armadilha. Firme, dona de seu mistério, recusou a dança e o calor daquele corpo. O feitiço dele bateu contra uma rocha intransponível.
Ele não se abalou. Com um sorriso de canto de boca, deu um passo para trás e ergueu a garrafa em um brinde silencioso antes de sumir na multidão. As horas passavam devagar e a juventude escorria entre os dedos de todos, celebrada e desperdiçada a cada gole.
Já alta madrugada, o som silenciou e as tochas se reduziram a brasas trêmulas. O rapaz caminhou sozinho até a beira da água, deixou o chapéu e a garrafa na areia e decidiu dar um mergulho.
A morena o seguiu a passos silenciosos. Parou a poucos metros de onde as ondas morriam e quebrou a calmaria:
— Ei, você... Desiste fácil, né?
Ele não se virou. Mantendo os olhos fixos na linha escura do oceano, apenas respondeu, com a voz mansa:
— Não faço jogos. Sou um presente do destino.
Ela deu um passo à frente, intensificando o aroma que desafiava o salitre:
— Eu tenho o aroma do amor verdadeiro, mas sou inalcançável para você.
Só então ele se virou, os cabelos loiros desalinhados pela aragem. Sustentou o olhar de tempestade dela e, desafiador, sorriu. Sem palavras, avançou contra a arrebentação e submergiu na vastidão, engolido pelo mar profundo.
Ela ficou estática, vigiando o ponto onde ele desaparecera, intrigada com aquele desinteresse genuíno. Segundos depois, também entrou na água. Mais à frente, onde a espuma batia contra os rochedos negros do canal, emergiu e subiu em uma pedra isolada. Sob a luz prateada do luar, revelou-se por inteiro: em lugar das pernas, uma cauda de sereia brilhava com as cores do abismo.
De repente, um arco perfeito na água chamou sua atenção. O salto cortou o reflexo da lua. Um observador comum pensaria em um golfinho, mas os olhos dela enxergaram a malícia do movimento e o tom rosado místico que reluziu por um segundo. Um boto. O outro mestre da sedução, que também usava chapéu e sumia antes do amanhecer, aceitara o jogo.
Dias depois, em outra praia daquela costa recortada, o rapaz reapareceu sob o sol poente. Caminhava cambaleante, embriagado e com a alegria ruidosa de quem não conhece remorsos. Ao seu lado, segurando sua mão, ia uma moça de olhar deslumbrado, entregue a uma paixão ingênua. Ela ria de suas palavras desconexas, crente de que havia capturado aquele coração vadio.
Entre risos, a jovem o convidou para sua casa. O caminho exigia cruzar uma trilha fechada rumo ao centro da ilha, onde as árvores barravam a luz e o som do oceano desaparecia. O rapaz hesitou; sua natureza recuava ao se afastar das águas. Sentia o prenúncio de uma cilada, mas, movido pela audácia de desafiar o perigo, aceitou. Entraram na escuridão da mata.
A caminhada foi agradável e curta. Logo chegaram a um casebre rústico. Ao cruzar a soleira, ele notou símbolos estranhos nas paredes, cordões de miçangas pendendo do teto e frascos com poções sobre a mesa. No canto, havia bebida de sobra.
Com um sorriso que perdera a inocência, a moça sentou-se em seu colo e ofereceu-lhe um copo de cachaça. Ele sorveu o líquido suavemente, sem perceber a armadilha. Longe da proteção do oceano, o feitiço da terra foi implacável: as pálpebras pesaram e um sono sobrenatural o invadiu. No limiar da inconsciência, a voz dela tornou-se um canto sussurrado e sombrio:
— Nana, neném, que a Cuca vem pegar...
Ela o arrastou para a cama, despiu-o e sussurrou em seu ouvido:
— Você é meu para sempre.
A jovem sorriu, certa de sua vitória. Do lado de fora, o vento percorreu a mata e fez as folhas estremecerem. As velas espalhadas pelo casebre vacilaram ao mesmo tempo, como se uma presença invisível atravessasse o lugar.
Então outra voz rompeu o encanto.
Não vinha da porta nem das janelas. Parecia brotar da própria escuridão entre as árvores, antiga como a noite e profunda como o mar.
— Deixe-o livre.
A moça congelou.
— Ele não pertence a ninguém, irmã.
Pela primeira vez, a confiança desapareceu de seus olhos.
As sombras do casebre estremeceram. Sobre a mesa, os frascos vibraram suavemente.
A jovem recuou um passo.
Lá fora, uma onda arrebentou contra as pedras com um estrondo distante, embora o oceano estivesse longe dali.
O rapaz permaneceu adormecido, mas seus dedos se moveram levemente.
Então o silêncio retornou.
E, naquele instante, o feitiço começou a se desfazer.
O rapaz despertou na areia com os membros pesados e a mente envolta por uma névoa espessa. O gosto amargo da cachaça ainda permanecia em sua boca, misturado a lembranças desconexas da noite anterior. Por alguns instantes, permaneceu imóvel, fitando o céu que começava a clarear, incapaz de compreender como havia deixado aquelas águas para trás.
Aos poucos, porém, sentiu o chamado familiar do Atlãntico. Era uma atração antiga, irresistível, gravada em sua própria natureza. Reuniu as poucas forças que lhe restavam e começou a se arrastar pelo areal úmido. Cada movimento parecia arrancar dele o último vestígio de energia, mas a proximidade da água devolvia lentamente o brilho aos seus olhos.
Quando seus dedos tocaram a espuma da primeira onda, algo mudou. O oceano o recebeu como quem acolhe um filho perdido. Sem hesitar, avançou. A água subiu por suas pernas, envolveu sua cintura e seu peito, até que foi engolido pela imensidão escura. Poucos instantes depois, não havia mais sinal dele, apenas o movimento incessante das marés apagando seus rastros na praia.
Mais adiante, onde o mar encontrava o céu em tons azulados de amanhecer, um pequeno barco balançava suavemente ao sabor da corrente. Sentada na proa, a morena acompanhara tudo em silêncio. Seus olhos seguiram o vulto dele até o instante em que desapareceu sob a superfície. Não havia surpresa em seu olhar, tampouco arrependimento. Havia apenas a compreensão melancólica de quem finalmente aceitara aquilo que sempre soubera.
Então ela começou a cantar.
A melodia espalhou-se sobre as águas calmas como um segredo antigo, carregando uma tristeza serena que não nascia da perda, mas do reconhecimento.
Enquanto cantava, uma lágrima deslizou por seu rosto e caiu silenciosamente no oceano.
Ao longe, quase confundido com o brilho nascente do sol sobre as águas, um breve reflexo rosado rompeu a superfície antes de desaparecer novamente nas profundezas.
A morena sorriu, e sua canção prosseguiu, suave e eterna, acompanhando o horizonte até que a manhã enfim tomou conta do mundo.
Thoughts
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PermalinkA sereia cantando no barco é tão antiga quanto a Odisseia. A gente esquece que lenda se torna lenda porque as pessoas reconhecem a verdade dela.
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PermalinkIsso lembrou daqueles mitos onde o rapaz amado demais acaba afundando no rio porque quem ama gente demais não consegue sair da água. A gente nunca sai ileso.
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PermalinkMas viram que ninguém consegue prender quem quer ir embora de verdade? Ele queria tanto o oceano que nem conseguiu ficar.
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PermalinkParece que era pro ficar mesmo. Quando a gente é do mar ninguém consegue prender na terra.
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PermalinkEle sabia que era cilada mas foi do mesmo jeito. Isso é coragem ou é sinal de que ele não quis sair de verdade?
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